
Cientistas usam drones, sensores e inteligência artificial para avisar quando a presença de tubarões aumenta no litoral.
Imagine consultar a previsão de tubarões antes de entrar no mar, assim como hoje se verifica a possibilidade de chuva ou a temperatura. Essa ideia já está sendo testada por cientistas nos Estados Unidos, que usam drones, inteligência artificial, sensores acústicos e câmeras instaladas em tubarões para identificar quando e onde esses animais aparecem, principalmente no litoral da Califórnia.
O projeto mais conhecido é o SharkEye, criado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e da California State University, em Long Beach. O sistema envia mensagens e e-mails para acampamentos de surfe, salva-vidas, comerciantes e outras pessoas interessadas nas condições do mar em Padaro Beach, perto de Santa Bárbara.
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IA identifica seis espécies de golfinhos por seus assobiosA proposta não é anunciar que uma praia está “segura” ou “perigosa” de forma absoluta. O objetivo é oferecer mais informação para que cada grupo decida como organizar suas atividades, especialmente em dias com muitos tubarões ou com animais de grande porte próximos da superfície.
Como funciona a previsão de tubarões
O biólogo Douglas McCauley começou a desenvolver o monitoramento em 2020, depois de perceber que os tubarões estavam aparecendo com mais frequência em uma praia onde seus filhos participavam de um acampamento de surfe. Na infância, ele raramente via esses animais na costa do sul da Califórnia. Décadas depois, passou a observar várias nadadeiras próximas à arrebentação.
“Como biólogo de tubarões, foi incrível e emocionante ver esses sinais de saúde do oceano. Mas, como pai, eu precisava entender o que estava acontecendo ali”, afirmou McCauley, segundo a National Geographic.
Para contar e classificar os animais, a equipe utiliza drones automatizados. Os equipamentos voam cerca de 1,6 quilômetro mar adentro e retornam à praia, sempre no mesmo período do dia. As imagens são analisadas com auxílio de inteligência artificial, que estima a quantidade e o tamanho dos tubarões observados.
O sistema funciona melhor quando os animais estão perto da superfície e dentro da área monitorada. Tubarões que nadam em águas profundas, além daqueles escondidos pela turbulência ou pela baixa visibilidade, podem não ser detectados. Por isso, o alerta é uma ferramenta de acompanhamento, não uma garantia de que todos os animais presentes foram identificados.
Por que os tubarões estão sendo vistos com mais frequência
Segundo a National Geographic, as populações de tubarões em algumas regiões dos Estados Unidos começaram a se recuperar a partir da década de 1990, impulsionadas por leis de conservação mais rígidas e pela redução de ameaças ambientais. O aquecimento das águas costeiras e a maior oferta de presas também podem influenciar a distribuição dos animais.
Segundo a National Geographic, pesquisadores monitoram tubarões na costa da Califórnia com drones e sensores para emitir alertas locais desde 2020, em Padaro Beach, perto de Santa Bárbara.
A temperatura é apenas um dos fatores observados. Tubarões-brancos jovens costumam permanecer perto da costa e da superfície, onde encontram condições adequadas para manter o corpo aquecido. Na costa oeste dos Estados Unidos, os pesquisadores identificam maior permanência desses animais quando a água está entre 60 e 80 graus Fahrenheit, aproximadamente 16 e 27 graus Celsius.
Salinidade, tempestades, correntes e deslocamento das presas também entram na equação. O problema é que o comportamento de um tubarão não segue regras tão simples quanto a formação de uma nuvem ou a mudança de uma frente fria.
Entenda o caso
O SharkEye tenta transformar dados de observação em alertas para quem utiliza uma determinada praia. Drones procuram animais na superfície, enquanto sensores acústicos acompanham tubarões marcados que passam por boias receptoras.
A tecnologia ajuda a identificar padrões, mas ainda não consegue prever com precisão absoluta o local e o horário em que um tubarão vai aparecer. Um alerta indica atividade observada ou provável, e não determina sozinho se haverá uma interação com pessoas.
O que as câmeras revelam sobre os animais
Outros grupos também procuram entender o comportamento individual dos tubarões. Megan Winton, da Atlantic White Shark Conservancy, utiliza equipamentos de bio registro, com câmeras acopladas aos animais. A pesquisadora compara a tecnologia a dar um smartphone para um tubarão, porque os dispositivos mostram para onde ele olha e como reage ao ambiente.
As imagens revelaram que os animais têm personalidades e rotinas diferentes. Alguns parecem mais cautelosos, enquanto outros são mais ousados. Um tubarão pode se assustar com uma ave ou com uma foca que surge de repente, alimentar-se e depois repousar no fundo do mar.
“Indivíduos diferentes têm comportamentos diferentes. Alguns são mais cautelosos, outros um pouco mais ousados, e isso é fascinante”, disse Winton à National Geographic.
Dados acumulados ao longo de anos mostram onde os tubarões costumam estar em determinadas épocas. Ainda assim, o padrão da população não prevê perfeitamente a atitude de cada animal. Chris Lowe, do Shark Lab, explica que existe uma maioria dentro de um comportamento esperado, mas também há indivíduos fora desse padrão.
Presença de tubarão não significa ataque
Um dos pontos mais importantes da pesquisa é que tubarões e pessoas frequentemente ficam próximos sem que ocorra qualquer interação. De acordo com Lowe, os seres humanos geralmente não parecem comida para esses animais, não produzem o mesmo cheiro das presas habituais e não costumam representar uma ameaça direta.
Quando há mordidas, uma das hipóteses para os tubarões-brancos é a confusão entre uma prancha e a silhueta de uma foca, presa comum da espécie. Mesmo assim, os cientistas ainda não sabem explicar completamente por que ataques ocasionais acontecem.
O alerta de tubarões pode ajudar a reduzir o medo sem ignorar os riscos. Em Padaro Beach, quando os drones registram muitos animais grandes, alguns acampamentos preferem trocar as atividades na água por vôlei de praia. A decisão é baseada em informação atualizada, e não em pânico.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A experiência foi desenvolvida para praias da Califórnia e não representa uma previsão para o litoral brasileiro. Ainda assim, a lógica do monitoramento pode interessar a áreas costeiras da Amazônia, especialmente no Amapá e no Pará, onde comunidades, pescadores, pesquisadores e turistas convivem com ambientes marinhos, estuarinos e fluviais muito diferentes entre si.
Aplicar uma tecnologia semelhante exigiria estudos locais, equipamentos adequados e conhecimento sobre as espécies da região. O princípio, porém, é universal: observar melhor os animais, comunicar os dados com clareza e apoiar decisões de convivência com a fauna.
O projeto SharkEye pode ser acompanhado no site oficial do sistema de alertas. A expectativa dos pesquisadores é ampliar o uso de drones em torres de salva-vidas e tornar as previsões específicas para cada praia mais precisas nos próximos anos.
Perguntas frequentes
A previsão de tubarões funciona como a previsão do tempo?
Não exatamente. Ela combina observações e modelos para indicar maior ou menor atividade de tubarões, mas ainda tem limitações e não detecta todos os animais.
Um tubarão perto da praia significa perigo imediato?
Não. A presença do animal não indica, por si só, que haverá ataque. O comportamento, a espécie, o tamanho, a distância e as condições do mar precisam ser considerados.
O SharkEye já monitora praias brasileiras?
O projeto citado nesta reportagem atua em Padaro Beach, na Califórnia. Não há informação, no material consultado, sobre sua operação em praias brasileiras.
Nos próximos anos, os pesquisadores devem testar sistemas mais precisos e ampliar o monitoramento para ajudar comunidades costeiras a compartilhar o oceano com os tubarões de forma mais segura.
Com informações de National Geographic.
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