Novo Congresso terá 68,9% de parlamentares com baixa adesão ambiental e amplia risco de retrocessos

Novo Congresso terá 68,9% de parlamentares com baixa adesão ambiental e amplia risco de retrocessos
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Levantamento projeta ambiente mais hostil à proteção de florestas, áreas protegidas e órgãos de fiscalização entre 2027 e 2031.

Para quem vive em áreas pressionadas por desmatamento, queimadas e disputas fundiárias, a composição do Congresso eleito no domingo sinaliza uma mudança concreta na correlação de forças em Brasília. Uma análise do Observatório do Clima, divulgada em 6 de outubro de 2026, aponta que 68,9% dos deputados e senadores que assumirão entre 2027 e 2031 estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência com as agendas de clima e meio ambiente.

O dado não significa que 68,9% dos parlamentares tenham declarado oposição a toda política ambiental. O índice utilizado pelo Observatório do Clima mede a proximidade entre a atuação política, os votos registrados e as propostas relacionadas à proteção ambiental e climática. Ainda assim, a maioria classificada nos dois níveis mais baixos reduz o espaço para pautas de preservação e aumenta a possibilidade de avanço de projetos que flexibilizem controles.

Senado concentra a maior mudança

A diferença mais expressiva aparece no Senado, onde 64 dos 81 integrantes da próxima legislatura, o equivalente a 79%, foram colocados nas faixas baixa ou muito baixa. Na legislatura de 2023 a 2027, eram 58 senadores, ou 71,6%, nesses grupos.

O movimento ocorre em uma Casa com papel decisivo na tramitação de leis ambientais. O Senado revisa projetos aprovados pela Câmara, participa da definição do marco legal de áreas protegidas e pode alterar regras que afetam licenciamento, fiscalização, terras públicas e políticas climáticas. Apenas 17 senadores eleitos, 21% do total, aparecem nas categorias boa ou muito boa convergência.

Segundo o Observatório do Clima, 64 dos 81 senadores da legislatura de 2027 a 2031 estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência ambiental, conforme análise divulgada em outubro de 2026.

Na Câmara, a maioria também está nos níveis mais baixos

Na Câmara dos Deputados, 345 dos 513 parlamentares eleitos, ou 67,3%, foram classificados como de baixa ou muito baixa convergência ambiental. O percentual anterior era de 63%. Ao mesmo tempo, o grupo de deputados nas categorias boa ou muito boa diminuiu de 181 para 168 nomes.

A variação pode parecer pequena quando observada apenas em pontos percentuais, mas muda a aritmética das votações. Em uma Casa de 513 cadeiras, a diferença entre uma minoria ambientalmente alinhada e uma bancada mais numerosa pode definir a aprovação de requerimentos, urgências e projetos que alterem regras de fiscalização ou proteção territorial.

O resultado também mostra que a pauta ambiental não depende apenas de discursos de campanha. Ela é decidida em votações sobre orçamento, estrutura de órgãos públicos, regularização fundiária, licenciamento e sanções. Cada uma dessas áreas influencia diretamente a capacidade do Estado de prevenir danos ou responsabilizar quem desmata.

O que está em jogo depois de leis recentes

A preocupação do Observatório do Clima parte de um histórico recente. A legislatura que termina aprovou o chamado PL da Devastação e a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, descrita pela entidade como uma flexibilização de regras de controle de poluição e desmatamento.

O efeito de uma mudança legislativa, entretanto, não aparece apenas no texto publicado. Ele depende de regulamentação, fiscalização, decisões judiciais e capacidade administrativa. Se os órgãos ambientais perdem servidores, orçamento ou autonomia, uma regra já existente pode deixar de produzir o mesmo resultado na prática.

É nesse ponto que a composição do Congresso importa. O Parlamento pode reduzir recursos, modificar competências institucionais e criar exceções para atividades que hoje precisam passar por avaliação ambiental. Também pode aprovar medidas de proteção, desde que exista articulação política suficiente para formar maioria.

Amazônia sente primeiro o efeito da disputa

Na Amazônia, a discussão alcança os nove estados da região: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. São territórios onde decisões nacionais sobre floresta, terras públicas, unidades de conservação e licenciamento interferem no cotidiano de municípios, povos indígenas, comunidades tradicionais, produtores rurais e empresas.

Uma redução da proteção federal pode aumentar a pressão sobre áreas ainda preservadas e dificultar a coordenação entre União, estados e municípios. Também pode ampliar a insegurança para quem depende de regras claras, sobretudo em regiões onde a presença do Estado já é desigual e os conflitos pela terra permanecem recorrentes.

O impacto não é somente amazônico. A proteção da floresta está ligada ao regime de chuvas, à disponibilidade de água, à produção agrícola e à estabilidade de atividades econômicas em outras partes do país. Por isso, decisões tomadas no Congresso sobre a Amazônia produzem efeitos que ultrapassam os limites dos estados onde ocorre o desmatamento.

Risco de retrocesso não elimina a disputa política

Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, avalia que a piora foi especialmente relevante no Senado. Na leitura da entidade, o novo quadro pode facilitar o enfraquecimento dos órgãos ambientais, a redução ou extinção de áreas protegidas, a diminuição da proteção de florestas e biomas e a anistia a grileiros.

“Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática”, afirmou Suely Araújo.

A análise também identifica um contraponto na Câmara. Alguns deputados progressistas alinhados à pauta socioambiental foram eleitos com votações expressivas e podem liderar iniciativas de resistência ou formular propostas próprias. O número, porém, não garante vitória: a capacidade de atuação dependerá de alianças, presidências das Casas, relatorias e mobilização da sociedade.

O ponto ainda não resolvido é saber se a baixa convergência ambiental se transformará em votações coordenadas contra políticas de proteção ou se parte dos parlamentares mudará de posição diante de pressões regionais, econômicas e eleitorais. A resposta começará a aparecer com a definição das mesas diretoras e das comissões da legislatura de 2027 a 2031.

Com informações do Observatório do Clima.

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