
Registro feito na Gold Coast mostra contato contínuo entre a fêmea e o filhote e amplia o debate sobre emoções em cetáceos.
Durante horas, e possivelmente por dias, uma baleia-jubarte permaneceu perto do corpo do filhote que havia acabado de perder na costa da Austrália. Filmada na região da Gold Coast, a fêmea tocou o animal morto com a cabeça e a nadadeira, manteve contato visual e não tentou levá-lo de volta à superfície.
As imagens foram registradas em 2025 e apresentadas em um estudo publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Discover Animals. Para os pesquisadores, o comportamento pode representar uma forma de resposta associada ao luto. A conclusão é tratada com cautela, porque não é possível afirmar diretamente o que um animal sente, mas a sequência fornece uma rara oportunidade de observar a reação de uma baleia à morte da cria.
O encontro no fundo do mar
Andrew Mulville, da Sea World Foundation, foi uma das pessoas que testemunharam a cena. A princípio, ele imaginou que estivesse diante de duas baleias descansando na superfície. A movimentação, porém, não correspondia ao comportamento esperado.
“At first sight, I thought it was just two whales resting on the surface, but their behaviour was unusual”, disse Mulville, segundo o relato dos pesquisadores.
O que ele encontrou foi uma fêmea acompanhada por outra baleia, mantendo-se próxima do filhote imóvel no leito marinho. Em vez de abandonar o corpo ou tentar transportá-lo, a mãe continuou a tocá-lo. O contato persistente chamou a atenção porque ocorreu em uma situação que os cientistas interpretam como posterior a um nascimento sem vida.
Segundo o estudo publicado em Discover Animals, uma baleia-jubarte foi observada na Gold Coast, Austrália, mantendo contato físico com o filhote natimorto por várias horas e possivelmente dias em 2025.
Por que o caso é considerado raro
O registro não é apenas uma observação de proximidade entre dois animais. Os pesquisadores afirmam que a fêmea não tentou elevar o filhote à superfície, comportamento que pode indicar que ela percebeu a morte pouco depois do parto. A ausência dessa tentativa é uma das pistas usadas para interpretar a cena.
“É realmente triste”, afirmou Olaf Meynecke, do Whales and Climate Research Program da Griffith University, à Agence France-Presse. Para o pesquisador, o contato contínuo da fêmea com o corpo torna o episódio difícil de observar, mas cientificamente relevante.
Os autores descrevem o caso como a primeira ocorrência detalhada e documentada desse tipo de comportamento em baleias-jubarte. Eles também registraram que outros filhotes mortos foram observados na mesma área no período, um dado que amplia o contexto da ocorrência, embora não estabeleça a causa das mortes.
O que a ciência consegue afirmar
A palavra “luto” exige cuidado quando aplicada a animais. Em humanos, ela envolve relatos internos, memória e significados culturais que não podem ser medidos da mesma maneira em outras espécies. No caso das baleias, os pesquisadores observam ações concretas, como permanecer ao lado do corpo, tocar o animal e alterar o padrão esperado de deslocamento.
Por isso, o estudo usa a expressão “comportamento relacionado ao luto”, e não uma afirmação definitiva sobre a experiência emocional da fêmea. A interpretação se apoia na forte relação entre mãe e filhote e na complexidade social atribuída às baleias-jubarte e a outros mamíferos marinhos.
Comportamentos semelhantes já foram descritos em orcas. Em 2018, uma fêmea ganhou atenção internacional depois de carregar o corpo do filhote morto por mais de duas semanas. Ela voltou a ser observada carregando o corpo de outro recém-nascido no ano passado, poucos dias depois de pesquisadores confirmarem um novo nascimento.
Olaf Meynecke também citou relatos envolvendo elefantes e grandes primatas. A diferença é que, em terra, pesquisadores e observadores conseguem acompanhar esses episódios com mais frequência. No ambiente oceânico, a distância, a profundidade e a mobilidade dos animais tornam registros prolongados muito menos comuns.
Uma sequência de descobertas sobre a espécie
O episódio na Gold Coast foi divulgado cerca de dois meses depois de outro registro associado à reprodução das jubartes. Um fotógrafo australiano capturou, com um drone, o que os pesquisadores consideram a primeira filmagem de um nascimento de baleia-jubarte.
Em maio, também foi anunciada a documentação de um deslocamento recorde entre áreas de reprodução. Uma das baleias havia sido vista na costa da Bahia, no Brasil, e foi identificada novamente 22 anos depois em Hervey Bay, na Austrália. A distância entre os dois pontos foi estimada em 9.383 milhas, cerca de 15.100 quilômetros.
Esse percurso aproxima o tema do público brasileiro, especialmente porque mostra a ligação entre a costa da Bahia e as áreas reprodutivas australianas por meio da identificação individual de uma baleia. O dado não significa que o episódio do filhote tenha ocorrido no Brasil, mas reforça como as rotas oceânicas das jubartes conectam diferentes continentes e permitem acompanhar a trajetória dos animais por décadas.
O que ainda precisa ser investigado
O estudo não determina por que outros filhotes mortos foram encontrados na área nem estabelece uma relação entre essas mortes e a reação da fêmea filmada. Também não transforma um único registro em regra para toda a espécie. A principal contribuição está em documentar uma sequência rara, com detalhes suficientes para orientar novas observações.
Para quem acompanha baleias no Brasil, o caso oferece outro motivo para valorizar registros de fotoidentificação, monitoramento e observação responsável. Imagens feitas em diferentes pontos da rota podem ajudar a entender idade, deslocamento, reprodução e relações sociais desses animais sem substituir a análise científica.
A pesquisa publicada em 16 de setembro de 2026 abre espaço para novos estudos sobre a resposta de baleias-jubarte à perda de filhotes, enquanto pesquisadores continuam avaliando registros semelhantes em outras áreas de reprodução e passagem.
Com informações de Griffith University.
Onde consultar o estudo
O artigo científico sobre o comportamento da baleia-jubarte está disponível no estudo publicado pela revista Discover Animals, que pode ser consultado na página da pesquisa.
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