
Achado fóssil no interior de São Paulo revela coexistência de serpentes primitivas terrestres e subterrâneas há milhões de anos.
A descoberta de um fóssil de serpente de mais de 75 milhões de anos no interior de São Paulo está reescrevendo a narrativa sobre a origem e a evolução das serpentes. A espécie, batizada de Tametara mirim, era altamente adaptada à vida subterrânea, revelando uma surpreendente diversidade ecológica entre as serpentes primitivas, que já incluía espécies vivendo no solo e na superfície na mesma época.
Identificada por uma equipe internacional de pesquisadores com participação da USP, a nova serpente é detalhada em um artigo publicado na renomada revista científica Nature. O achado aconteceu em Presidente Prudente, no Sítio Paleontológico José Martin Suárez, local já conhecido por abrigar aves fossilizadas bem preservadas no Brasil.
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A Tametara mirim viveu durante o Cretáceo Superior, entre 85 e 75 milhões de anos atrás, na área que hoje corresponde à Formação Adamantina, no Grupo Bauru, em São Paulo. Trata-se de uma das serpentes mais antigas e melhor preservadas já conhecidas, sendo o primeiro fóssil articulado de serpente encontrado no País, conforme explica Annie Hsiou, professora do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. O espécime preserva parte do crânio e mais de 100 vértebras articuladas, permitindo uma reconstrução anatômica detalhada por microtomografia computadorizada realizada na Escola Politécnica (Poli) da USP.
O nome Tametara mirim, que significa ‘pequeno adorno’ em tupi, é uma referência à crista sagital (uma proeminência na linha média no topo do crânio) bem desenvolvida que a espécie possuía. Segundo Hsiou, “ela tem características que ajudam a compreender a origem e a evolução das serpentes e é considerada uma serpente primitiva do Cretáceo brasileiro”.
Quem descobriu o fóssil da Tametara mirim
Segundo o Museu de Paleontologia de Marília (SP), o fóssil que deu origem à descrição da Tametara mirim, tombado no acervo sob o número MPM 420, foi descoberto em dezembro de 2020 pelo paleontólogo William Nava, durante escavação no William’s Quarry 2, uma das frentes do Sítio Paleontológico José Martin Suárez, em Presidente Prudente (SP). No artigo publicado na Nature, a coleta é creditada a Nava e à colaboradora Giovanna M. X. Paixão, também do museu.
Nava trabalha no sítio desde setembro de 2004, quando abriu ali as primeiras escavações e revelou o depósito à paleontologia brasileira. Foi nesse mesmo local que ele encontrou os primeiros fósseis de aves de idade cretácea do Brasil, entre eles o Navaornis hestiae, espécie batizada em homenagem ao paleontólogo e descrita na Nature em 2024.
Retirados do campo, os blocos de rocha com o esqueleto foram levados ao laboratório do Museu de Paleontologia de Marília, onde o próprio Nava conduziu a preparação dos fósseis ao longo de três meses, até março de 2021. Foi nessa etapa que o esqueleto ficou exposto, incluindo o crânio, parte decisiva para as análises que vieram depois.
“Desde o início de 2021 eu já tinha esse esqueleto em mãos, e esse material só foi disponibilizado para estudos e análises por outros pesquisadores recentemente, quando foi feita microtomografia computadorizada na Escola Politécnica da USP”, afirma William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília, em mensagem enviada à Revista Amazônia.

O estudo internacional que descreveu a espécie, intitulado “Exceptional brain and ecological diversity in the earliest snakes”, foi publicado na revista Nature em julho de 2026, sob liderança de Tiago Simões (Universidade de Princeton), Nicolas Di-Poï (Universidade de Helsinque) e Annie Hsiou (USP). O espécime segue depositado no acervo do museu marilense.
Leia também: Quem achou a serpente de 80 milhões de anos descrita na Nature
Anatomia e modo de vida subterrâneo
A serpente era de pequeno porte, com cerca de 42 centímetros de comprimento corporal preservado e um crânio estimado em 3,3 cm. Seu crânio, altamente especializado, apresenta características primitivas e exclusivas, como ossos fortemente sobrepostos e particularidades nas regiões occipital e mandibular. A ausência de membros anteriores sugere que a redução dos membros já havia ocorrido nesse estágio evolutivo. A região cloacal não foi preservada, impossibilitando a avaliação dos membros posteriores.
O fóssil permitiu, ainda, a reconstrução indireta do formato do encéfalo e do ouvido interno, um feito inédito para uma serpente tão antiga. A paleontóloga do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada (Lapi) da USP, Annie Hsiou, destaca que o modo de vida fosseiro (escavador) da Tametara mirim é sustentado por diversas evidências anatômicas. “Seu modo de vida era fossorial, ou seja, escavador, o que é sustentado por diferentes evidências, como formato do cérebro, a estrutura do ouvido interno e a microestrutura dos ossos do crânio, combinada com análises estatísticas que comparam sua anatomia com serpentes atuais”, detalha Hsiou.
Um quadro mais complexo da evolução
Embora primitiva, a Tametara mirim compartilha características com serpentes modernas, como corpo alongado, ausência de membros anteriores e articulações vertebrais típicas. Ela também exibe adaptações fossoriais semelhantes às encontradas em serpentes escavadoras atuais, como algumas cobras-cegas e a falsa coral da Amazônia (Anilius scytale), um exemplo que reforça a ligação com a vasta biodiversidade da região.
No entanto, a Tametara mirim difere das espécies atuais em aspectos como ossos do crânio separados e uma crista sagital incomum. Seu cérebro apresenta uma combinação única de regiões, e o ouvido interno é altamente especializado para a escavação, com canais semicirculares simplificados e uma região vestibular ampliada. Sua anatomia sugere uma especialização para escavar ainda mais extrema que a de muitas serpentes fossoriais modernas.
O estudo demonstra que a Tametara mirim representa uma das primeiras serpentes na história evolutiva e revela que, já no Cretáceo, existia uma grande diversidade ecológica entre as serpentes primitivas. Enquanto a Tametara era adaptada à vida subterrânea, outras serpentes fósseis da mesma época, como a Dinilysia, tinham hábitos terrestres superficiais, e algumas até eram marinhas.
Novas perspectivas para a pesquisa
Segundo Tiago Simões, primeiro autor do trabalho e professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Princeton, Estados Unidos, essa descoberta revitaliza o debate sobre os fatores ecológicos que impulsionaram o surgimento das serpentes. “Nós revitalizamos o antigo debate sobre os fatores ecológicos que levaram ao surgimento das serpentes. Demonstramos que é possível prever ecologias ancestrais a partir da morfologia preservada em fósseis”, afirmou Simões. Ele acrescenta que “a condição ancestral de todas as serpentes não era de forte adaptação a um único habitat; tratava-se, na verdade, de uma condição de transicional, situada na interface entre ambientes fossoriais e de superfície”.
Segundo a pesquisa, essa diversidade ecológica e neuroanatômica já era notavelmente ampla no Cretáceo Superior, há cerca de 80 milhões de anos. Uma equipe de pesquisadores do Brasil e do exterior participou de todas as etapas do estudo, liderada por Tiago Simões, com a participação de Gabriela Sobral, da Universidade de Brasília (UnB) e Staatliches Museum ür Naturkunde, em Stuttgart, Alemanha, e Thiago Schneider Fachini, do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada (LAPI) da USP.
Perguntas Frequentes
Quem descobriu o fóssil da Tametara mirim?
O fóssil foi descoberto em dezembro de 2020 pelo paleontólogo William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), junto com a colaboradora Giovanna M. X. Paixão, no Sítio Paleontológico José Martin Suárez, em Presidente Prudente (SP). Nava também realizou a preparação do esqueleto no laboratório do museu, concluída em março de 2021. O espécime está tombado como MPM 420.
Onde foi encontrado o fóssil da Tametara mirim?
O fóssil foi descoberto no Sítio Paleontológico José Martin Suárez, na cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo, na Formação Adamantina, Grupo Bauru.
Qual a importância da Tametara mirim para a paleontologia?
Ela é o primeiro fóssil articulado de serpente encontrado no Brasil e um dos mais antigos e bem preservados do mundo, revelando uma diversidade ecológica de serpentes já no Cretáceo Superior.
Quais as principais características da Tametara mirim?
Era uma serpente de pequeno porte (cerca de 42 cm), com crânio especializado, crista sagital proeminente, ausência de membros anteriores e evidências anatômicas de um modo de vida subterrâneo (fossorial).
Os próximos passos da pesquisa incluem aprofundar a análise comparativa com outras espécies fósseis e modernas para refinar a compreensão dos caminhos evolutivos das serpentes.
Com informações de Jornal da USP.
Atualização, 30 de julho de 2026: esta matéria foi ampliada para creditar a autoria da descoberta e da preparação do fóssil, a pedido do paleontólogo William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), e passou a incluir foto do esqueleto em fevereiro de 2021, cedida por ele à Revista Amazônia.
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