
Seis indicadores mostram como a combinação de temperaturas recordes, estiagem e incêndios atingiu a produção agrícola europeia.
A safra europeia de 2026 chega ao fim com menos grãos, lavouras danificadas e uma conta estimada entre €2 bilhões e €2,3 bilhões apenas pelas perdas associadas à onda de calor de junho. O impacto foi provocado pela combinação de calor extremo, falta de chuva e incêndios em diferentes áreas do continente, segundo análise publicada em 4 de setembro de 2026 pelo Carbon Brief.
O problema já aparece em produtos concretos. Batatas menores foram colhidas nos Países Baixos, a produção de cenouras recuou na França, campos de arroz secaram na Itália e oliveiras sofreram em partes do Mediterrâneo. O efeito não se limita ao campo: a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura informou que os preços globais dos alimentos alcançaram o maior nível desde o início de 2023.
França concentra uma das maiores perdas
A França, maior produtora agrícola da União Europeia, deve produzir quase 8 milhões de toneladas a menos de cereais em 2026 na comparação com o ano anterior. O recuo envolve culturas como trigo, cevada e aveia. A Alemanha aparece na sequência, com queda projetada de quase 4 milhões de toneladas.
Com a redução, a produção francesa de milho pode cair 35% em um ano e atingir o menor patamar desde 1980. A onda de calor também antecipou a colheita de uvas em algumas regiões para meados de julho. Em determinados casos, os frutos ficaram menores e menos suculentos, o que pode diminuir o volume de vinho produzido.
O impacto econômico da onda de calor foi calculado comparando as previsões de produção de junho e julho de 2026 com os preços de entrega da colheita em 28 países europeus. França, Alemanha, Hungria e Espanha responderam por 86% da receita perdida na estimativa do Energy & Climate Intelligence Unit.
Menos toneladas e menos rendimento por hectare
Há duas formas diferentes de medir o dano. A produção total mostra quantas toneladas chegam ao mercado. O rendimento indica quanto uma área plantada consegue produzir. Em 2026, os dois indicadores pioraram na maior parte da União Europeia.
As maiores quedas de rendimento de cereais são esperadas na Eslováquia, na Áustria e na Hungria, com redução superior a uma tonelada por hectare em relação a 2025. França, sul da Alemanha, norte e centro da Itália e Hungria também aparecem entre as áreas com possibilidade de perdas locais de colheita.
Segundo a Comissão Europeia, a produção de cereais na União Europeia deve cair 9% em 2026 ante 2025. Apenas 2024 teve produção menor na última década. O milho concentra uma das quedas mais expressivas, com recuo projetado de 13%, para 52 milhões de toneladas, o menor volume do bloco desde 2007.
A seca não atingiu todas as lavouras da mesma maneira
A disponibilidade de água ajudou a separar os resultados. Em Portugal, as lavouras irrigadas tiveram bom desempenho durante o verão, enquanto culturas dependentes da chuva apresentaram sinais de estresse térmico. O contraste mostra que a irrigação pode reduzir parte da perda, mas não elimina o risco em períodos longos de calor e estiagem.

Na Alemanha e na Áustria, o solo seco também afetou as pastagens e reduziu a oferta de milho usado na alimentação do gado. O especialista em sistemas de cultivo Til Feike, do Julius Kühn-Institut, afirmou ao Carbon Brief que a agricultura precisará se adaptar a períodos extremos de calor, seca e chuva prolongada, sem uma solução única para todos os territórios.
“No longo prazo, a agricultura deve se adaptar melhor a condições meteorológicas mais extremas, não apenas ao calor e à seca, mas também a períodos prolongados de chuva. Portanto, não existe uma solução única para a adaptação às mudanças climáticas”, disse Til Feike.
O Reino Unido também deve registrar uma das piores colheitas desde o início dos registros detalhados, em 1984. As pesquisas de 2026 apontam queda de 15% no rendimento da cevada, 14% na aveia e 6% no trigo. Mesmo com alguma melhora nas condições, a safra ainda deve ficar entre as cinco piores da série histórica.
O custo climático chega ao consumidor
O impacto da seca europeia não termina na propriedade rural. A redução da oferta pode pressionar preços ou diminuir o tamanho de hortaliças disponíveis nos supermercados. A análise também cita custos elevados de combustível e dificuldades no fornecimento de fertilizantes como fatores que agravaram o resultado agrícola de 2026.
O calor extremo pode afetar a economia em escala maior. Uma análise do Triodos Bank estimou que as condições meteorológicas do verão poderiam reduzir em cerca de 1% o Produto Interno Bruto da União Europeia neste ano, o equivalente a aproximadamente €180 bilhões.
Estudos de atribuição climática indicaram que o calor de junho no oeste europeu seria praticamente impossível há 50 anos nas mesmas condições. A relação não significa que cada perda agrícola possa ser atribuída isoladamente à mudança do clima, mas mostra como o aquecimento amplia a probabilidade e a intensidade de episódios extremos.
O que esse cenário sinaliza para a Amazônia
Os números europeus não permitem afirmar que as mesmas perdas ocorreram no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins. Eles ajudam, porém, a visualizar um risco que também interessa à agricultura amazônica: quando calor, falta de água e incêndios acontecem ao mesmo tempo, a produtividade pode cair e os custos de produção aumentam.
Para quem vive na região, a conexão mais direta está no mercado. A Amazônia participa de cadeias de grãos, pecuária, frutas e outros alimentos sensíveis ao clima. Uma quebra relevante em grandes áreas produtoras da Europa pode alterar fluxos comerciais e contribuir para a volatilidade dos preços globais, embora o estudo não projete efeitos específicos para os estados amazônicos.
A análise completa reúne os seis gráficos sobre produção, rendimento e perdas agrícolas na Europa e pode ser consultada no documento com os dados da safra europeia de 2026.
Os próximos levantamentos de produção e os preços das colheitas deverão mostrar quanto das perdas previstas será confirmado até o encerramento da temporada agrícola de 2026.
Com informações de Carbon Brief.
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