
Estudo alerta que incêndios, degelo e degradação de áreas úmidas estão fora de modelos climáticos decisivos.
O aquecimento do planeta pode estar alimentando uma segunda fonte de calor que não aparece completamente nas contas oficiais: a deterioração dos próprios sistemas naturais. Tundras que descongelam, áreas úmidas que passam a liberar mais gases e florestas atingidas por incêndios maiores estão devolvendo carbono à atmosfera. Um estudo publicado em setembro de 2026 estima que esses processos podem ampliar em 20% a 30% o aquecimento causado pelas atividades humanas.
A consequência prática é uma margem de segurança climática menor do que a considerada em muitas projeções. Mesmo em um cenário no qual a humanidade alcance emissões líquidas zero nas próximas décadas, os chamados feedbacks naturais poderiam acrescentar 0,2°C à temperatura global. Se ainda houver emissões residuais até o fim do século, o acréscimo calculado se aproxima de 0,4°C.
A floresta deixa de ser apenas vítima do calor
O mecanismo funciona como um ciclo de retroalimentação. O aumento da temperatura favorece secas, ondas de calor, derretimento do solo congelado e incêndios mais frequentes. Esses eventos danificam ecossistemas que antes armazenavam carbono. Quando a vegetação morre, o solo descongela ou uma área úmida sofre alterações, parte do carbono acumulado pode ser liberada como dióxido de carbono ou metano.
Esse carbono adicional não vem diretamente da queima de carvão, petróleo ou gás, mas reforça o mesmo processo de aquecimento. O resultado é uma espécie de multiplicador natural das emissões humanas. O problema, segundo os pesquisadores, é que essa parcela ainda aparece de maneira incompleta nos modelos que orientam negociações climáticas e decisões de política pública.
Segundo o estudo publicado na revista Environmental Research Letters em setembro de 2026, os feedbacks de sistemas naturais podem adicionar de 0,2°C a 0,4°C ao aquecimento global até o fim do século, dependendo da trajetória futura das emissões humanas.
O número que muda a conta do carbono
O planeta já está cerca de 1,4°C mais quente do que no período pré-industrial. Ao mesmo tempo, as emissões de combustíveis fósseis continuam crescendo, e as projeções reunidas no material apontam para um aquecimento superior a 2,5°C neste século caso a trajetória atual não seja alterada.
Uma diferença de alguns décimos de grau pode parecer pequena no cotidiano, mas tem peso no planejamento climático. Ela influencia a frequência de extremos de calor, a duração de secas, o risco de incêndios, o nível dos oceanos e a capacidade de adaptação de cidades, lavouras e comunidades. Também reduz a quantidade de carbono que ainda poderia ser emitida antes que determinadas metas de temperatura fossem ultrapassadas.
O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados à Spark Climate Solutions, organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco. Para Sam Abernethy, autor principal, os modelos usados na formulação de políticas climáticas podem estar subestimando a velocidade do aquecimento e superestimando o volume de emissões que o planeta ainda conseguiria absorver.
“This hidden multiplier is missing from the models guiding climate policy, so those models are likely underestimating how much warming is coming, and overestimating how much carbon we can still afford to emit”, disse Sam Abernethy.
A avaliação não significa que os combustíveis fósseis deixaram de ser o principal motor da mudança climática. Eles continuam na origem do aquecimento provocado pela atividade humana. A conclusão é que a resposta dos ecossistemas pode tornar esse processo mais rápido e difícil de controlar do que indicam cálculos que não incorporam todas as fontes naturais de emissão.
Por que a Amazônia entra no centro da discussão
Na Amazônia Legal, formada por Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a conexão aparece sobretudo na relação entre floresta, seca e fogo. Uma floresta submetida a períodos mais secos fica mais vulnerável a incêndios. A degradação reduz a capacidade de armazenamento de carbono e pode criar condições para novos episódios de perda de vegetação.
Essa dinâmica interessa diretamente a governos, pesquisadores e comunidades da região porque transforma a floresta em parte decisiva do balanço climático. Preservar a vegetação não é apenas evitar uma emissão imediata associada ao desmatamento ou à queima. Também é manter uma barreira natural que ajuda a retirar e armazenar carbono enquanto o sistema permanece funcional.
O mesmo raciocínio vale para áreas úmidas amazônicas. Alterações no regime de chuvas, no nível dos rios e na cobertura vegetal podem modificar a forma como esses ambientes armazenam ou liberam carbono. O estudo não apresenta uma estimativa específica para cada estado amazônico, mas reforça que as projeções globais dependem de medições locais em regiões extensas e de difícil acesso.
O ponto cego dos modelos climáticos
Calcular as emissões de sistemas naturais é mais difícil do que contabilizar uma usina, uma frota de veículos ou uma indústria. Incêndios mudam de intensidade, solos respondem de forma diferente ao calor e a umidade varia ao longo do ano. Além disso, muitas áreas relevantes estão em locais remotos, como a Sibéria e a Bacia do Congo, onde faltam séries contínuas de observação.
Essa escassez de dados cria uma lacuna entre o que acontece no território e o que entra nos modelos. Brian Buma, cientista climático do Environmental Defense Fund, resumiu o risco ao afirmar que, sem contabilizar todas as emissões que chegam à atmosfera, a análise já começa incompleta.
“If you’re not including all the emissions going into the atmosphere, you’re hamstrung from the get-go”, disse Brian Buma ao Yale Environment 360.
Os pesquisadores agora tentam melhorar as previsões com observações de campo, sensores remotos e modelos capazes de representar incêndios, descongelamento e mudanças hidrológicas. O desafio é separar a emissão temporária de um evento extremo da transformação permanente de um ecossistema, além de evitar que uma mesma fonte seja contada duas vezes.
O estudo completo está disponível na publicação da Environmental Research Letters. O tema também é discutido pelo Yale School of the Environment, que acompanha a inclusão das emissões naturais nos modelos climáticos.
A próxima etapa será incorporar essas retroalimentações às projeções usadas por governos e organismos internacionais, reduzindo a distância entre os dados observados nos ecossistemas e as metas climáticas definidas para as próximas décadas.
Com informações de Yale Environment 360.
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