
Estudo sobre a barata Diploptera punctata foi premiado em cerimônia realizada pela primeira vez fora dos Estados Unidos.
Uma proteína produzida por barata acaba de ganhar um prêmio científico, mas o resultado não significa que o café da manhã esteja prestes a mudar. O estudo sobre o chamado leite de barata recebeu o Ig Nobel de Química de 2026 em 3 de setembro, durante uma cerimônia em Zurique, na Suíça, depois que pesquisadores identificaram no material uma concentração de energia três vezes maior que a encontrada em proteínas do leite de vaca.
A pesquisa foi feita com a espécie Diploptera punctata, conhecida por nutrir os embriões dentro do corpo da mãe. Leo Chavis, Subramanian Ramaswamy e Nathan Coussens receberam o troféu em nome de toda a equipe, usando chapéus e camisetas com o formato do inseto e cantando uma música sobre a trajetória do trabalho.
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A Diploptera punctata não se comporta como a maioria das baratas quando o assunto é reprodução. Em vez de depositar ovos que se desenvolvem fora do corpo, essa espécie mantém os embriões em seu interior e fornece uma substância nutritiva semelhante ao leite.
Foi esse material que os pesquisadores analisaram com cristalografia de raios X, técnica usada para observar a organização dos átomos em cristais. O objetivo era entender a estrutura de uma proteína do leite e verificar como ela armazena nutrientes.
O resultado chamou atenção porque a proteína contém cristais muito ricos em energia. De acordo com a pesquisa premiada, eles apresentam cerca de três vezes mais energia do que proteínas presentes no leite de vaca. A descoberta explica por que o alimento é adequado para sustentar o desenvolvimento dos embriões da espécie.
Mais energia não quer dizer alimento disponível
A comparação com o leite bovino pode dar a impressão de que a substância seria uma nova alternativa alimentar. Essa conclusão, porém, não está no estudo. A pesquisa descreve uma característica bioquímica da espécie, e não apresenta uma cadeia de produção, testes de segurança alimentar ou uma recomendação para consumo humano.
Também existe uma diferença importante entre estudar a proteína e obter o líquido em quantidade. A Diploptera punctata é a única barata conhecida por produzir esse tipo de alimento para os embriões, segundo a descrição apresentada pela equipe. Isso torna a coleta direta uma possibilidade pouco prática em escala.
Uma eventual aplicação dependeria de outras etapas, como produzir a proteína em laboratório, avaliar sua estabilidade, analisar possíveis reações no organismo e descobrir se o custo e o rendimento justificariam o processo. O prêmio reconhece a pergunta e o achado científico, não um produto pronto para chegar às prateleiras.
Segundo a Royal Society of Chemistry, a cerimônia foi em Zurique
Segundo a Royal Society of Chemistry, a cerimônia do Ig Nobel de 2026 ocorreu em Zurique, na Suíça, em 3 de setembro, sendo a primeira edição realizada fora dos Estados Unidos desde a criação do prêmio, em 1991.

O Ig Nobel foi criado para celebrar pesquisas que primeiro provocam riso e depois levam o público a pensar. A mudança de endereço aconteceu após os organizadores considerarem os Estados Unidos inseguros para receber os convidados. No ano anterior, quatro dos dez vencedores decidiram não viajar ao país por preocupações relacionadas a vistos e ao desconforto com a entrada em território norte-americano.
Marc Abrahams, criador e apresentador da premiação, afirmou que a ciência vem sendo atacada de maneiras fraudulentas e que qualquer iniciativa capaz de aproximar as pessoas do conhecimento científico pode ser útil. A organização informou que não planeja retornar a cerimônia aos Estados Unidos.
De baratas a cuecas enterradas
O prêmio de Química dividiu espaço com estudos de outras áreas igualmente fora do padrão. A categoria de Tecnologia foi para pesquisadores que usaram os narizes de mosquitos como bicos de impressão 3D. Na Medicina, uma equipe japonesa foi reconhecida por investigar a aerodinâmica do ato de assoar o nariz.
O prêmio de Física foi entregue a um estudo sobre um mictório que evita respingos. Já a categoria de Ciência do Solo reconheceu uma experiência que levou cidadãos suíços a enterrar mil pares de cuecas idênticas e desenterrá-las dois meses depois para avaliar a saúde do solo.
A variedade ajuda a entender o papel do Ig Nobel. Nem todos os trabalhos premiados pretendem resolver imediatamente um problema cotidiano. Alguns funcionam como perguntas inusitadas, capazes de revelar padrões sobre materiais, organismos e comportamentos que normalmente passariam despercebidos.
O que a descoberta representa para a Amazônia
Para leitores dos estados da Amazônia, o caso oferece uma distinção útil entre biodiversidade e aproveitamento econômico. A existência de uma proteína energética em uma barata não autoriza transformar animais da região em fonte de alimento ou explorar espécies sem avaliação científica e sanitária.
O exemplo também mostra como organismos pouco valorizados podem guardar características biológicas importantes. Na Amazônia, pesquisas sobre insetos, microrganismos, plantas e animais precisam considerar a identificação correta das espécies, o ambiente onde vivem e os efeitos de qualquer retirada. Uma descoberta curiosa só se transforma em inovação quando passa por etapas de validação, segurança e viabilidade.
O leite da Diploptera punctata, portanto, deve ser lido como uma pista sobre a forma como a natureza armazena energia, e não como uma promessa imediata de alimento alternativo. A principal consequência do estudo é abrir caminho para novas perguntas sobre proteínas, nutrição de embriões e produção de moléculas em laboratório.
Próxima parada será na Bélgica
A edição de 2026 também marcou uma mudança permanente no calendário do prêmio. A organização pretende alternar a cerimônia entre a Suíça e outros países. A próxima entrega está prevista para Antuérpia, na Bélgica, em 2027.
O calendário e as informações oficiais da cerimônia podem ser consultados na página da organização do Ig Nobel e dos vencedores.
Com informações de Royal Society of Chemistry.
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