
Técnica inédita confirma gestações e pode indicar onde as fêmeas dão à luz.
Como enxergar um filhote dentro de uma manta-raia de quase cinco metros sem tirá-la da água? Pesquisadores encontraram uma resposta surpreendente: um ultrassom portátil, aplicado sobre o dorso de fêmeas livres no oceano, confirmou três gestações de mantas oceânicas no Parque Nacional de Revillagigedo, no México, durante expedições realizadas em janeiro e março de 2026. O método permite identificar a gravidez antes que o corpo das raias apresente sinais visíveis e pode revelar para onde elas vão antes do nascimento dos filhotes.
Uma janela para dentro do oceano
A bióloga marinha Madalena Cabral, da organização Mares de México, acompanha as mantas no parque mexicano há seis anos. Em uma das abordagens, ela esperou que uma fêmea aceitasse sua presença e, então, nadou sobre o animal com um aparelho de ultrassom autorizado para uso em campo.
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Peixe-lua emerge horizontalmente na superfície oceânica para permitir que aves marinhas removam ectoparasitas acumulados em sua peleA própria água do mar ajuda no procedimento. Ela funciona como um meio condutor entre o aparelho e a pele da manta, dispensando o uso do gel normalmente aplicado em exames realizados em humanos. A imagem aparece em um telefone e mostra o filhote se movimentando, flexionando as nadadeiras e abrindo e fechando a boca enquanto bombeia o líquido uterino, rico em nutrientes e oxigênio.
“É como ter um superpoder, ter visão para enxergar dentro de um animal”, afirmou Madalena Cabral.
Segundo a National Geographic, o exame confirmou gestações de três mantas oceânicas, chamadas Timshel, Ophelia e Grecia, em Revillagigedo, no México, em 2026. Esse é o primeiro registro de confirmação de gravidez e de descrição do estágio gestacional em mantas oceânicas selvagens usando essa metodologia específica.
Por que a descoberta importa?
A manta oceânica, também conhecida pelo nome científico Mobula birostris, está entre os maiores peixes do mundo. Apesar do tamanho impressionante, sua reprodução é extremamente lenta. As fêmeas começam a ter filhotes por volta dos 8 aos 10 anos de idade e, em geral, produzem apenas um filhote a cada quatro ou cinco anos, depois de uma gestação de aproximadamente 12 meses.
Esse ritmo faz com que a população tenha dificuldade para se recuperar quando muitos indivíduos morrem. A captura acidental em redes de pesca industrial, conhecida como bycatch, é uma das principais ameaças no entorno da reserva. As mantas precisam nadar continuamente para respirar. Quando ficam presas, podem morrer por afogamento ou sofrer ferimentos graves mesmo depois de serem libertadas.
Em algumas regiões do mundo, o número de mantas oceânicas teria caído até 90%, segundo a especialista Madalena Cabral. Como a espécie tem poucos filhotes, cada fêmea adulta pode representar uma contribuição importante para a manutenção da população.
Entenda o caso
O Parque Nacional de Revillagigedo fica a mais de 480 quilômetros da costa do México e é considerado a maior reserva marinha totalmente protegida da América do Norte. O local abriga mantas oceânicas, mas ainda há poucas informações sobre seus deslocamentos durante a gestação.
As mantas costumam parecer muito achatadas quando não estão grávidas. No fim da gestação, porém, o abdômen começa a formar uma saliência que pode deixar o corpo com aparência semelhante à de um “ravioli”, na comparação da bióloga australiana Asia Armstrong. O ultrassom permite detectar a gravidez bem antes dessa mudança externa.
Rastrear o caminho até o nascimento
Confirmar a gravidez é apenas o primeiro passo. Nas mesmas expedições, Cabral instalou dispositivos de rastreamento por satélite em três mantas. Os equipamentos permanecem presos por cerca de seis meses. Depois, se soltam automaticamente, chegam à superfície e transmitem os dados sobre a localização dos animais.
Ao combinar o rastreamento com novos exames de ultrassom e a identificação individual por fotografias, os pesquisadores pretendem descobrir se as fêmeas permanecem dentro da área protegida ou se avançam para o oceano aberto. Também será possível observar mudanças na profundidade e no comportamento ao longo da gravidez.
“Não sabemos. É um mistério”, disse Cabral ao explicar o destino das fêmeas grávidas. A resposta pode influenciar decisões sobre a proteção da espécie e até indicar a necessidade de ampliar os limites da reserva. “Não queremos apenas criar um retângulo no meio do oceano, porque os animais não conhecem fronteiras”, afirmou.
Uma técnica ainda em aperfeiçoamento
O ultrassom em animais selvagens não é completamente novo. Pesquisadores já haviam usado a técnica em mantas-de-recife, uma espécie próxima que vive em ambientes costeiros. Também existem trabalhos com mantas oceânicas no Equador e nas próprias ilhas de Revillagigedo, mas esses resultados ainda não foram publicados.
A diferença é que as mantas oceânicas são maiores e se comportam de maneira distinta. O procedimento exige aproximação cuidadosa, leitura especializada das imagens e conhecimento sobre os estágios de desenvolvimento do filhote. Para interpretar os exames, Cabral comparou os registros com estudos feitos por pesquisadores do Aquário Okinawa Churaumi, no Japão, que desenvolveram exames subaquáticos em tubarões e raias.
“Confirmar a gravidez mostra que essa técnica pode ser aplicada não apenas em ambientes controlados, mas também em campo”, afirmou Kiyomi Murakumo, bióloga do aquário japonês.
Para Asia Armstrong, da Universidade de Queensland, a possibilidade de medir diretamente a reprodução de animais livres na natureza muda a forma como a saúde das populações pode ser avaliada. Cientistas precisam saber quantas fêmeas engravidam, com que frequência os filhotes nascem e quais áreas são usadas para calcular o nível de pressão que a população consegue suportar.
O que isso tem a ver com a Amazônia?
A descoberta ocorreu no Pacífico mexicano, mas traz uma discussão que também interessa à conservação marinha na costa amazônica: áreas protegidas só funcionam plenamente quando acompanham os deslocamentos reais dos animais. Espécies migratórias podem atravessar diferentes zonas de pesca e jurisdições durante o ciclo de vida.
Na região amazônica, esse princípio é importante para o monitoramento de tartarugas, botos, tubarões, raias e outros animais que circulam entre rios, estuários, manguezais e o oceano. A tecnologia usada em Revillagigedo ainda não significa uma aplicação imediata nos estados da Amazônia, mas oferece um exemplo de como dados de reprodução e deslocamento podem orientar políticas públicas mais precisas.
A equipe planeja realizar novos exames e instalar mais transmissores em mantas em 2027. A repetição dos exames nas mesmas fêmeas será essencial para acompanhar a gestação, estimar a frequência reprodutiva e descobrir se elas deixam a reserva para dar à luz em outro local.
Perguntas frequentes
Quantos filhotes uma manta oceânica costuma ter?
Em geral, a espécie tem apenas um filhote a cada quatro ou cinco anos, após uma gestação de aproximadamente 12 meses.
O ultrassom machuca a manta?
A técnica é descrita como não invasiva e realizada enquanto o animal nada livremente. O aparelho é encostado sobre o dorso, sem retirar a manta da água.
Por que rastrear as mantas grávidas?
O rastreamento ajuda a identificar áreas usadas durante a gestação e possíveis locais de nascimento, informações que podem orientar a proteção contra pesca e captura acidental.
Com os próximos exames previstos para 2027, os pesquisadores esperam transformar essas primeiras imagens em um mapa mais completo da reprodução das mantas oceânicas.
Com informações de National Geographic.
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