
Práticas regenerativas usadas por comunidades locais combinam produção de alimentos, conservação da biodiversidade e adaptação climática.
O som de um caminhão carregado de toras atravessa Nueva Pompeya, no coração de El Impenetrable, na Argentina. A poeira alaranjada toma a estrada e, quando o veículo desaparece, fica a marca de uma floresta que há décadas perde árvores, espécies e modos de vida. Ao mesmo tempo, pequenos produtores da região estão testando uma alternativa: produzir alimentos usando os processos naturais do próprio ecossistema.
O Gran Chaco é uma ecorregião de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, distribuída por Argentina, Bolívia, Paraguai e Brasil. O território abriga cerca de 3.400 espécies de plantas, 900 espécies de animais e mais de 4 milhões de pessoas. Quase 600 comunidades indígenas, pertencentes a mais de 20 grupos étnicos, também dependem da saúde desse ambiente.
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O Chaco é a segunda maior formação florestal da América Latina, atrás apenas da Amazônia, mas recebe muito menos atenção internacional. A exploração madeireira, a abertura de áreas para criação de gado e o cultivo de soja se somam à caça ilegal, aos incêndios e à expansão urbana.
Na Argentina, organizações ambientais estimam que 80% do desmatamento atual ocorre dentro da região do Chaco. O ritmo de perda diminuiu em El Impenetrable na última década, especialmente depois da aprovação de uma lei florestal, mas a derrubada em pequena escala continua avançando fora dos limites do Parque Nacional El Impenetrable.
Criado em 2014, o parque protege aproximadamente 130 mil hectares de floresta quase intacta. Entre as espécies encontradas estão quebrachos vermelho e branco, palo borracho, palo santo, mistol e diferentes tipos de algarobeiras. Ainda assim, a proteção de uma unidade de conservação não interrompe, sozinha, a pressão econômica sobre as áreas vizinhas.

O custo acumulado aparece no solo e nas comunidades
Quase 8 milhões de hectares de floresta do Gran Chaco desapareceram nos últimos 30 anos. A área equivale a cerca de 400 vezes o tamanho da cidade de Buenos Aires. A retirada contínua da cobertura vegetal também reduz a qualidade do solo, favorece a erosão e transforma áreas produtivas em paisagens próximas da desertificação.
Segundo The Nature Conservancy, o Gran Chaco se estende por mais de 1 milhão de quilômetros quadrados entre Argentina, Bolívia, Paraguai e Brasil e perdeu quase 8 milhões de hectares de floresta nos últimos 30 anos.
A perda não é apenas ambiental. Quando a produção deixa de oferecer oportunidades, moradores migram e conhecimentos associados à floresta deixam de ser transmitidos. Em algumas localidades, já faltam pessoas para trabalhar como guias de natureza, cozinheiros, artesãos ou trabalhadores de campo ligados ao turismo e à pecuária.
A história econômica da região ajuda a explicar o problema. Durante décadas, a madeira do Chaco foi usada em dormentes de ferrovias, pontes, estruturas portuárias e outras obras. A exploração trouxe matéria-prima para o desenvolvimento argentino, mas deixou uma dívida ambiental e cultural que ainda não foi reparada.
Como funciona a agricultura regenerativa
A resposta encontrada por comunidades e produtores parte de uma mudança na relação com a terra. Em vez de tratar a floresta como obstáculo à produção, a agricultura regenerativa procura manter os processos que sustentam o cultivo e a criação de animais.

O modelo prioriza a recuperação da saúde do solo, o aumento da biodiversidade, a melhoria do ciclo da água e a retirada de carbono da atmosfera. A expectativa é tornar a produção mais resistente às variações climáticas e reduzir a dependência de insumos que degradam a terra quando usados de forma excessiva.
Nas lavouras de soja, agricultores passaram a plantar fileiras de espécies nativas entre as culturas comerciais. Essas plantas não são colhidas nem geram renda imediata, mas ajudam a devolver minerais ao solo, reduzir a erosão e melhorar a produtividade da área ao longo do tempo.
Na pecuária, técnicos do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária orientam pequenos criadores a manter o gado em áreas de floresta, em vez de derrubar árvores para formar pastagens. Os animais encontram sombra durante o calor intenso, alimentam-se melhor e devolvem nutrientes ao solo por meio do esterco. Também ajudam a espalhar sementes de algarobeira.
Esse ciclo cria o que especialistas chamam de paisagens alimentares, ou foodscapes. A floresta fornece condições para a criação, enquanto os animais contribuem para a manutenção de parte da vegetação. A abordagem é considerada especialmente adequada para pequenas e médias propriedades, embora empresas maiores possam adaptar práticas semelhantes para melhorar a eficiência ambiental.
O papel da rastreabilidade e do consumo
Outra frente de mudança é a rastreabilidade, sistema que permite identificar onde, como e por quem um alimento foi produzido. A ferramenta pode ajudar compradores, governos e consumidores a verificar se uma commodity está associada ao desmatamento ou se atende a critérios sociais e ambientais.

Na Europa e nos Estados Unidos, consumidores já pressionam por produtos sustentáveis. Certificações também existem para commodities agrícolas, mas ainda alcançam uma parcela pequena do mercado. No caso da soja, apenas 3% do volume comercializado no mundo tem certificação, segundo a organização Solidaridad.
A exigência por carne sem desmatamento e por grãos de origem comprovada pode alterar as decisões de produtores e empresas. Porém, a rastreabilidade não substitui fiscalização, proteção territorial e políticas públicas. Ela funciona melhor quando a informação sobre a origem do produto é acompanhada de regras capazes de impedir a conversão ilegal da floresta.
Uma reserva de carbono com impacto além do Chaco
A importância do Gran Chaco ultrapassa as fronteiras dos quatro países onde a ecorregião está localizada. Pesquisas recentes indicaram que a quantidade de carbono armazenada nessa floresta seca é 19 vezes maior do que estimativas anteriores. O dado reforça o papel do território na redução das emissões que agravam a crise climática.
Florestas saudáveis também ajudam a diminuir o impacto de inundações provocadas por chuvas intensas no verão e contribuem para o fluxo de água que abastece a bacia do rio da Prata, uma das mais importantes da América do Sul para populações e atividades industriais.
O caso oferece uma comparação útil para o debate ambiental no Brasil, inclusive na Amazônia. Embora o Gran Chaco tenha clima, vegetação e dinâmica econômica diferentes da floresta amazônica, os dois biomas mostram que conservar áreas naturais depende também de criar alternativas de renda e produção para as comunidades que vivem no território.
O desafio é fazer com que essas experiências deixem de ser iniciativas isoladas e alcancem cadeias produtivas inteiras. A próxima etapa envolve ampliar a agricultura regenerativa, fortalecer as comunidades locais e garantir que compradores tenham acesso a informações confiáveis sobre a origem dos alimentos.
Mais detalhes sobre o território e os sistemas alimentares regenerativos podem ser consultados no mapa interativo sobre o Gran Chaco.
Com informações de The Nature Conservancy.
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