
Paleontólogo de Marília relata à Revista Amazônia como escavou, em dezembro de 2020, e preparou por três meses o esqueleto que agora reorganiza a árvore evolutiva das cobras.
O esqueleto de serpente que a revista Nature apresentou ao mundo nesta semana ficou cinco anos guardado no interior de São Paulo antes de ser estudado. Quem o encontrou foi o paleontólogo William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), em dezembro de 2020, durante escavação no Sítio Paleontológico José Martin Suárez, em Presidente Prudente. A espécie recebeu o nome de Tametara mirim e é o primeiro fóssil articulado de serpente encontrado no Brasil.
Dezembro de 2020, no meio da pandemia
A coleta aconteceu no William’s Quarry 2, uma das frentes de escavação do sítio, e é creditada no artigo científico a Nava e à colaboradora Giovanna M. X. Paixão, também do museu marilense.
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Antas engoliram sementes em uma área degradada da Amazônia e devolveram ao solo plantas que germinaram mais rápido do que as preparadas à mãoNava escava o local desde setembro de 2004, quando abriu ali as primeiras prospecções e apresentou o depósito à paleontologia brasileira. Foi nesse mesmo sítio que ele encontrou os primeiros fósseis de aves de idade cretácea do Brasil.
Um deles rendeu, em 2024, outra publicação na Nature: o Navaornis hestiae, espécie batizada em homenagem ao próprio paleontólogo.
Três meses de preparação no laboratório
Os blocos de rocha com o fóssil saíram do campo fechados. Foram levados ao laboratório do Museu de Paleontologia de Marília, onde Nava conduziu a preparação até março de 2021, três meses de trabalho para separar o osso da matriz de arenito.
O resultado é o que aparece na foto que ele enviou à Revista Amazônia: o esqueleto exposto na rocha vermelha, com mais de 100 vértebras articuladas e o crânio preservado. O crânio é a peça que tornou o espécime relevante para a ciência, porque é nele que estão as informações sobre cérebro e ouvido interno.

“Desde o início de 2021 eu já tinha esse esqueleto em mãos, e esse material só foi disponibilizado para estudos e análises por outros pesquisadores recentemente, quando foi feita microtomografia computadorizada na Escola Politécnica da USP”, conta Nava.
De Marília para a Nature
A microtomografia feita na Escola Politécnica da USP permitiu reconstruir, sem quebrar o fóssil, o formato do encéfalo e do ouvido interno da serpente. Foi esse exame que abriu caminho para o artigo “Exceptional brain and ecological diversity in the earliest snakes”, publicado na Nature em julho de 2026.
O trabalho é liderado por Tiago Simões (Universidade de Princeton), Nicolas Di-Poï (Universidade de Helsinque) e Annie Hsiou (USP). O espécime continua tombado no acervo do Museu de Paleontologia de Marília, sob o número MPM 420.
O que a Tametara tem a ver com a Amazônia
A Tametara mirim viveu no Cretáceo Superior, entre 85 e 75 milhões de anos atrás, e tinha modo de vida fossorial, ou seja, escavava o solo. As adaptações encontradas no crânio e no ouvido interno se repetem hoje em serpentes escavadoras vivas, entre elas as cobras-cegas e a falsa coral da Amazônia (Anilius scytale).
É por isso que o fóssil paulista interessa a quem estuda a fauna amazônica: ele indica que o hábito de viver enterrado é bem mais antigo do que se supunha e já estava presente perto da raiz da árvore evolutiva das cobras.
Perguntas Frequentes
Quem descobriu o fóssil da Tametara mirim?
O fóssil da serpente Tametara mirim (tombo MPM 420) foi descoberto em dezembro de 2020 por William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), com a colaboradora Giovanna M. X. Paixão, em Presidente Prudente (SP).
Por que o estudo saiu só em 2026?
O esqueleto foi preparado no museu até março de 2021 e só depois cedido para análise pela equipe internacional, que fez microtomografia computadorizada na Escola Politécnica da USP antes de publicar o artigo na Nature, em julho de 2026.
Nava agora acompanha o desdobramento do estudo e segue escavando o mesmo sítio que abriu há quase 22 anos, onde outros fósseis do Cretáceo continuam à espera de descrição.
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