Fogo é a maior ameaça à Amazônia hoje; cientista volta a Paragominas para frear queimadas que já superam desmate, no Pará

A foto registra mata ainda com copas verdes ao lado de zona sob pressão de fogo, um contraste que a imagem sozinha não nomeia: em trechos de Paragominas o balanço de carbono já pode pender para emissão líquida

O pesquisador de volta à estrada de terra

O cientista que há décadas mede a floresta em pé volta a circular pelas estradas de terra de Paragominas, município do nordeste do Pará na Amazônia oriental brasileira, e o que encontra não é só cicatriz antiga de corte raso. É fogo recorrente, borda seca, pasto que pega com facilidade e um balanço de carbono que já não fecha a favor da mata. A visita não é nostálgica.

É de trabalho de campo para entender por que, em trechos onde o desmatamento perdeu velocidade, as queimadas passaram a ditar o ritmo da perda e a empurrar o bioma para um estado mais aberto, mais inflamável e menos capaz de devolver umidade ao ar.

Paragominas ficou conhecida no passado por um ciclo duro

Paragominas ficou conhecida no passado por um ciclo duro de exploração madeireira e conversão agropecuária, depois por tentativas de regularização e recuperação de cobertura.

O retorno do especialista a essa paisagem mista de floresta secundária, remanescentes e áreas produtivas serve de laboratório vivo para um fenômeno que a ciência climática e ecológica acompanha com preocupação crescente: o fogo deixou de ser apenas consequência do desmate e passou a ser, em si, a principal ameaça em áreas críticas.

A reportagem do The New York Times registra esse deslocamento de eixo e os dados locais de recuperação e emissão que sustentam o alerta.

Quando a chama supera a motosserra

Por muito tempo o mapa mental da devastação amazônica privilegiou o corte e a conversão. A lógica era linear: derruba, queima residual, planta ou coloca gado. O que as medições e o acompanhamento de longo prazo sugerem em regiões como a de Paragominas é outra dinâmica.

Mesmo com freios parciais ao desmatamento em alguns períodos, o fogo se mantém ou avança porque a floresta fragmentada seca nas bordas, o sub-bosque acumula material combustível e a estação seca se alonga o bastante para transformar um foco pequeno em frente que atravessa propriedade, reserva e estrada. O mecanismo é físico e biológico ao mesmo tempo.

Árvores altas mantêm sombra e umidade; quando a cobertura rarefaz

Árvores altas mantêm sombra e umidade; quando a cobertura rarefaz, o sol chega ao chão, a serapilheira perde água e o vento entra com mais força. Uma queimada de pastagem mal controlada ou um foco em área de roçada vira incêndio de sub-bosque. A floresta não precisa ser derrubada por completo para perder função. Basta repetir o estresse térmico e hídrico ano após ano.

Espécies mais sensíveis morrem de pé, clareiras se abrem, gramíneas invadem e o próximo fogo encontra caminho mais fácil.

É um ciclo que se autoalimenta e que a literatura de tipagem de risco chama, com cautela, de caminho possível rumo a estados mais savanizados em porções já sob pressão. Em termos de carbono, a virada é cruel. A floresta em crescimento ou em recuperação pode absorver dióxido de carbono da atmosfera.

Áreas agrícolas e pastagens manejadas de certo modo, ou florestas degradadas por fogo repetido, podem emitir mais do que sequestram quando se soma respiração do solo, perda de biomassa aérea e combustão. O recorte local apontado no acompanhamento de Paragominas indica trechos em que o balanço já pende para a emissão. Isso não é detalhe contábil.

É sinal de que o bioma, naquela fatia, deixou de funcionar como sumidouro líquido e passou a contribuir para o estoque atmosférico que aquece o planeta e, de volta, seca a própria floresta.

Savanização, ponto de não retorno e o que a medição mostra

A ideia de um ponto de não retorno amazônico não é slogan. É hipótese científica em debate, com modelos que divergem sobre o limiar exato de desmatamento, degradação e aquecimento a partir do qual grandes porções do sul e leste da bacia poderiam perder a capacidade de se manter como floresta úmida. O fogo entra nessa conta porque acelera a transição. Não é preciso zerar a cobertura para cruzar um limiar funcional.

Basta que a recorrência de queimadas, a fragmentação e a seca reduzam a evapotranspiração coletiva a ponto de a chuva local e regional enfraquecer.

O papel da borda e da estação seca

Nas margens de estradas, de pastos e de clareiras, a penetração de luz e vento cria um microclima mais quente e seco a dezenas ou centenas de metros para dentro do remanescente. Espécies de sub-bosque e árvores de dossel sofrem. Mortalidade sobe. Material morto acumula. Na estação seca, qualquer ignição encontra combustível.

O especialista que retorna a Paragominas observa justamente essa geometria: a ameaça não está só no miolo intocado, está na interface onde a produção e a floresta se tocam sem manejo de fogo adequado, sem aceiros consistentes e sem monitoramento em tempo real de umidade e vento.

As medições de recuperação florestal na região importam porque mostram que a mata pode voltar a ganhar biomassa quando o fogo e o corte param de martelar. Ao mesmo tempo, mostram o quão frágil é esse ganho se a próxima seca forte reabre o ciclo. Recuperação não é garantia de estabilidade. É janela.

Se a janela for usada para recompor conectividade, enriquecer com espécies nativas e reduzir focos, o carbono volta a ser estocado. Se for usada apenas como pausa entre queimadas, o estoque se perde de novo e a emissão líquida se confirma. O risco de savanização, nesse quadro, não significa que a Amazônia inteira vire cerrado de um dia para o outro.

Significa que porções já degradadas podem estabilizar em fisionomias mais abertas, com menos árvores altas, menos sombra, menos umidade e mais gramíneas inflamáveis.

Uma vez nesse estado, o fogo se torna ainda mais frequente e a volta à floresta densa fica mais lenta e mais cara. A ciência usa verbos de cautela: pode, sugere, levanta a possibilidade. O que os dados de campo e de sensoriamento não permitem é tratar o fogo como coadjuvante.

Por que o brasileiro precisa ler esse mapa agora

A Amazônia não é abstração distante para quem vive no Brasil. É identidade, regime de chuvas que alimenta a agricultura no Centro-Sul, repositório de espécies, corredor de umidade e peça central da conversa climática global. Quando áreas agrícolas e de borda no Pará já aparecem como emissoras líquidas em recortes locais, o custo não fica só no município.

Fica na conta de carbono do país, na pressão sobre metas de redução e na vulnerabilidade de comunidades que dependem de floresta em pé para caça, pesca, castanha, açaí, turismo de base e qualidade da água. O equivalente prático, para o leitor de outras regiões, é entender que o fogo amazônico de hoje não se parece com a fogueira controlada de roçado ancestral em pequena escala.

É fenômeno acoplado a clima mais seco em anos

É fenômeno acoplado a clima mais seco em anos de estresse, a paisagem fragmentada e a ignições ligadas a limpeza de pasto e a conflitos de uso. Brigadas, sensores, aceiros e manejo integrado de fogo existem e funcionam melhor quando chegam cedo. Chegar tarde significa apagar o que sobrou e contar carvão.

Para quem decide política pública, crédito rural, zoneamento e fiscalização, o deslocamento da ameaça principal do desmate puro para o complexo desmate-mais-fogo pede outro desenho de resposta. Multar só o corte raso e ignorar a recorrência de focos em borda deixa o carbono escapar pela chaminé aberta da queimada. Incentivar recuperação sem blindar contra fogo é construir estoque para queimar na próxima seca.

O retorno do cientista a Paragominas funciona, nesse sentido, como lembrete de método: medir no chão, comparar décadas, separar o que a floresta ainda aguenta do que já virou fonte.

O que ainda se pode fazer antes da virada

Não há bala de prata, e a honestidade científica exige dizer isso. Há, porém, camadas de ação que se reforçam.

A primeira é reduzir ignições em períodos de risco: calendário de queima zero quando a umidade do combustível fino despenca, fiscalização de foco e apoio a quem produz sem fogo. A segunda é recompor sombra e umidade nas bordas: corredores, enriquecimento, manutenção de dossel. A terceira é monitorar carbono de verdade, não só área de polígono desmatado. Emissão por degradação e por fogo precisa entrar na conversa com o mesmo peso do hectare derrubado.

Em Paragominas, a história de tentativa de virar a chave

Em Paragominas, a história de tentativa de virar a chave de município madeireiro para território com regras mais claras e floresta em recuperação oferece um banco de provas. Onde a pressão de fogo recua e a regeneração avança, o balanço de carbono pode voltar a ser favorável. Onde o fogo vira rotina, a savanização funcional se aproxima e a floresta perde o papel de aliada climática. O especialista no terreno não carrega magia.

Carrega série histórica, olho treinado para borda seca e a convicção de que a maior ameaça de agora exige resposta à altura do mecanismo, não só do slogan. Para o Brasil, o recado prático é direto. Tratar fogo amazônico como epifenômeno do desmate já não descreve a realidade de áreas críticas no Pará. Tratar recuperação como número de mudas sem blindagem contra queimada é ilusão contábil.

Tratar o bioma como identidade nacional e ao mesmo tempo permitir que trechos virem fonte líquida de carbono é contradição que a atmosfera registra sem diplomacia. A ciência no chão de Paragominas, no retorno de quem mede há décadas, sugere que ainda há tempo de frear a curva em muitos lugares.

Também sugere que a janela não é infinita e que cada estação seca com borda inflamável come um pedaço dessa margem. O fecho não é melodrama. É inventário. Floresta que ainda transpira ajuda a chover. Floresta queimada de novo emite, seca e convida o próximo fogo. Áreas agrícolas que emitem mais do que absorvem mudam o sinal do território no inventário nacional.

O pesquisador de volta a Paragominas documenta essa troca de sinal e insiste no óbvio difícil: conter a chama hoje é tão estratégico quanto conter a motosserra ontem. Sem os dois, o mapa que o brasileiro carrega na cabeça como mata contínua vira, pedaço a pedaço, um mosaico mais quente, mais aberto e mais pobre de futuro.

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