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Açaí em risco: tucanos perdem casa e biodiversidade com monocultura

Açaí em risco: tucanos perdem casa e biodiversidade com monocultura
Foto: brasil.mongabay.com

Um novo estudo revela o impacto alarmante da expansão dos açaizais na Amazônia e o futuro da biodiversidade.

Aquela tigela de açaí refrescante, tão popular em todo o mundo, pode estar escondendo uma preocupação séria para o futuro da Amazônia. Um estudo recém-publicado aponta um declínio drástico de 28% nas espécies de aves em áreas amazônicas com alta densidade de palmeiras de açaí. Essa intensificação do cultivo, impulsionada pela crescente demanda global pelo ‘superalimento’, leva à derrubada de árvores nativas e à remoção da vegetação do sub-bosque, habitats cruciais para a sobrevivência de espécies como o tucano-de-papo-branco.

No Brasil, cerca de 95% da produção de açaí está concentrada no Pará, onde a fruta é um pilar da dieta local, servida com peixe e farinha. Seus benefícios nutricionais catapultaram sua fama para outras regiões do país e, eventualmente, para o mercado internacional. Contudo, essa expansão tem um lado sombrio: a perda de diversidade de aves nas florestas de várzea amazônicas. Segundo um estudo de 2026, as consequências da expansão do cultivo e seus manejos já são visíveis.

”Nosso objetivo era entender quais eram as consequências da expansão do cultivo do açaí e suas diversas formas de manejo sobre as aves, com um foco principal nas frugívoras, aquelas que se alimentam de frutos”, disse à Mongabay o biólogo e mestre em ecologia Raphael Vasconcelos Nunes, pesquisador da Universidade Federal do Pará e um dos coautores do estudo. Nunes explica que as matas de várzea, ecossistemas inundados ricos em nutrientes, já são um dos ambientes florestais mais impactados do bioma.

A Intervenção Humana e a Homogeneização Biótica

Para aumentar a produção, os produtores frequentemente cortam a vegetação nativa remanescente. “Com isso, começamos a ter uma bola de neve. Há uma queda dos animais, dispersores de sementes e polinizadores, que ajudam na manutenção e renovação dessa floresta. Por outro lado, se não há cobertura vegetal, o solo fica mais seco”, alerta Nunes, enfatizando que efeitos inicialmente pequenos podem se somar e causar grandes problemas no futuro.

Os pesquisadores monitoraram a presença de aves em 36 áreas de cultivo de açaí, em diferentes escalas, nos municípios paraenses de Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri, conhecida como a “capital mundial do açaí”. Foram coletadas 127 horas de gravações de campo, registrando o canto de quase 3.580 aves. Os resultados mostraram um declínio não só de aves frugívoras, mas também de insetívoras, que dependem do sub-bosque para se alimentar. Essa vegetação, rica em arbustos e pequenas ervas, é frequentemente removida para facilitar a coleta dos frutos e o escoamento da safra.

Entre as aves cuja população diminuiu em áreas de várzea com açaí intensivo, estão o rabo-branco-de-bigodes (Phaethornis superciliosus), um tipo de beija-flor, e o tucano-de-papo-branco (Ramphastos tucanus). Aves de grande porte, como o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), já desapareceram das regiões estudadas. Já o anambé-una (Querula purpurata) não é encontrado em açaizais próximos à monocultura. Em contraste, o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) se beneficia desse ambiente alterado, mostrando-se mais abundante.

”O que existe é uma homogeneização biótica, que na ecologia significa uma simplificação das espécies, já que as plantas que ficam junto com o açaí são muito simples e não conseguem manter a biodiversidade que encontramos em áreas preservadas”, explica o biólogo Madson Freitas, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e principal autor da pesquisa. Segundo Freitas, em áreas de florestas alagadas onde o açaí é cultivado intensivamente, cerca de 200 a 300 espécies vegetais são perdidas e substituídas pela monocultura do açaí.

Uma Demanda Crescente e o Risco Reputacional da Bioeconomia

A produção de açaí aumentou 14 vezes desde 1987, com o Pará sendo o maior consumidor interno e principal exportador. As vendas internacionais de derivados do açaí pelo Pará, principalmente polpa e suco, cresceram quase 885% na última década, atingindo US$ 177,2 milhões conforme a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa). Os Estados Unidos são o principal destino, seguidos por Austrália, Japão e Holanda, porta de entrada para o mercado europeu.

Açaí em risco: tucanos perdem casa e biodiversidade com monocultura
Foto: brasil.mongabay.com

Para atender a essa demanda global, pequenos produtores expandem seus plantios. Embora exista uma instrução normativa que regula o número máximo de touceiras por hectare em propriedades ribeirinhas, a fiscalização é falha. Os pesquisadores alertam que a expansão dos açaizais vai além da perda de alimento para as espécies: modifica o ambiente, eliminando locais de descanso, sono e reprodução. O tucano-de-papo-branco, por exemplo, necessita de ocos em árvores altas, cada vez mais raras nas áreas de cultivo. “O ser humano não deu tempo para essas espécies se adaptarem”, diz Nunes. “Elas existem há milênios, mas o homem chegou e, em menos de cem anos, conseguiu alterar todas as redes de interações que um animal e uma planta tinham estabelecido.”

Entenda o caso

O conceito de bioeconomia sugere que a floresta tropical pode gerar renda a partir de sua biodiversidade, promovendo produtos sustentáveis. No entanto, a expansão descontrolada da monocultura de açaí levanta preocupações de que um símbolo de sustentabilidade possa se transformar em sinônimo de degradação ambiental. A busca por este “superalimento” corre o risco de descaracterizar a floresta, impactando diretamente a fauna e flora local, e questionando a sustentabilidade de práticas atuais.

Produtos da Amazônia são frequentemente vistos como solução para conter o desmatamento. No entanto, o crescimento exponencial do açaí, muitas vezes em plantações industrializadas, apresenta obstáculos. “O estudo apresenta evidências claras de que o distanciamento de práticas tradicionais de cultivo do açaí reduz a biodiversidade localmente e em escalas espaciais maiores”, explica Danielle Leal Ramos, doutora em ecologia e biodiversidade e gerente de projetos de soluções baseadas na natureza da Universidade de Exeter (Reino Unido). Segundo ela, esses resultados implicam riscos econômicos, incluindo a perda de oportunidades no mercado verde e o risco reputacional.

Um relatório de outubro de 2025 do projeto Our Future Amazonia já demonstrava preocupação com a “açaização” predatória, que nada mais é que o crescimento da monocultura de açaí em detrimento de outras espécies, transformando um símbolo de sustentabilidade em sinônimo de degradação. “O corte de florestas nativas para abrir espaço à implantação de cultivos de açaí é bastante prejudicial ao meio ambiente, não muito diferente do desmatamento para a criação de gado ou o cultivo de soja”, ressalta Salo Coslovsky, professor associado de planejamento urbano e serviço público da Universidade de Nova York (EUA) e um dos autores do relatório.

Diante das crises climáticas e de biodiversidade, a Amazônia tem uma oportunidade única de desenvolver alternativas de produção que beneficiem o clima, a biodiversidade e a sociedade. Madson Freitas sugere desestimular a monocultura e encorajar o plantio diversificado de cacau e andiroba, que podem gerar renda na entressafra e favorecer a biodiversidade. Além da fiscalização governamental, especialistas propõem mais conscientização e apoio técnico-financeiro às comunidades locais para que cumpram as exigências ambientais, sem criar exceções que alimentem a competição desleal.

Perguntas Frequentes

Qual o principal impacto da monocultura de açaí na Amazônia?

O principal impacto é a redução drástica da biodiversidade, com um declínio de 28% nas espécies de aves em áreas de alta densidade de açaizais, devido à derrubada de vegetação nativa.

Quais espécies de aves são mais afetadas pela produção de açaí?

Aves como o rabo-branco-de-bigodes e o tucano-de-papo-branco estão entre as mais afetadas, além de aves de grande porte como o mutum-cavalo que já desapareceram de algumas áreas.

O que pode ser feito para mitigar esses impactos?

Especialistas sugerem desestimular a monocultura, incentivar o plantio de outras culturas como cacau e andiroba, oferecer apoio técnico e financeiro aos produtores e fortalecer a fiscalização das leis ambientais.

Com informações de Mongabay Brasil.

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