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Esturjão-do-Atlântico faz “trovões” em rio de reprodução

Esturjão-do-Atlântico faz “trovões” em rio de reprodução
Foto: on.natgeo.com

Sons graves registrados durante a desova podem ajudar a localizar áreas essenciais para uma espécie ameaçada.

Quem imaginaria que um peixe com aparência pré-histórica pudesse fazer um som parecido com um trovão? Pesquisadores registraram pela primeira vez os ruídos produzidos por esturjões-do-Atlântico durante a reprodução, entre junho e início de julho de 2021, no rio Hudson, em Nova York, nos Estados Unidos. Chamados de “thunders”, ou “trovões”, os sons graves foram captados por gravadores subaquáticos e podem ajudar a localizar áreas de desova e proteger uma espécie ameaçada.

O estudo foi realizado em uma região próxima a Hyde Park, considerada o maior ponto de concentração reprodutiva do esturjão-do-Atlântico nos Estados Unidos. Ao longo de vários meses, os equipamentos registraram 31 dias de áudio. Depois de filtrar ruídos de trens, embarcações e de outras espécies, a equipe encontrou quase 7.700 sons semelhantes a estrondos.

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Um peixe antigo que ainda guarda segredos

O esturjão-do-Atlântico, conhecido cientificamente como Acipenser oxyrinchus oxyrinchus, pode alcançar cerca de 4,3 metros de comprimento. O corpo é protegido por fileiras de placas ósseas, as nadadeiras têm pontas rígidas e a boca conta com estruturas semelhantes a bigodes, cobertas por células sensíveis ao gosto.

A aparência não é apenas curiosa. A espécie pertence a uma linhagem muito antiga, cujos ancestrais nadavam ao lado dos dinossauros há aproximadamente 100 milhões de anos. Apesar de sobreviver a grandes mudanças no planeta, o peixe sofreu fortes impactos recentes causados pela perda de habitat, pela pesca excessiva e pela poluição dos rios.

Nos Estados Unidos, todas as populações de esturjão-do-Atlântico são classificadas como ameaçadas ou em perigo. Os adultos passam boa parte da vida no oceano, mas retornam periodicamente aos rios onde nasceram para se reproduzir, em um comportamento semelhante ao dos salmões.

Como os pesquisadores ouviram os “trovões”

Em vez de capturar os animais ou instalar transmissores em seus corpos, a equipe liderada pela pesquisadora Rebecca Cohen utilizou o monitoramento acústico passivo. A técnica consiste em deixar gravadores no ambiente para identificar atividades e espécies por meio dos sons que produzem.

Os equipamentos foram presos a blocos de cimento e colocados no fundo do rio, próximos ao local de reprodução. A estratégia reduz o estresse causado pelo manuseio dos peixes e permite observar o comportamento natural durante um período prolongado.

Os sons identificados tinham frequência de aproximadamente 44 hertz, próxima do limite mais baixo da audição humana. Cohen descreveu o ruído como uma combinação de pulsos, semelhantes a batidas em um tambor, acompanhados por uma vibração contínua.

“É muito animador que esse som esteja diretamente ligado à reprodução. Compreender melhor essa atividade essencial vai ajudar a impulsionar a recuperação de uma espécie que teve sua população reduzida”, afirmou Rebecca Cohen, pesquisadora de bioacústica e autora principal do estudo.

Os registros não apareceram em abril, antes da chegada dos adultos à área de desova. A frequência aumentou durante o pico reprodutivo, em junho e no começo de julho. Para confirmar que os esturjões eram os responsáveis pelos ruídos, os cientistas também fizeram gravações com animais mantidos em um tanque de um National Fish Hatchery, na Carolina do Sul. Os sons foram semelhantes aos captados no Hudson.

Entenda o caso

Durante a reprodução, as fêmeas podem liberar até dois milhões de ovos não fertilizados no leito do rio. Os machos se aproximam para liberar o esperma, e o som pode funcionar como um sinal de que estão prontos para a desova.

Pesquisadores ainda não sabem exatamente como os esturjões produzem o ruído nem como o percebem. A hipótese é que as vibrações sejam ouvidas e também sentidas na água, funcionando como uma forma de comunicação entre os animais.

O estudo completo foi publicado na revista Endangered Species Research e pode ser consultado no artigo sobre os sons do esturjão-do-Atlântico.

Ruído humano pode afastar os peixes

A descoberta também chama atenção para um problema menos visível: a poluição sonora nos rios. Esturjões são sensíveis a sons intensos, como os produzidos por obras, cravação de estacas, motores e grandes embarcações.

Pesquisas anteriores no próprio rio Hudson indicaram que os peixes se afastavam durante obras de construção de uma ponte e retornavam depois que o trabalho terminava. Isso sugere que o barulho pode interromper deslocamentos, alterar rotas e dificultar o encontro entre machos e fêmeas.

Segundo a pesquisa publicada em Endangered Species Research, os esturjões-do-Atlântico produziram quase 7.700 sons de baixa frequência durante a temporada de reprodução de 2021, no rio Hudson, em Nova York.

Para os cientistas, ouvir os “trovões” pode ser uma maneira menos invasiva de identificar os melhores pontos de desova, estimar o tamanho dos grupos reprodutivos e acompanhar a recuperação da espécie. Um rio com atividade sonora intensa durante o período adequado também pode indicar que há condições ambientais favoráveis.

O que a descoberta ensina para a Amazônia

O esturjão-do-Atlântico não é uma espécie amazônica, mas a técnica pode inspirar estudos em rios da Amazônia. Bacias como as dos rios Amazonas, Negro, Madeira, Tapajós, Xingu, Tocantins e Araguaia abrigam peixes migradores que dependem de trechos específicos para reprodução.

Em ambientes tão extensos, gravadores subaquáticos poderiam complementar métodos tradicionais de monitoramento, especialmente em locais onde a captura é difícil ou pode causar estresse aos animais. Antes disso, porém, seria necessário identificar os sons de cada espécie e separar os sinais naturais dos ruídos de barcos, portos, dragagens e obras.

A principal lição é que a conservação pode começar pela escuta. Ao transformar sons quase imperceptíveis em indicadores de reprodução, os pesquisadores ganham uma ferramenta para acompanhar populações sem precisar retirar os animais da água.

As próximas etapas devem investigar como os esturjões produzem e percebem os “trovões”, além de testar se o monitoramento acústico consegue estimar populações em diferentes rios e temporadas reprodutivas.

Perguntas frequentes

O que é o esturjão-do-Atlântico?
É um peixe migrador de grande porte que vive no mar e retorna aos rios para se reproduzir. A espécie é considerada ameaçada ou em perigo em toda a sua distribuição nos Estados Unidos.

Por que os sons são chamados de “trovões”?
Porque os ruídos são graves, intensos e formados por pulsos que lembram um estrondo ou uma batida de tambor reverberando na água.

O esturjão-do-Atlântico vive na Amazônia?
Não. A espécie ocorre na costa leste da América do Norte, do golfo de São Lourenço à Flórida. A técnica de monitoramento, porém, pode ser adaptada para estudar peixes migradores amazônicos.

Com informações de National Geographic.

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