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Quem achou a serpente de 80 milhões de anos descrita na Nature

Paleontólogo William Nava com o esqueleto fóssil da serpente Tametara mirim no Museu de Paleontologia de Marília
William Nava com os blocos do esqueleto da Tametara mirim, em fevereiro de 2021. Foto: William Nava / Museu de Paleontologia de Marília

Paleontólogo de Marília relata à Revista Amazônia como escavou, em dezembro de 2020, e preparou por três meses o esqueleto que agora reorganiza a árvore evolutiva das cobras.

O esqueleto de serpente que a revista Nature apresentou ao mundo nesta semana ficou cinco anos guardado no interior de São Paulo antes de ser estudado. Quem o encontrou foi o paleontólogo William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), em dezembro de 2020, durante escavação no Sítio Paleontológico José Martin Suárez, em Presidente Prudente. A espécie recebeu o nome de Tametara mirim e é o primeiro fóssil articulado de serpente encontrado no Brasil.

Dezembro de 2020, no meio da pandemia

A coleta aconteceu no William’s Quarry 2, uma das frentes de escavação do sítio, e é creditada no artigo científico a Nava e à colaboradora Giovanna M. X. Paixão, também do museu marilense.

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Nava escava o local desde setembro de 2004, quando abriu ali as primeiras prospecções e apresentou o depósito à paleontologia brasileira. Foi nesse mesmo sítio que ele encontrou os primeiros fósseis de aves de idade cretácea do Brasil.

Um deles rendeu, em 2024, outra publicação na Nature: o Navaornis hestiae, espécie batizada em homenagem ao próprio paleontólogo.

Três meses de preparação no laboratório

Os blocos de rocha com o fóssil saíram do campo fechados. Foram levados ao laboratório do Museu de Paleontologia de Marília, onde Nava conduziu a preparação até março de 2021, três meses de trabalho para separar o osso da matriz de arenito.

O resultado é o que aparece na foto que ele enviou à Revista Amazônia: o esqueleto exposto na rocha vermelha, com mais de 100 vértebras articuladas e o crânio preservado. O crânio é a peça que tornou o espécime relevante para a ciência, porque é nele que estão as informações sobre cérebro e ouvido interno.

Paleontólogo William Nava com os blocos de rocha contendo o esqueleto fóssil da serpente Tametara mirim, em fevereiro de 2021
William Nava em fevereiro de 2021, na fase final da preparação do fóssil, no Museu de Paleontologia de Marília (SP). Foto: William Nava / Museu de Paleontologia de Marília

“Desde o início de 2021 eu já tinha esse esqueleto em mãos, e esse material só foi disponibilizado para estudos e análises por outros pesquisadores recentemente, quando foi feita microtomografia computadorizada na Escola Politécnica da USP”, conta Nava.

De Marília para a Nature

A microtomografia feita na Escola Politécnica da USP permitiu reconstruir, sem quebrar o fóssil, o formato do encéfalo e do ouvido interno da serpente. Foi esse exame que abriu caminho para o artigo “Exceptional brain and ecological diversity in the earliest snakes”, publicado na Nature em julho de 2026.

O trabalho é liderado por Tiago Simões (Universidade de Princeton), Nicolas Di-Poï (Universidade de Helsinque) e Annie Hsiou (USP). O espécime continua tombado no acervo do Museu de Paleontologia de Marília, sob o número MPM 420.

O que a Tametara tem a ver com a Amazônia

A Tametara mirim viveu no Cretáceo Superior, entre 85 e 75 milhões de anos atrás, e tinha modo de vida fossorial, ou seja, escavava o solo. As adaptações encontradas no crânio e no ouvido interno se repetem hoje em serpentes escavadoras vivas, entre elas as cobras-cegas e a falsa coral da Amazônia (Anilius scytale).

É por isso que o fóssil paulista interessa a quem estuda a fauna amazônica: ele indica que o hábito de viver enterrado é bem mais antigo do que se supunha e já estava presente perto da raiz da árvore evolutiva das cobras.

Perguntas Frequentes

Quem descobriu o fóssil da Tametara mirim?
O fóssil da serpente Tametara mirim (tombo MPM 420) foi descoberto em dezembro de 2020 por William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), com a colaboradora Giovanna M. X. Paixão, em Presidente Prudente (SP).

Por que o estudo saiu só em 2026?
O esqueleto foi preparado no museu até março de 2021 e só depois cedido para análise pela equipe internacional, que fez microtomografia computadorizada na Escola Politécnica da USP antes de publicar o artigo na Nature, em julho de 2026.

Nava agora acompanha o desdobramento do estudo e segue escavando o mesmo sítio que abriu há quase 22 anos, onde outros fósseis do Cretáceo continuam à espera de descrição.

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