
Testes com cópias carbonizadas indicam um caminho de baixo risco para ler manuscritos sem desenrolar os originais.
Durante quase dois milênios, alguns dos textos mais difíceis de alcançar da Antiguidade permaneceram fechados dentro de rolos transformados em carvão. Agora, pesquisadores encontraram uma pista material para separá-los da escuridão: o chumbo presente na tinta. Em um estudo publicado em 16 de setembro de 2026 na revista PLOS One, a equipe mostrou que raios X, tomografia e inteligência artificial podem identificar e ajudar a ler inscrições em papiros carbonizados semelhantes aos encontrados em Herculano, na Itália.
A descoberta não significa que todos os manuscritos já possam ser traduzidos. O avanço está em indicar quais rolos têm maior chance de revelar letras e em oferecer um método de treinamento que não exige experimentar diretamente nos exemplares antigos. Para isso, os cientistas produziram cópias modernas, escreveram nelas com tintas contendo diferentes concentrações de chumbo, queimaram os rolos e depois tentaram recuperar o conteúdo por imagens.
O arquivo que o vulcão fechou
A história começou em 79 d.C., quando o Monte Vesúvio entrou em erupção e cobriu Herculano com cerca de 20 metros de rocha vulcânica e cinzas. A cidade ficou soterrada, assim como Pompeia. A catástrofe matou aproximadamente 2 mil pessoas nos dois locais e converteu parte dos papiros armazenados em uma vila em objetos frágeis, escuros e compactados.
Os rolos foram encontrados na década de 1750, em uma residência conhecida como Villa dos Papiros. A propriedade é considerada possivelmente ligada ao sogro de Júlio César. Desde então, o acervo passou a representar uma espécie de biblioteca congelada no instante da destruição, mas também um problema físico: tentar abrir os rolos poderia reduzi-los a fragmentos.
Segundo a PLOS One, os rolos de Herculano foram carbonizados pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. e podem ser investigados com imagens de raios X quando a composição da tinta oferece contraste em relação ao papiro.
Por que a tinta faz diferença
O desafio nasceu de uma limitação da própria tecnologia. Os raios X conseguem atravessar o material e produzir imagens do interior, mas o papiro e muitas tintas antigas são formados por elementos à base de carbono. Quando os dois aparecem com comportamento semelhante no exame, a escrita se mistura ao suporte e fica difícil para os algoritmos distinguir uma letra de uma dobra.
O chumbo muda esse cenário. Por ser um metal pesado, ele responde de maneira mais evidente aos raios X. A equipe testou tintas enriquecidas com esse elemento em rolos fabricados para imitar os antigos. Depois da carbonização, as imagens permitiram localizar regiões que poderiam corresponder à escrita e alimentar um software de detecção.
A proposta funciona como uma triagem. Primeiro, os pesquisadores procuram sinais do metal nos papiros. Em seguida, aplicam técnicas de imagem e modelos computacionais para reconstruir a posição das marcas dentro do rolo. O processo é uma forma de desenrolamento virtual, no qual o objeto permanece fisicamente fechado.
Textos que já começaram a reaparecer
Nos últimos anos, outras pesquisas já haviam conseguido abrir digitalmente parte dos rolos de Herculano. Esses trabalhos revelaram escritos associados sobretudo a filósofos epicuristas e estoicos. Um trecho chegou a mencionar o local do sepultamento final de Platão, mostrando que cada camada recuperada pode alterar o conhecimento sobre a circulação de ideias no mundo antigo.
A nova abordagem não substitui essas técnicas, mas pode ampliar o conjunto de manuscritos examinados. O estudo sugere que os rolos devem ser analisados primeiro em busca de chumbo. Aqueles que apresentarem o elemento podem receber uma leitura mais direcionada, com modelos treinados em materiais que já passaram pelo mesmo tipo de carbonização.
O uso de cópias modernas também reduz o risco. Em vez de testar sucessivamente os algoritmos em um patrimônio insubstituível, os pesquisadores podem produzir amostras com diferentes proporções de metal, formatos de enrolamento e graus de queima. O objetivo é ensinar o sistema a reconhecer padrões antes de aplicá-lo aos originais.
O que ainda separa a marca da palavra
Encontrar uma região com chumbo não equivale a ler uma frase inteira. Os rolos estão apertados, ondulados e deformados pelo calor. Essas irregularidades dificultam a reconstrução das camadas e podem produzir imagens que parecem letras, mas resultam de rachaduras, sobreposições ou do próprio movimento do papiro durante a carbonização.
Por isso, a inteligência artificial entra como ferramenta de identificação, não como autora de uma tradução automática garantida. A interpretação ainda depende da qualidade das imagens, da separação correta das camadas e do trabalho de especialistas capazes de comparar os sinais com formas conhecidas de escrita antiga.
O método também ajuda a preservar uma memória que, sem a leitura digital, continuaria inacessível. O interesse não está apenas em recuperar nomes de filósofos ou passagens perdidas, mas em observar como uma sociedade romana escrevia, guardava e transmitia conhecimento antes de ser interrompida pela erupção.
Uma técnica com interesse além do Vesúvio
Para o Brasil e para a Amazônia, o caso reforça uma questão que alcança museus, universidades e arquivos da região: preservar um documento não significa apenas mantê-lo em uma vitrine. Também é necessário desenvolver formas de estudá-lo sem submetê-lo a abertura, corte ou manipulação excessiva.
A realidade amazônica reúne materiais orgânicos, registros históricos e vestígios arqueológicos que podem ser afetados por umidade, calor e mudanças no ambiente. A técnica testada para os papiros italianos não foi apresentada como solução específica para acervos amazônicos, mas o princípio é amplo: criar modelos seguros em materiais de teste antes de examinar peças únicas.
O estudo publicado em 16 de setembro de 2026 representa, portanto, uma etapa de preparação. A próxima fronteira é aplicar a identificação do chumbo e os algoritmos a mais rolos reais, verificando quantos escondem escrita legível e quanto do conteúdo pode ser reconstruído. A biblioteca soterrada de Herculano ainda não foi totalmente aberta, mas agora existe um caminho mais cuidadoso para procurar suas palavras.
Com informações de PLOS One.
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