
Acordo com a Greenline amplia o uso de imagens orbitais e inteligência geoespacial para avaliar evidências ambientais.
Imagens de satélite, inteligência artificial e bases de dados geoespaciais passarão a compor uma camada adicional de análise no registro de créditos de carbono ligado à Universidade de São Paulo. A RCGI-USP Carbon Registry firmou, em setembro de 2026, uma parceria com a Greenline Carbonsat para avaliar evidências digitais de projetos ambientais, com o objetivo de ampliar a rastreabilidade e a confiança nas informações apresentadas ao mercado.
A cooperação aproxima uma registradora criada no ambiente acadêmico de uma empresa especializada em monitoramento, mensuração, reporte e verificação digital, conhecido pela sigla dMRV. Na prática, os dados produzidos pela plataforma da Greenline poderão ser considerados pela registradora durante o processo de análise, desde que estejam de acordo com as metodologias e os critérios técnicos definidos pela RCGI-USP.
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O sistema permite acompanhar elementos como cobertura florestal, alterações no uso do solo e outras características associadas aos projetos. Em vez de depender apenas de visitas presenciais, a avaliação pode incorporar séries de imagens e informações coletadas de forma contínua, criando um histórico digital da área monitorada.
Essa possibilidade é especialmente relevante em projetos de grande extensão ou localizados em áreas de acesso difícil. A tecnologia não substitui automaticamente todas as etapas de campo ou a atuação de auditorias independentes. Ela oferece evidências complementares que precisam ser examinadas dentro das regras aplicáveis a cada projeto.
Segundo a RCGI-USP Carbon Registry, a parceria firmada em setembro de 2026 permitirá que evidências produzidas pela Greenline sejam consideradas no registro de projetos de carbono, desde que atendam às metodologias e aos critérios da instituição.
O que muda no processo de registro
Os desenvolvedores dos projetos ou as auditorias independentes poderão contratar a Greenline para produzir os dados técnicos. A separação entre quem gera a informação e quem avalia sua validade foi mantida como parte do desenho da cooperação. Com isso, a RCGI-USP continua responsável por examinar as evidências recebidas, sem transferir para a empresa de tecnologia a decisão sobre o registro.
Ruy Guerra, integrante da diretoria executiva da RCGI-USP Carbon Registry, afirma que a confiança nos dados é um dos pontos centrais do mercado. “O mercado de carbono depende da confiança nas informações apresentadas pelos projetos. Essa parceria fortalece justamente esse aspecto. A tecnologia da Greenline acrescenta uma camada adicional de evidências, oferecendo mais segurança de que os dados apresentados refletem efetivamente a realidade observada em campo”, disse.
Segundo Guerra, a registradora preservará seu papel de avaliar as informações produzidas ao longo do processo. Para ele, o acesso a uma tecnologia de verificação digital amplia a robustez e a credibilidade dos dados encaminhados pelos projetos.
Escala internacional e conexão com a Amazônia
A Greenline informa que monitora cerca de 1,5 milhão de hectares de florestas preservadas em mais de 100 projetos distribuídos pelo mundo. A empresa também declara atuar com sensoriamento remoto, dados geoespaciais e sistemas de biometria florestal voltados à geração e à auditoria de créditos de carbono.
Essa escala ajuda a dimensionar o tipo de aplicação que a parceria pretende incorporar ao mercado brasileiro. Na Amazônia, onde projetos podem abranger áreas extensas e apresentar diferentes condições de acesso, ferramentas de acompanhamento remoto podem apoiar a verificação de mudanças na cobertura vegetal e no uso da terra. A utilidade, porém, depende da qualidade das imagens, da metodologia adotada, da resolução dos dados e da validação independente das informações.
O tema alcança os estados amazônicos porque a integridade dos créditos associados à conservação florestal depende de registros capazes de documentar o que ocorre no território ao longo do tempo. Para comunidades, empresas, governos e organizações que participam de iniciativas de baixo carbono na região, a rastreabilidade é importante para diferenciar uma área efetivamente monitorada de uma estimativa sem comprovação suficiente.
Por que a integridade dos créditos é decisiva
Um crédito de carbono representa, em linhas gerais, uma unidade associada à redução, remoção ou compensação de emissões, conforme a metodologia utilizada pelo projeto. Para que tenha credibilidade, é necessário demonstrar como o resultado foi calculado, qual área foi acompanhada, quais riscos foram considerados e se a redução ou remoção pode ser verificada.
É nesse ponto que entram as ferramentas de dMRV. A integração de imagens orbitais, inteligência artificial e bancos de dados pode tornar a coleta mais frequente e facilitar a comparação entre períodos. Também pode reduzir a dependência de deslocamentos para inspeções, embora não elimine a necessidade de critérios científicos, auditoria e análise de possíveis limitações.
Lucio Lopez, fundador e presidente da Greenline Carbonsat, declarou que a metodologia digital da empresa utiliza sensoriamento remoto, tecnologia satelital e dados geoespaciais validados pela Bureau Veritas. Ele também afirmou que a parceria pode aproximar a experiência operacional da empresa da produção científica do RCGI-USP.
“Unir essa experiência prática à excelência científica do RCGI permitirá acelerar pesquisas e desenvolver soluções aplicáveis no Brasil e no exterior. Enquanto a Greenline aperfeiçoa suas soluções com respaldo acadêmico, o RCGI ganha acesso a uma plataforma tecnológica testada em escala real. Quem mais ganha é o próprio mercado de carbono, que caminha para exigências cada vez maiores de qualidade e transparência.”
Uma registradora criada em 2025
A RCGI-USP Carbon Registry foi criada em 2025 pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo. A instituição se apresenta como a primeira registradora nacional de créditos de carbono vinculada a uma universidade pública brasileira.
A plataforma tem como objetivos registrar créditos, apoiar a elaboração de inventários de emissões de gases de efeito estufa seguindo o GHG Protocol e adaptar metodologias científicas às características dos biomas e da indústria brasileira. A proposta também inclui contribuir para o mercado voluntário de carbono e para a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões.
Em outra frente relacionada ao ambiente regulatório, a Greenline informa ter sido convidada pelo Ministério da Fazenda para contribuir tecnicamente com a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. A participação é apresentada pela empresa como reconhecimento de sua experiência em monitoramento, mensuração, reporte e verificação.
A parceria entre as duas instituições não representa, por si só, a aprovação automática de projetos ou créditos. Cada iniciativa continuará sujeita às metodologias, aos critérios técnicos e às avaliações previstas pela registradora. Os próximos passos envolvem aplicar a tecnologia às demandas dos projetos e consolidar soluções que possam ser usadas no Brasil e em outros mercados.
Com informações da RCGI-USP Carbon Registry.
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