
Estudo internacional indica que a flutuabilidade do magma pode ser mais decisiva que a quantidade de rocha derretida.
O próximo sinal de uma erupção pode não estar na fumaça, no tremor ou na deformação visível do vulcão, mas em um ponto muito mais profundo. Uma pesquisa conduzida por equipes do Imperial College London e da Universidade de Bristol indica que reservatórios de magma localizados entre 10 e 20 quilômetros abaixo do solo podem guardar pistas sobre o tamanho, a composição e a frequência das erupções.
O estudo, divulgado em 10 de maio de 2024 na revista Science Advances, amplia o foco tradicional do monitoramento vulcânico. Em vez de observar apenas as câmaras mais rasas, próximas da superfície e geralmente associadas ao armazenamento do magma antes de uma erupção, os pesquisadores investigaram a região onde a rocha sólida começa a derreter sob temperaturas extremas.
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Vulcões costumam dar sinais de atividade antes de uma erupção. Mudanças no formato do edifício vulcânico, tremores e alterações nas camadas superiores da crosta podem indicar que algo está se movimentando. Esses sinais, porém, nem sempre explicam qual será a intensidade do evento ou quanto tempo falta para ele ocorrer.
A nova abordagem procura uma resposta em uma etapa anterior do processo. Os dados reunidos pelos cientistas foram inseridos em modelos computacionais para simular o comportamento do magma em grandes profundidades. O resultado apontou que sua capacidade de flutuar pode ter papel mais importante do que a proporção entre rocha sólida e material já derretido.
Em termos simples, o magma sobe quando se torna menos denso que o material ao redor. Ao adquirir flutuabilidade suficiente, ele exerce pressão sobre a rocha acima, abre fraturas e encontra caminhos para avançar rapidamente até a superfície. É esse deslocamento que pode culminar em uma erupção.
Por que o tamanho da câmara não conta toda a história
Uma das conclusões que contrariam uma associação intuitiva é a relação entre o tamanho do reservatório e a força do evento. Uma estrutura maior consegue armazenar mais magma, mas isso não significa automaticamente que produzirá uma erupção maior.
O motivo está na perda de calor. Em reservatórios amplos, o calor se distribui por um volume maior, o que pode reduzir a velocidade com que a rocha ao redor se transforma em magma. Além disso, quando o material permanece por muito tempo no subsolo, a erupção resultante tende a ser menor, segundo os modelos analisados.
Isso ajuda a explicar por que uma avaliação baseada apenas no volume de magma pode levar a interpretações incompletas. A temperatura, a densidade, o tempo de permanência e as condições do reservatório também entram na equação.
O que os modelos podem acrescentar ao monitoramento
Segundo o estudo publicado na revista Science Advances, em 10 de maio de 2024, condições observadas em reservatórios profundos de magma podem ajudar a estimar características de futuras erupções em vulcões de diferentes partes do mundo.
A descoberta não significa que os cientistas passaram a prever o dia e a hora de uma erupção. A própria pesquisa parte do reconhecimento de que esse tipo de previsão precisa continua fora do alcance da ciência. O avanço proposto é outro: combinar os sinais já acompanhados na superfície com informações sobre os processos que ocorrem muito abaixo dela.
Com modelos mais completos, os pesquisadores esperam aperfeiçoar estimativas sobre a dimensão provável de um evento, os materiais que podem ser expelidos e a frequência com que determinado vulcão tende a entrar em atividade. Essas informações são úteis para definir alertas, rotas de evacuação e estratégias de proteção de comunidades próximas.
Uma descoberta global, mas sem alerta para a Amazônia
A pesquisa não analisou um vulcão específico da Amazônia nem apresenta previsão de erupção para qualquer estado brasileiro. Para quem vive no Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins ou Maranhão, a conexão é indireta, mas relevante: o trabalho mostra como a geologia profunda pode influenciar decisões de segurança muito antes de um fenômeno se tornar visível.
Esse ponto também ajuda a separar duas situações diferentes. Monitorar um vulcão não consiste apenas em observar a superfície ou esperar sinais evidentes. É necessário interpretar dados de várias profundidades, cruzar informações e compreender como o calor e a pressão transformam rochas no interior da crosta. A mesma lógica de integração de dados é usada em estudos sobre terremotos, recursos minerais e mudanças no subsolo amazônico, embora a pesquisa em questão trate exclusivamente de vulcanismo.
O que ainda precisa ser testado
A principal limitação é que modelos computacionais não substituem o acompanhamento direto de cada vulcão. A composição das rochas, a estrutura subterrânea e o histórico de atividade variam de uma região para outra. Por isso, um indicador identificado em escala global não deve ser aplicado de forma automática a qualquer montanha vulcânica.
Também será necessário comparar as previsões dos modelos com observações reais, incluindo dados sísmicos, medições de deformação do solo, gases e temperatura. A combinação desses sinais pode mostrar quando a flutuabilidade do magma está de fato associada a uma mudança de comportamento na superfície.
O trabalho liderado por Catherine Booth, do Imperial College London, e analisado com a participação de Matt Jackson, da mesma instituição, representa uma etapa nessa direção. Os próximos estudos deverão verificar como os reservatórios profundos se comportam em vulcões individuais e quanto essas informações podem melhorar os sistemas de monitoramento existentes.
Com informações do Imperial College London.
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