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Chimpanzés jovens criam sotaques próprios em duas comunidades e tornam suas vozes mais distintas com a idade

Chimpanzés jovens criam sotaques próprios em duas comunidades e tornam suas vozes mais distintas com a idade
Foto: Wirestock Creators/Shutterstock)

Estudo com 11.225 vocalizações indica que convivência e ambiente podem moldar a comunicação dos animais.

Um grunhido, uma risada ou um choramingo pode carregar mais do que uma reação imediata. Em chimpanzés jovens, esses sons também podem indicar o lugar onde o animal cresceu. É o que aponta um estudo publicado em 2026 na revista PLOS ONE, que encontrou diferenças vocais entre chimpanzés de duas comunidades separadas, na Tanzânia e na Zâmbia.

A pesquisa analisou 11.225 vocalizações emitidas por 31 chimpanzés, sendo 21 filhotes e 10 juvenis. Os registros incluíram 4.733 risadas, 3.694 grunhidos e 2.798 choramingos. Em vez de observar apenas adultos, os pesquisadores acompanharam a mudança dos sons ao longo do desenvolvimento.

A voz muda conforme o chimpanzé cresce

Os animais vieram de dois locais: o Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, e o Chimfunshi Wildlife Orphanage, na Zâmbia. Embora pertençam à mesma espécie, os grupos vivem em ambientes sociais e geográficos distintos.

As diferenças acústicas apareceram nos três tipos de vocalização examinados. A separação entre as populações, porém, ficou mais nítida nos juvenis do que nos filhotes. Isso significa que os sons não apenas variavam entre os grupos. Eles também se tornavam mais identificáveis conforme os animais amadureciam.

Nos grunhidos e nas risadas, os pesquisadores encontraram pistas de pertencimento à população desde os primeiros anos. Nos choramingos dos filhotes, essa distinção não apareceu de forma clara. Ela só se tornou perceptível durante a fase juvenil.

Segundo a PLOS ONE, chimpanzés jovens de Gombe, na Tanzânia, e Chimfunshi, na Zâmbia, apresentam vocalizações que se diferenciam cada vez mais entre as populações à medida que avançam no desenvolvimento.

Como os pesquisadores identificaram os padrões

A equipe mediu características acústicas das gravações, como os elementos que tornam um som mais parecido ou mais diferente de outro. Depois, aplicou testes estatísticos para verificar se uma vocalização permitiria identificar a população de origem.

O procedimento funciona de modo semelhante a um sistema que tenta reconhecer uma voz por suas características. Em vez de procurar palavras, os pesquisadores procuram combinações de frequência, duração e outras propriedades sonoras. Quando essas combinações aparecem de maneira consistente, elas podem revelar padrões associados a determinado grupo.

As análises conseguiram diferenciar os dois locais considerando os três tipos de chamada. A taxa de identificação se tornou significativamente mais precisa entre os juvenis. O resultado reforça a hipótese de que a experiência acumulada no convívio social participa da formação desses sons.

O estudo, no entanto, tem uma limitação importante. Como os dados foram reunidos retrospectivamente, os registros das duas localidades foram feitos com equipamentos e protocolos diferentes. Os autores consideraram improvável que a qualidade das gravações explicasse sozinha os padrões encontrados, porque as diferenças apareceram em vários tipos de vocalização e em diferentes idades.

Por que o resultado lembra os sotaques humanos

Em pessoas, o sotaque costuma se formar pela exposição repetida às vozes do grupo. Uma criança incorpora sons, ritmos e entonações do lugar onde vive. Com o tempo, a fala pode revelar a região de origem mesmo antes de a pessoa mencionar onde cresceu.

O paralelo com os chimpanzés está nesse processo de desenvolvimento. Os animais não estão falando uma língua humana, porque não usam vocabulário e gramática como nós. Ainda assim, a pesquisa indica que suas vocalizações podem ser flexíveis e influenciadas pelo ambiente social.

A ideia desafia a interpretação de que cada chamado de chimpanzé seria completamente programado pela herança biológica. Os dados sugerem que genes, habitat e aprendizagem social podem atuar juntos. A pesquisa não consegue medir com precisão quanto pesa cada um desses fatores.

Essa cautela é essencial. Uma diferença entre populações não prova, por si só, que os chimpanzés estejam ensinando conscientemente um sotaque aos filhotes. O resultado mostra uma associação entre desenvolvimento, local de vida e características dos sons. Para confirmar o mecanismo, seriam necessários estudos que controlem melhor a genética, o ambiente e as relações sociais.

O que a descoberta ensina sobre os primatas

O achado ajuda a deslocar a comunicação animal de uma visão rígida para uma visão mais dinâmica. Se os sons se tornam mais característicos durante a juventude, a história de convivência do animal pode deixar marcas audíveis em seu comportamento.

Essa possibilidade é relevante para pesquisas sobre aprendizagem social. Em muitas espécies, os filhotes dependem de adultos e de outros jovens para aprender onde buscar alimento, como reagir a ameaças e como se comportar dentro do grupo. A comunicação pode fazer parte desse conjunto de habilidades adquiridas na prática.

Também há uma consequência para a conservação. Chimpanzés não vivem apenas como indivíduos isolados em uma floresta. Eles pertencem a comunidades com relações, hábitos e repertórios comportamentais próprios. Quando uma população é retirada de seu ambiente ou fragmentada, parte dessa transmissão social pode ser interrompida.

Para a Amazônia, o estudo não apresenta dados diretos sobre os primatas brasileiros, nem permite transferir automaticamente suas conclusões para macacos da região. A conexão está na pergunta mais ampla: quanto do comportamento de uma espécie nasce com o indivíduo e quanto é aprendido no lugar onde ele vive?

Essa questão alcança os nove estados da Amazônia Legal, onde diferentes espécies de primatas dependem de grupos sociais e de habitats preservados. Em áreas afetadas por desmatamento, incêndios ou isolamento florestal, a perda de contato entre comunidades pode alterar oportunidades de aprendizagem. O estudo dos chimpanzés oferece uma referência para investigar esse tipo de efeito, mas não substitui pesquisas específicas com a fauna amazônica.

O próximo passo é separar herança e experiência

Os pesquisadores ainda precisam descobrir se os jovens aprendem diretamente com indivíduos mais velhos, se ajustam os sons ao ambiente acústico ou se desenvolvem padrões por meio da convivência geral com o grupo. Também será necessário comparar mais populações e utilizar métodos de gravação padronizados.

Por enquanto, a principal conclusão é que a voz de um chimpanzé pode carregar sinais de sua trajetória. O animal não nasce com todos os detalhes de sua comunicação definidos. Parte desse repertório se desenvolve enquanto ele cresce, interage e se adapta à comunidade.

Novas análises com grupos maiores e observações contínuas poderão esclarecer como esses sotaques surgem e se eles influenciam a integração dos jovens nas comunidades.

Com informações de PLOS ONE.

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