
Temperatura do Pacífico tropical já atingiu 3,11°C acima da média, antes do pico normalmente registrado no fim do ano.
O oceano Pacífico tropical chegou a um ponto que normalmente só aparece mais perto do fim do ano. Em 21 de setembro de 2026, a área central usada para acompanhar o El Niño estava 3,11°C mais quente do que a média de referência, superando o recorde diário de 3,08°C registrado em 18 de novembro de 2015. O fenômeno começou a ganhar força em junho e, segundo as projeções disponíveis, deve continuar até 2027.
O dado ajuda a explicar por que pesquisadores passaram a chamar o episódio de “super El Niño”. A classificação não é oficial, mas descreve uma ocorrência que já ultrapassou todos os limites conhecidos para esta época do ano. El Niño é uma oscilação natural do sistema climático do Pacífico, capaz de reorganizar os padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em várias partes do planeta.
O recorde apareceu antes do período de maior força
A particularidade deste evento está tanto na intensidade quanto na velocidade. El Niños fortes costumam alcançar o auge no inverno do Hemisfério Norte, principalmente em novembro ou dezembro. Os episódios mais intensos já observados também continuaram se fortalecendo depois de meados de setembro.
Segundo a análise da Carbon Brief, a anomalia diária do Niño 3.4 atingiu 3,11°C em 21 de setembro de 2026, acima do recorde de 3,08°C estabelecido em 2015. A região Niño 3.4 é uma faixa do Pacífico central usada pelos serviços meteorológicos para medir quanto a superfície do mar se afastou da temperatura média.
O índice compara as águas atuais com uma média móvel de 30 anos. Esse procedimento permite observar a evolução recente sem misturar diretamente todo o aquecimento de longo prazo provocado pelas emissões humanas. Para acompanhar a série, a Carbon Brief adotou a convenção do Oceanic Niño Index, o índice oceânico do El Niño utilizado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA.
Como 2026 se distancia de 1997 e 2015
Os números mostram a diferença entre o episódio atual e os dois eventos que costumam servir de referência. No início de setembro de 1997 e de 2015, as anomalias estavam perto de 1,9°C. Em 2026, o valor já passava de 3°C, mais de um grau acima do patamar observado nos dois anos anteriores.
Na escala usada para descrever o fenômeno, uma anomalia de 0,5°C é suficiente para caracterizar um El Niño fraco. Acima de 1°C, ele é considerado moderado; a partir de 1,5°C, forte; e acima de 2°C, muito forte. O evento de 2026, portanto, está muito além da categoria mais elevada dessa classificação convencional.
O dado mensal de agosto reforça a dimensão do episódio. A anomalia média do Niño 3.4 ficou em aproximadamente 2,45°C. Esse valor superou o pico de quase todos os eventos anteriores, com exceção do El Niño de 2015 e 2016, que chegou a 2,75°C, e do episódio de 1877 e 1878, estimado em cerca de 2,7°C a partir de registros incompletos de navios.

O que muda quando o índice é corrigido
Existe uma segunda maneira de medir a intensidade do El Niño. O índice relativo do Niño, conhecido pela sigla RONI, foi introduzido pela NOAA em 2024 para descontar parte do aquecimento observado nos oceanos tropicais entre 20 graus de latitude norte e 20 graus de latitude sul.
Por esse cálculo, o episódio de 2026 ainda não supera o recorde diário absoluto do El Niño de 1982 e 1983. Em meados de setembro, o RONI estava em torno de 2,5°C, aproximadamente 0,7°C abaixo do máximo de 1982. A diferença não invalida o recorde apontado pelo outro índice, mas mostra como a escolha da referência altera a leitura da intensidade.
O RONI pode reduzir a força aparente de eventos que ocupam uma área muito ampla do Pacífico, como o atual. Por isso, os pesquisadores usam os dois indicadores para separar o sinal específico do fenômeno da tendência geral de aquecimento dos oceanos.
O impacto mais pesado pode aparecer em 2027
Quatorze modelos sazonais analisados projetam um pico mensal próximo de 4,1°C entre o fim de 2026 e o começo de 2027. Em 80% das 674 simulações, o resultado ficou entre 3,4°C e 4,6°C. Todas as rodadas indicaram um máximo acima do recorde de 2015 e 2016.
Há cautela nessa projeção. Nenhum sistema de previsão sazonal foi testado contra um El Niño com esta magnitude, porque um evento desse tamanho ainda não havia sido registrado. Além disso, os modelos estimaram para agosto temperaturas cerca de 0,3°C superiores às observadas. Mesmo assim, há concordância quase total de que o fenômeno continuará se fortalecendo durante o inverno.
O calor acumulado no Pacífico não se transforma imediatamente em aumento da temperatura média do planeta. Existe uma defasagem de alguns meses entre a elevação das águas e a resposta da atmosfera global. Por isso, a maior parte do efeito sobre as temperaturas mundiais deve ser sentida em 2027. A Carbon Brief avalia que 2026 já caminha para ser o ano mais quente ou o segundo mais quente da série histórica.
O que o recorde representa para a Amazônia
Na Amazônia, El Niño é acompanhado principalmente pela possibilidade de mudanças no regime de chuvas e pelo aumento do risco de estiagens em partes da região. A resposta não é uniforme entre Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, porque a floresta, os rios e as áreas de transição recebem influência de diferentes sistemas atmosféricos.
Para comunidades ribeirinhas, produtores, hidrelétricas e órgãos de defesa civil, a importância do recorde está menos no número isolado do Pacífico e mais na duração e na distribuição dos efeitos. Uma estação mais seca pode dificultar a navegação, pressionar o abastecimento e favorecer incêndios em áreas já alteradas. O fenômeno, porém, não determina sozinho o que ocorrerá em cada município, pois o desmatamento, o aquecimento regional e as condições locais também interferem no resultado.
A próxima atualização da análise climática está prevista para o início de outubro de 2026 e deverá detalhar o que a força do El Niño pode significar para o clima de 2027.
Com informações de Carbon Brief.
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