
Especialistas reunidos na Áustria alertam que o planeta ainda não sabe qual será o pico nem como voltar a resfriar.
O problema mais urgente do chamado overshoot climático não é apenas ultrapassar 1,5°C de aquecimento global. É descobrir até onde a temperatura vai subir, por quanto tempo permanecerá acima desse limite e se será possível fazê-la cair depois. Essas dúvidas foram levadas a uma conferência internacional realizada em Laxenburg, na Áustria, entre cientistas, pesquisadores e especialistas em direito climático.
O encontro reuniu cerca de 180 participantes e ocorreu na primeira semana de outubro de 2025. A discussão tratou de um cenário previsto em algumas trajetórias climáticas: o planeta excede temporariamente o limite de 1,5°C do Acordo de Paris e, mais tarde, tenta retornar a esse patamar por meio da retirada de dióxido de carbono da atmosfera.
O pico pode estar mais perto ou mais alto do que os planos consideram
Para James Fletcher, ex-ministro de Santa Lúcia e negociador da COP21, a principal incógnita é o ponto máximo do aquecimento. As possibilidades discutidas por ele incluem picos de 1,6°C, 1,7°C ou 2,1°C. Para pequenos Estados insulares, cada fração adicional representa uma diferença relevante na exposição a impactos irreversíveis.
A duração também importa. Um pico breve não produz necessariamente os mesmos efeitos de décadas de temperaturas elevadas. O período acima do limite pode ampliar riscos para ecossistemas, infraestrutura e comunidades antes que qualquer eventual redução da temperatura aconteça.
Segundo a Carbon Brief, cerca de 180 especialistas participaram da conferência sobre overshoot climático em Laxenburg, na Áustria, na primeira semana de outubro de 2025.
Voltar para 1,5°C não é uma consequência automática
A ideia de que a temperatura cairá depois de atingir o pico ainda depende de hipóteses científicas e políticas. Shobha Maharaj, professora da University of Fiji e autora do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, destacou que o retorno não deve ser tratado como garantido.
O alerta envolve a chamada remoção de dióxido de carbono, conhecida pela sigla CDR. As técnicas podem incluir a captura de carbono diretamente do ar, o armazenamento em florestas ou solos e outras soluções ainda em desenvolvimento. O alcance real dessas alternativas, seus custos, sua escala e seus efeitos colaterais permanecem incertos.
Jim Skea, presidente do IPCC, afirmou que existem grandes lacunas de conhecimento sobre a resposta da Terra à retirada de carbono. Também não está claro se o sistema climático reagirá de modo simétrico: a queda da temperatura pode não repetir, em sentido inverso, o caminho da alta provocada pelas emissões.
Planos de adaptação podem precisar ser refeitos
O aquecimento não é percebido apenas em médias globais. Ele altera decisões concretas sobre pontes, sistemas de alerta, abastecimento, agricultura, moradia e saúde. Kristie Ebi, professora da University of Washington, observou que muitos planos de adaptação trabalham com a hipótese de aumento contínuo da temperatura.
Um cenário de pico seguido de queda mudaria parte dessas projeções, mas não necessariamente reduziria os danos acumulados. Uma obra dimensionada para uma temperatura menor pode falhar durante o período de excedência. Um sistema de alerta criado para uma tendência permanente de alta também pode não estar preparado para riscos que aumentam e depois mudam de comportamento.
Para países e regiões com menos recursos, revisar planos representa um desafio adicional. A professora Shobha Maharaj avaliou que estratégias formuladas para um teto de 1,5°C provavelmente terão de ser modificadas ou reconstruídas.
O problema também é político e jurídico
O debate não se limita a modelos climáticos. Lavanya Rajamani, professora de direito ambiental internacional da University of Oxford, apontou dúvidas sobre a capacidade das regras atuais de responder a um mundo em overshoot. A questão envolve governos nacionais, acordos regionais e instituições internacionais.
Outro ponto é a disposição dos países para manter emissões líquidas negativas, ou seja, remover da atmosfera mais carbono do que lançam. Oliver Geden, pesquisador do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, observou que as trajetórias científicas consideram essa etapa, mas poucos governos assumem compromissos explícitos para alcançá-la.
Isso cria uma distância entre os cenários dos modelos e as decisões reais. Sem redução rápida das emissões, a remoção de carbono passa a carregar uma responsabilidade maior. Para Nebojsa Nakicenovic, do International Institute for Applied Systems Analysis, a prioridade deve continuar sendo a mitigação, e não a expectativa de que tecnologias futuras compensem atrasos atuais.
O que o overshoot significa para a Amazônia
Para a Amazônia, a discussão chega à escala do planejamento regional. Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão dependem de decisões sobre cidades, estradas, energia, produção rural, rios e serviços públicos que precisam considerar mudanças climáticas de longo prazo.
O ponto central não é prever uma data para a temperatura voltar a cair. É evitar que políticas públicas sejam construídas supondo que a reversão será rápida, uniforme ou tecnicamente simples. Na região, planos de adaptação precisam lidar com a possibilidade de um período prolongado de estresse climático e com impactos que podem se combinar.
Debra Roberts, especialista em políticas urbanas e integrante do IPCC, chamou atenção justamente para a interação entre riscos. Temperatura elevada, danos à infraestrutura, pressão sobre serviços e dificuldades econômicas não acontecem de maneira isolada. A combinação pode reduzir as opções disponíveis para governos e comunidades.
As dúvidas que permanecem
Os participantes também citaram incertezas sobre a capacidade de florestas e solos continuarem absorvendo carbono nas proporções previstas pelos modelos. Há ainda perguntas sobre como medir a temperatura média global em uma trajetória de overshoot e como transformar cenários internacionais em ações domésticas que sejam politicamente e socialmente sustentáveis.
Carl-Friedrich Schleussner afirmou que pode existir um limite social para o aquecimento, abaixo dos limites puramente físicos ou tecnológicos. Se os impactos enfraquecerem a capacidade de cooperação das sociedades, a reversão poderá se tornar mais difícil mesmo que existam ferramentas para retirar carbono.
A conferência de Laxenburg não definiu uma solução única. O próximo passo é ampliar pesquisas sobre remoção de carbono, riscos combinados, governança e adaptação, enquanto países ainda podem reduzir emissões antes que o overshoot se torne o cenário dominante.
O debate completo sobre o tema está disponível na página da conferência internacional sobre overshoot.
Com informações de Carbon Brief.
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