
Comentário assinado por 175 cientistas que preparavam a avaliação climática nacional americana lista o que ainda falta saber para enfrentar desastres. As florestas urbanas estão entre as prioridades, tema que Belém conhece de perto a cada temporal.
Cento e setenta e cinco cientistas que trabalhavam na próxima avaliação climática nacional dos Estados Unidos publicaram, em 22 de setembro, um roteiro do que ainda precisa ser pesquisado para que cidades, estados e comunidades se preparem para desastres e eventos extremos. O texto, um comentário intitulado “Prioridades de pesquisa para avaliações climáticas robustas nos Estados Unidos”, saiu ao mesmo tempo na revista Earth’s Future, da União Geofísica Americana (AGU), e no Bulletin of the American Meteorological Society, da Sociedade Americana de Meteorologia (AMS).
Os autores principais são Melissa Kenney, diretora de iniciativas de pesquisa e conhecimento do Instituto do Meio Ambiente da Universidade de Minnesota, Robert Kopp, professor do Departamento de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade Rutgers, e Constantine Samaras, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade Carnegie Mellon. Segundo o próprio artigo, o grupo havia sido encarregado de produzir a sexta Avaliação Nacional do Clima (NCA, na sigla em inglês), relatório que a lei americana exige a cada quatro anos. Os autores foram dispensados pelo governo federal em abril de 2025, e o trabalho seguiu de forma voluntária.
O comentário é o primeiro de uma coleção especial criada pela AGU e pela AMS para reunir, em 24 revistas científicas, estudos que sirvam de base a futuras avaliações nacionais e regionais. A lista de prioridades inclui entender como eventos extremos se combinam e se encadeiam, como riscos climáticos ameaçam infraestrutura e instituições e quanto funcionam, de fato, as ações de adaptação e de gestão de desastres.
Dois exemplos aparecem no capítulo sobre cidades. O furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans em 2005, é citado porque as diferenças entre bairros ricos e pobres persistem mais de 20 anos depois. O furacão Helene, que inundou comunidades dos montes Apalaches em 2024, ilustra a falha simultânea de estradas, água, energia, esgoto e comunicações. Os autores observam que os riscos climáticos crescem mais depressa que a capacidade das instituições e que as cidades mais expostas costumam ter menos recursos.
As florestas ganham um capítulo próprio. O texto registra que calor, mudanças no regime de chuvas, incêndios, surtos de insetos e doenças já causam mortalidade generalizada de árvores no país. Em alguns cenários, o acúmulo de perturbações pode fazer as florestas americanas passarem de sumidouro a fonte de carbono, emitindo mais do que absorvem. Os pesquisadores também apontam novos tipos de extremo, como as “secas quentes” e o fogo que avança sobre áreas urbanas.
É nesse capítulo que entram as florestas urbanas, como os especialistas chamam o conjunto de árvores de ruas, praças e parques. Como mais de 80% da população dos Estados Unidos vive em cidades, dizem os autores, as ameaças às árvores urbanas (calor, pragas, seca, fogo e elevação do nível do mar) afetam saúde pública, equidade e infraestrutura. Além de guardar carbono e reduzir as ilhas de calor, essas árvores servem de refúgio para pessoas vulneráveis durante eventos extremos. O texto associa florestas urbanas com maior diversidade de espécies a mais atividade física, menor exposição ao calor e à poluição e, em alguns casos, menor mortalidade. A recomendação é avaliar o tema de forma integrada, ligando ecologia urbana, saúde pública, vulnerabilidade social e manejo das árvores.
Árvores urbanas diante do clima extremo
O que os cientistas americanos pedem e o que as cidades brasileiras já têm em mãos
| O que o estudo aponta (EUA) | Referências no Brasil |
|---|---|
| Mais de 80% da população dos EUA vive em áreas urbanas |
Lei 8.909/2012 Plano Municipal de Arborização Urbana de Belém, que orienta plantio e substituição de espécies |
| Ameaças calor, pragas, seca, fogo e elevação do nível do mar |
ABNT NBR 16246 norma técnica de manejo de árvores urbanas: poda (parte 1) e segurança no serviço (parte 2) |
| Funções guardam carbono, reduzem ilhas de calor e servem de refúgio a pessoas vulneráveis em eventos extremos |
Lei 15.299/2025 pedido de poda ou corte por risco exige laudo; sem resposta do órgão em 45 dias, há autorização tácita |
| Saúde florestas urbanas ricas em espécies ligadas a mais atividade física, menos calor e menos poluição |
Inventário Belém faz inventário das árvores com a UFRA; levantamento municipal anterior contou cerca de 120 mil, 12 mil mangueiras |
| Prioridade avaliar juntos ecologia urbana, saúde pública, vulnerabilidade social e manejo das árvores |
Vistoria UFRA defende inspeção técnica constante e remoção antecipada de árvores com risco de queda |
Entre os 175 autores está John Daigle, professor de gestão de recreação florestal da Universidade do Maine, que contribuiu com a parte sobre povos indígenas e comunidades com fortes laços culturais com o território. “As avaliações futuras serão mais úteis se forem além dos inventários de espécies e se concentrarem em processos dinâmicos, capacidade de adaptação, respostas integradas dos sistemas e retroalimentações sociais e ecológicas”, afirma Daigle.
O comentário não traz manual de poda nem regras práticas. O que oferece é uma forma de olhar o problema que serve às cidades brasileiras, onde a árvore que cai no temporal já é parte da rotina das chuvas. Em 10 de dezembro de 2025, a Defesa Civil de São Paulo recebeu 514 chamados por quedas de árvores na capital, num dia de ventos que chegaram a 98 km/h na Lapa, na zona oeste. A falta de energia provocada pelo vendaval chegou a afetar o abastecimento de água em parte da cidade.

Em Belém, 13 árvores caíram entre janeiro e o início de fevereiro de 2025, oito delas mangueiras, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (Semma). O serviço de poda estava suspenso desde setembro de 2024. Em fevereiro, a prefeitura montou uma força-tarefa que mapeou, em três dias, mais de 300 árvores com risco médio ou grave de queda, programou a retirada de 30 no centro e a poda urgente de outras 100. Em 19 de abril de 2026, a cidade registrou 150 milímetros de chuva em menos de 24 horas, e a prefeitura decretou situação de emergência. Na avenida Pedro Miranda, uma mangueira de 12 metros caiu sobre a rede elétrica e deixou mais de 5 mil famílias sem luz.
Um levantamento da Semma divulgado em 2018 contava cerca de 120 mil árvores na arborização urbana de Belém, 12 mil delas mangueiras. Ao comentar os números, o pesquisador Sérgio Brazão, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), sustentou que chuva e vento sozinhos não explicam as quedas: poda malfeita, escavações que cortam raízes, concreto ao redor do tronco, pragas e a erva-de-passarinho enfraquecem as árvores. Poda feita só de um lado, para afastar galhos dos fios, desequilibra a copa e pode fazer a árvore tombar com ventos fortes. Para ele, “é necessário que sejam realizadas vistorias diárias nas árvores, por pessoal técnico especializado, visando identificar os riscos”.

Parte das ferramentas que o comentário americano pede já existe no Brasil. Belém tem o Plano Municipal de Arborização Urbana, instituído pela Lei 8.909, de 2012, que permite à Semma substituir as mangueiras tombadas pela manguita, árvore da mesma família que “cresce entre 7 a 12 metros, no máximo”, segundo o engenheiro florestal Cosme Farias, da secretaria. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) mantém a NBR 16246, norma de manejo de árvores urbanas que trata da poda e da segurança nos serviços de arboricultura. Em dezembro de 2025, a Lei federal 15.299 passou a exigir laudo de profissional habilitado nos pedidos de poda ou corte por risco de acidente e considera o serviço tacitamente autorizado se o órgão ambiental não responder em 45 dias.
Falta, como nos Estados Unidos, conhecimento acumulado sobre como as árvores da cidade respondem ao clima que muda. Na UFRA, a equipe do engenheiro florestal Fabiano Emmert monitora desde 2018 as florestas urbanas e periurbanas da região metropolitana e anunciou como próximo passo o estudo da mortalidade das árvores, incluindo a direção e o modo das quedas e o impacto de tempestades e chuvas fortes. A lição do comentário americano é ligar esses dados à saúde e à vulnerabilidade de quem vive embaixo das copas. No temporal de abril, o bairro mais atingido em Belém foi a Terra Firme, na periferia, longe dos túneis de mangueiras do centro.
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