Alunos do Pará transformam garrafas PET em armadilha de R$ 20 contra mosquitos e chegam à final nacional

Alunos do Pará transformam garrafas PET em armadilha de R$ 20 contra mosquitos e chegam à final nacional
Foto: acervo

Protótipo criado no IFPA de Marabá usa luz azul, ventilador reaproveitado e não depende de inseticidas.

Em casas onde o uso de inseticidas preocupa por causa de crianças, idosos ou pessoas com problemas respiratórios, uma solução pode nascer de materiais que normalmente iriam para o lixo. Foi a partir dessa combinação entre saúde, reciclagem e necessidade cotidiana que estudantes do Instituto Federal do Pará (IFPA), em Marabá, criaram uma armadilha luminosa contra mosquitos com custo aproximado de R$ 20. O projeto EcoLuz Trap está entre os dez finalistas da 12ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, cuja votação popular estava aberta até 28 de novembro de 2025.

O dispositivo foi desenvolvido por cinco alunos do curso técnico em Controle Ambiental do Campus Marabá Industrial: Wilian Saraiva Silva, Cleiton Santos Costa, Lucyellen Carvalho Neres, Maria Clara de Souza Lima e Yane Katlen da Silva Lima. A equipe trabalha sob orientação do professor Riguel Feltrin Contente e representa o Pará em uma competição nacional voltada à ciência aplicada na rede pública.

De um incômodo dentro de casa a uma solução para a comunidade

A origem do projeto não está em um laboratório sofisticado. O professor Riguel começou a pesquisar alternativas depois de enfrentar problemas com mosquitos em casa, onde o filho, então com um ano, tinha asma. O uso de inseticida não parecia adequado e a busca por uma armadilha luminosa abriu caminho para uma adaptação mais barata.

“A ideia surgiu em casa. Meu filho tinha um ano e sofri com o problema dos mosquitos. Pensei em usar inseticida, mas ele tem asma, e não era uma alternativa boa”, contou Riguel Feltrin Contente.

Quando a proposta chegou à sala de aula, os alunos associaram a experiência doméstica a uma realidade comum em áreas periféricas de Marabá. Segundo o professor, a presença de mosquitos é recorrente ao longo de todo o ano nesses locais. A pergunta passou a ser como transformar um equipamento comercial em uma alternativa acessível para famílias com menos recursos.

Segundo o IFPA, o EcoLuz Trap foi desenvolvido em Marabá, no Pará, em 2025, com materiais recicláveis e sem uso de inseticidas. Essa é a informação central que explica por que o protótipo ganhou espaço na final nacional.

Como a armadilha funciona na prática

O princípio do equipamento é simples. LEDs azuis atraem os mosquitos para perto da estrutura. Um ventilador reaproveitado cria um fluxo de ar que conduz os insetos para dentro de uma garrafa PET, onde eles ficam retidos. A montagem utiliza componentes de baixo consumo e reaproveita objetos que poderiam ser descartados de forma inadequada.

A comparação de preço ajuda a dimensionar a proposta. Uma armadilha semelhante comprada pela internet custava cerca de R$ 100 quando o professor iniciou a pesquisa e atualmente estaria na faixa de R$ 120, segundo o relato apresentado pelo IFPA. O modelo desenvolvido pelos estudantes foi montado por aproximadamente R$ 20.

O valor não é o único ponto de diferença. O projeto evita a aplicação de substâncias químicas no ambiente e procura reduzir o consumo de energia. Isso não transforma a armadilha em substituta das medidas de prevenção contra doenças, mas amplia o conjunto de alternativas para diminuir a presença de mosquitos dentro de residências e espaços comunitários.

Testes medem cor da luz e influência do clima

Depois dos primeiros protótipos, a equipe passou a testar o desempenho do equipamento. Os estudantes construíram várias unidades e começaram a contar os mosquitos capturados. Também compararam lâmpadas vermelhas, verdes e azuis para observar quais atraem mais insetos.

O grupo ainda utiliza uma estação meteorológica para cruzar as capturas com condições ambientais. Temperatura, umidade e outros fatores podem influenciar a circulação dos mosquitos. Esse cuidado é importante porque um resultado obtido em determinado ambiente não necessariamente se repete com a mesma intensidade em outro.

A metodologia usada é conhecida como STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Na prática, significa reunir essas áreas para formular uma pergunta, construir uma solução, testar o protótipo e avaliar os resultados com dados. Em vez de apenas estudar conceitos, os alunos acompanham o ciclo completo de um problema real.

Placa de papelão amplia o acesso ao protótipo

Durante a mentoria destinada aos finalistas do Solve for Tomorrow, o projeto ganhou uma nova adaptação. A equipe desenvolveu um circuito com base de papelão para ligar a armadilha à energia elétrica e alimentar os LEDs e o ventilador.

A mudança reduz a necessidade de soldas e facilita a montagem por pessoas que não têm ferramentas específicas. A intenção é permitir que comunidades com poucos recursos técnicos ou financeiros reproduzam a solução com materiais simples. O grupo também promove oficinas e ações comunitárias sobre reciclagem e controle de vetores.

Para Maria Clara de Souza Lima, reaproveitar os materiais é parte essencial da proposta. “A gente deu uma nova utilidade a eles para promover saúde e cuidar do nosso meio ambiente”, afirmou a estudante.

Por que a experiência de Marabá importa para a Amazônia

O projeto tem uma conexão direta com a Amazônia porque foi construído a partir de um problema observado no sudeste do Pará e leva para a competição nacional uma resposta criada em uma escola pública da região. Em cidades amazônicas, onde áreas urbanas e ambientes naturais convivem de maneira próxima, soluções de baixo custo podem ser mais fáceis de adaptar às condições locais.

A experiência também mostra uma dimensão menos visível da inovação regional. O avanço não depende apenas de equipamentos caros. Neste caso, estudantes reuniram conhecimento técnico, materiais reaproveitados e observação do território para criar um protótipo que pode ser aperfeiçoado em oficinas e escolas.

O reconhecimento nacional dá visibilidade a essa trajetória. Nesta edição, o Norte e o Nordeste aparecem entre as regiões com projetos finalistas, e o Pará é representado por equipes de Marabá e Mãe do Rio. Desde 2014, o Solve for Tomorrow Brasil já envolveu mais de 185 mil alunos e 8 mil escolas públicas, segundo as informações da organização.

Finalistas ainda passam por mentoria e apresentação

A seleção entre os dez finalistas garantiu à equipe uma etapa de mentoria técnica on-line, voltada ao aprimoramento do protótipo antes da apresentação final. Cada estudante também recebeu um smartphone Samsung como reconhecimento pela participação.

Os três vencedores nacionais receberão equipamentos tecnológicos, como notebooks, tablets e televisores destinados às escolas participantes. Para os alunos do IFPA, porém, o resultado educacional já aparece na experiência de pesquisar, testar, revisar e explicar uma solução criada por eles mesmos.

A votação popular da edição de 2025 foi prevista até 28 de novembro, enquanto a fase seguinte concentra a preparação dos finalistas para a apresentação nacional.

Com informações de Instituto Federal do Pará (IFPA).

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