
Simulações indicam que estruturas nanoscópicas criam uma camada de ar capaz de devolver parte da umidade à pele.
À primeira vista, a pele de um gecko parece apenas uma superfície delicada, mas ela pode esconder uma espécie de sistema natural de retenção de água. Um estudo publicado em 25 de agosto de 2026 na revista Biointerphases indica que pelos nanoscópicos, chamados setulae, formam uma camada de ar junto ao corpo do lagarto e podem reduzir a evaporação em ambientes secos. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Kiel, na Alemanha, por meio de um modelo computacional de dinâmica dos fluidos.
A descoberta ajuda a explicar como geckos e camaleões que vivem em regiões áridas ou semiáridas conseguem enfrentar um dos maiores riscos desses ambientes: perder água pela pele mais rapidamente do que conseguem repor o líquido. O resultado ainda é uma hipótese apoiada por simulações, e os autores planejam confirmá-lo em experimentos com pele artificial ou fragmentos de pele que os animais tenham trocado.
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Os setulae são pelos extremamente pequenos que recobrem a superfície do corpo de muitos lagartos. Eles não são facilmente percebidos a olho nu e só aparecem com clareza em imagens ampliadas, como as produzidas por microscopia eletrônica de varredura.
Essas estruturas já eram conhecidas pelos pesquisadores, mas sua função exata permanecia sem uma explicação conclusiva. O fato de aparecerem com frequência em espécies associadas a ambientes secos levantava uma possibilidade: os pelos poderiam ter relação com a conservação de água.
O ponto de partida do trabalho foi justamente essa dúvida. Em vez de considerar os setulae apenas como uma característica visual ou estrutural da pele, os cientistas perguntaram se a disposição microscópica deles poderia alterar o movimento do ar e das moléculas de água na superfície do animal.
“Em biologia, nada aparece apenas por diversão. Tudo surge da combinação de mutações e do processo de seleção natural”, afirmou o pesquisador Stanislav Gorb, um dos autores do estudo.
O que a simulação revelou sobre a evaporação
Para investigar a hipótese, a equipe criou uma versão simplificada da pele do gecko em computador. O modelo recebeu uma fileira de setulae, reproduzindo a presença dos pelos microscópicos, e foi submetido a diferentes condições de fluxo de ar.
A ideia parecia ter dois caminhos possíveis. Como os pelos aumentam a área da superfície, poderiam favorecer a evaporação e fazer com que o animal perdesse água ainda mais depressa. Também poderiam agir como uma barreira, desacelerando a circulação do ar junto à pele.
Na simulação, prevaleceu a segunda possibilidade. A disposição dos setulae cria pequenos espaços onde o ar fica parcialmente retido. Essa região funciona como uma camada-limite, uma faixa de ar próxima à superfície que dificulta a remoção contínua da umidade pelo vento.
Segundo os pesquisadores, algumas moléculas de água que deixam a pele permanecem confinadas entre as estruturas microscópicas. Elas colidem várias vezes nesse espaço e parte delas retorna à superfície, em vez de ser imediatamente levada para longe pelo ar seco.
“A estrutura nanoscópica gera uma camada-limite. Isso significa que as moléculas de água que deixam a superfície colidem muitas vezes no espaço confinado, e algumas retornam”, explicou Gorb.
Como o mecanismo pode proteger o animal
Em um ambiente desértico ou semiárido, a diferença entre a umidade da pele e a secura do ar favorece a passagem de água para a atmosfera. O vento pode intensificar esse processo ao remover o ar úmido que se acumula junto ao corpo.
Os setulae parecem atuar justamente nessa interface entre a pele e o ambiente. Ao reter uma pequena quantidade de ar, eles reduzem a velocidade com que a umidade é afastada da superfície. O efeito não transforma a pele em uma vedação completa, mas pode diminuir a intensidade da perda de água.
Segundo o estudo, a função não depende apenas da existência dos pelos, mas também da forma como eles estão organizados. Distância, orientação e distribuição das estruturas alteram o modo como o ar se move sobre a pele. Em escala nanoscópica, pequenas diferenças geométricas podem produzir efeitos importantes.
Esse tipo de adaptação é especialmente relevante para animais de corpo pequeno. Um gecko tem uma superfície corporal relativamente ampla em comparação com seu volume, o que pode aumentar a exposição à evaporação. Além disso, sua pele é fina e precisa conciliar proteção, flexibilidade e troca com o ambiente.
O papel dos lipídios ainda precisa ser esclarecido
A simulação analisou principalmente a influência física dos pelos microscópicos sobre o ar e a água. A pele real dos lagartos, porém, é mais complexa do que o modelo usado pelos pesquisadores.
Entre os elementos que ainda precisam ser estudados estão os lipídios incorporados à estrutura da pele. Essas substâncias podem tornar a superfície mais repelente à água e modificar a maneira como as moléculas se espalham, permanecem ou evaporam.
Na prática, a combinação entre a geometria dos setulae e a composição química da pele pode ser responsável por uma proteção maior do que aquela observada apenas no modelo. Os autores pretendem investigar esse efeito em uma próxima etapa.
A confirmação experimental será importante porque uma simulação não reproduz todas as condições encontradas em um animal vivo. Temperatura, umidade, vento, movimento do corpo, secreções da pele e comportamento também podem influenciar a perda de água.
Da imagem do gecko à hipótese científica
As imagens que acompanham a pesquisa mostram um gecko-tokay agarrado a uma placa de vidro e, abaixo, ampliações da pele do lagarto. A comparação ajuda a visualizar a diferença entre a aparência externa do animal e a complexidade de sua superfície em escala microscópica.
O gecko-tokay é conhecido pela capacidade de aderir a superfícies, mas a pesquisa trata de outro aspecto da pele: a maneira como suas estruturas podem interferir na evaporação. A mesma superfície que participa da interação do animal com o ambiente pode ter funções múltiplas, dependendo da escala observada.
Segundo a Universidade de Kiel, o artigo “Surface protrusions of the microstructured lizard skin may reduce evaporation intensity: Numerical modelling approach” apresenta uma abordagem baseada em modelagem numérica. O uso do verbo “may”, ou “pode”, é importante: os resultados sugerem uma função, mas não encerram a investigação.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A maior parte da Amazônia é marcada por alta umidade, chuvas frequentes e florestas que mantêm uma camada de ar úmido próxima ao solo. Por isso, não é possível transferir diretamente uma conclusão feita para geckos de regiões áridas a todos os répteis amazônicos.
Mesmo assim, a pesquisa oferece uma conexão relevante com a biodiversidade da região. A Amazônia reúne grande variedade de lagartos, serpentes, anfíbios e outros animais cujas peles estão constantemente expostas a mudanças de temperatura, umidade, radiação solar e circulação de ar.
Em áreas de transição, campinas, savanas amazônicas, campos naturais e regiões alteradas, as condições podem ser mais abertas e secas do que no interior da floresta. Espécies que vivem nesses ambientes podem apresentar adaptações próprias para lidar com a perda de água, embora isso precise ser investigado caso a caso.
O estudo também chama atenção para um princípio importante da ciência da biodiversidade: estruturas aparentemente pequenas podem ter grande valor para a sobrevivência. Conhecer essas soluções naturais pode ajudar a orientar pesquisas de biomimética, área que busca inspiração em organismos para desenvolver materiais e tecnologias.
Uma eventual aplicação tecnológica ainda está distante. Antes de pensar em revestimentos, tecidos ou superfícies inspiradas na pele dos geckos, será necessário confirmar o mecanismo em laboratório, medir a redução real da evaporação e entender como os lipídios e outros componentes da pele participam do processo.
Próximos testes podem confirmar a adaptação
Os pesquisadores planejam testar a hipótese usando pele artificial com estruturas semelhantes aos setulae. Também está nos planos analisar pele real que tenha sido naturalmente descartada pelos geckos, o que permitiria observar a arquitetura sem a necessidade de manipular diretamente um animal vivo.
Esses experimentos poderão mostrar se a retenção de ar prevista no computador ocorre de fato e em que condições ela é mais eficiente. Também devem indicar se o efeito varia entre espécies, tamanhos de pelos, formatos de pele ou níveis de umidade.
Se os testes confirmarem as simulações, os pelos nanoscópicos poderão ser reconhecidos como uma adaptação que ajuda alguns lagartos a conservar água em ambientes secos. Até lá, a principal contribuição do trabalho é transformar uma característica misteriosa da pele em uma hipótese testável, com possíveis implicações para a biologia evolutiva e para a criação de materiais inspirados na natureza.
O artigo está disponível na revista Biointerphases e pode ser consultado no estudo publicado pelos pesquisadores; informações sobre o periódico também podem ser encontradas na página da Biointerphases. Os próximos experimentos deverão indicar se a barreira de ar observada no modelo realmente reduz a perda de água na pele dos geckos.
Com informações do American Institute of Physics.
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