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Vegetação de 53 cumes europeus muda ao longo de 21 anos, mas o calor não explica tudo

Vegetação de 53 cumes europeus muda ao longo de 21 anos, mas o calor não explica tudo
Foto: newswise.com

Estudo internacional mostra que espécies associadas ao calor avançam, enquanto as condições locais definem a intensidade da transformação.

Vegetação alpina em cume europeu monitorado pela rede GLORIA
Vegetação alpina monitorada em cumes europeus. Crédito: Norbert Helm / University of Vienna.

Em vez de responder de maneira uniforme ao aumento da temperatura, a vegetação dos cumes europeus está mudando em ritmos diferentes. Um estudo internacional liderado por pesquisadores da University of Vienna, da Austrian Academy of Sciences e da BOKU University analisou 724 áreas de monitoramento em 53 montanhas durante 21 anos e constatou que espécies associadas a ambientes mais quentes se tornaram mais frequentes em muitos locais. A pesquisa foi divulgada em 14 de agosto de 2026 e publicada na revista Nature Ecology & Evolution.

O resultado mais surpreendente é que o aquecimento medido diretamente em cada área explicou apenas parcialmente a transformação da flora. Em escala local, a presença de outras espécies adaptadas ao calor, a vegetação ao redor e as características específicas de cada cume tiveram peso importante na forma como as comunidades de plantas se reorganizaram.

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O que mudou nos cumes europeus

O levantamento integra a rede GLORIA, sigla em inglês para Iniciativa Global de Observação e Pesquisa em Ambientes Alpinos. O programa acompanha os efeitos das mudanças climáticas sobre a vegetação de montanhas em diferentes regiões do planeta.

As 724 parcelas analisadas foram visitadas quatro vezes ao longo de duas décadas. Os pontos estão distribuídos por todas as principais regiões montanhosas da Europa, incluindo os Alpes, os Apeninos, os Cárpatos, as Dolomitas e áreas de alta montanha da Noruega.

Segundo a University of Vienna, a vegetação dos cumes europeus apresentou uma mudança geral em direção a espécies associadas ao calor ao longo dos 21 anos de observação. No entanto, essa tendência não ocorreu com a mesma intensidade em todos os locais, o que impede tratar a resposta das montanhas como um fenômeno uniforme.

Entenda o caso

O termo termofilização descreve o aumento relativo de espécies que preferem condições mais quentes dentro de uma comunidade vegetal. No estudo, ele não significa que todas as plantas estejam subindo ao mesmo tempo ou desaparecendo imediatamente, mas que a composição da vegetação está favorecendo espécies mais tolerantes ao calor.

Em alguns cumes, plantas que antes ocupavam áreas mais baixas passaram a aparecer em altitudes maiores. Em outros, espécies típicas de ambientes frios diminuíram, enquanto a mudança climática se combinou com competição, disponibilidade de água, duração da cobertura de neve e características do solo.

Espécies mostram respostas diferentes

Entre os exemplos observados está a Sempervivum montanum, conhecida como sempre-viva-das-montanhas. Adaptada a fendas rochosas e encostas secas, a espécie foi registrada pela primeira vez nos cumes monitorados do maciço de Mercantour, nos Alpes franceses, nos últimos anos.

A Campanula barbata, uma campânula típica de campos subalpinos, também passou a ser encontrada com maior frequência em áreas dos Alpes do Valais, na Suíça. Com a elevação das temperaturas, espécies desse tipo podem encontrar condições mais favoráveis para avançar em direção a altitudes maiores.

O movimento inverso foi identificado em plantas adaptadas ao frio. A Geum reptans, conhecida como cravo-das-pedras rasteiro, tornou-se menos comum nas Dolomitas italianas. A Luzula alpinopilosa, associada a áreas alpinas influenciadas pela neve, apresentou declínio em todos os cumes pesquisados nos Altos Tatras, na Eslováquia.

Outra espécie sensível é a Ranunculus glacialis, uma das plantas que crescem em maiores altitudes na Europa. Ela diminuiu tanto em Dovrefjell, na Noruega, quanto nos Altos Tatras, parte dos Cárpatos. A Phyteuma hemisphaericum, típica de campos alpinos, ficou menos frequente nos Apeninos do Norte e nos Alpes do Valais.

O aquecimento continua sendo o fator principal

Apesar da influência das condições locais, os autores não afastam o papel das mudanças climáticas. Quando os resultados são agrupados por cadeias montanhosas, a relação aparece com mais clareza: regiões que aqueceram mais também apresentaram, em média, uma mudança maior em direção a espécies associadas ao calor.

“Nossos dados mostram claramente que a vegetação dos cumes europeus está mudando e que as espécies associadas ao calor estão se tornando mais comuns”, afirmou Johannes Hausharter, pesquisador da University of Vienna e autor principal do estudo.

O cientista, porém, ressalvou que a velocidade da mudança não parece depender apenas do aumento da temperatura. “Mais aquecimento tende a significar mais espécies associadas ao calor, mas cada cume reage de uma maneira ligeiramente diferente”, explicou.

Segundo a University of Vienna, em 14 de agosto de 2026, espécies vegetais associadas a ambientes mais quentes estavam mais presentes em muitos dos cumes europeus monitorados, embora a intensidade da mudança variasse conforme o contexto local.

Por que o resultado importa para a conservação

A diversidade das respostas dificulta previsões feitas apenas com base em médias de temperatura. Para saber quais espécies podem persistir, avançar ou desaparecer em determinado cume, os pesquisadores defendem a análise conjunta de fatores climáticos e ecológicos.

Esse tipo de acompanhamento também interessa ao debate ambiental na Amazônia. A região não possui ecossistemas alpinos equivalentes aos dos Alpes ou dos Cárpatos, mas enfrenta mudanças ambientais que igualmente variam conforme o local. Diferenças de solo, disponibilidade de água, fragmentação, relevo e presença de espécies competidoras podem alterar a resposta de florestas, campos e áreas de transição em estados como Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Mato Grosso.

A comparação não significa que montanhas europeias e ambientes amazônicos respondam da mesma forma. O ponto comum está na necessidade de séries históricas longas para separar tendências amplas de oscilações locais e orientar políticas de conservação mais precisas.

Harald Pauli, responsável pela rede GLORIA na Austrian Academy of Sciences e na BOKU University, afirmou que programas de monitoramento de longo prazo são indispensáveis para compreender os ecossistemas alpinos. Para ele, ampliar a coleta de dados permitirá avaliar melhor a interação entre fatores que muitas vezes ocorrem simultaneamente.

O artigo completo está disponível na Nature Ecology & Evolution. A continuidade e a expansão da rede GLORIA serão os próximos passos para melhorar as previsões sobre a biodiversidade das altas montanhas europeias.

Com informações de University of Vienna.

Perguntas frequentes

O que é termofilização?

É a mudança na composição de uma comunidade vegetal com aumento relativo de espécies associadas a ambientes mais quentes.

Quantas áreas foram analisadas?

O estudo avaliou 724 parcelas de monitoramento distribuídas em 53 cumes europeus, acompanhadas quatro vezes ao longo de 21 anos.

O aquecimento explica sozinho as mudanças?

Não. O aquecimento global é apontado como o principal fator em escala regional, mas condições locais, competição e a vegetação do entorno também influenciam a resposta de cada montanha.

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