×
Próxima ▸
Amazonia Unida: OTCA e RADA tecem futuro hídrico na maior…

Reservas da Biosfera Freiam Desmatamento na Amazônia Ocidental: Estudo

Reservas da Biosfera Freiam Desmatamento na Amazônia Ocidental: Estudo
Ilustração: IA

Nova pesquisa demonstra eficácia inquestionável das reservas ao evitar perda florestal de mais de 7,4 mil km² em duas décadas.

Um estudo pioneiro realizado pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambientais da Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB), na Espanha, revelou que as Reservas da Biosfera da Amazônia Ocidental têm sido fundamentais na contenção do desmatamento. A pesquisa, que abrangeu países como Bolívia, Equador e Peru, demonstrou que essas áreas protegidas evitaram a perda de mais de 7.400 quilômetros quadrados de floresta nas últimas duas décadas, quando comparadas a cenários hipotéticos sem essa figura de proteção.

Essa é a primeira avaliação sistemática da eficácia dessas reservas no contexto amazônico, trazendo dados concretos sobre o impacto positivo de modelos de gestão que buscam equilibrar conservação e desenvolvimento sustentável. A análise abrangeu aproximadamente 96.400 quilômetros quadrados, distribuídos em sete reservas da biosfera, e exigiu o uso de um supercomputador de alto desempenho devido à vasta quantidade de dados geoespaciais.

Zonas de Transição: Chave para a Preservação Eficaz

Os achados do estudo indicam que, apesar do aumento contínuo do desmatamento em toda a região amazônica, as Reservas da Biosfera demonstram uma eficácia superior na prevenção da perda florestal em comparação com outras regiões similares sem tal status. Um dos pontos mais notáveis é a performance das zonas de transição e de amortecimento.

Essas áreas, onde coexistem a conservação da biodiversidade com atividades produtivas, assentamentos rurais e territórios indígenas, foram, em geral, mais eficazes na prevenção do desmatamento do que as zonas centrais, que possuem uma proteção mais estrita. Álvaro Fernández-Llamazares, pesquisador do ICTA-UAB e um dos autores do estudo, explica: “Este resultado demonstra que a conservação não depende apenas de restringir os usos do território, mas também de modelos de governança participativos, capazes de integrar a conservação da natureza com seu uso sustentável e com o bem-estar das comunidades locais”.

O Papel da UNESCO e a Integração Comunitária

Reconhecidas pela UNESCO como “laboratórios vivos para o desenvolvimento sustentável”, as Reservas da Biosfera combinam áreas protegidas, territórios indígenas e outros espaços habitados sob um mesmo modelo de gestão. O principal objetivo é harmonizar a conservação da biodiversidade com a qualidade de vida das populações que residem nesses territórios. Atualmente, existem 797 Reservas da Biosfera em 145 países, abrigando mais de 300 milhões de pessoas, o que ressalta o potencial global desses modelos de gestão.

Segundo a UNESCO, os sítios do Programa Homem e Biosfera (MAB) são locais que conciliam a conservação da biodiversidade e de ecossistemas com o uso sustentável dos recursos naturais.

No Brasil, onde a Amazônia se estende por mais de 5,5 milhões de km², a implementação e o fortalecimento de Reservas da Biosfera, como a do Cerrado na região do bioma e a Reserva da Biosfera da Amazônia Central, têm sido cruciais para a mitigação de impactos ambientais e para a promoção do desenvolvimento local. Em 2023, o Brasil contava com sete Reservas da Biosfera reconhecidas internacionalmente pela UNESCO, incluindo a do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, o Pantanal e a Mata Atlântica, além das mencionadas na Amazônia. As experiências de sucesso em países andinos, como demonstrado pelo estudo, podem servir de inspiração para aprimorar as estratégias de conservação e uso sustentável na porção brasileira da floresta.

Estudos de Caso e Lições da Bolívia, Equador e Peru

A pesquisa analisou as reservas da biosfera de Podocarpus-El Cóndor, Yasuní e Sumaco (Equador), Manu e Oxapampa-Asháninka-Yánesha (BIOAY) (Peru), e Beni e Pilón Lajas (Bolívia). Entre elas, a Reserva da Biosfera Yasuní, no Equador, destacou-se por ter evitado a perda estimada de até 4.745 quilômetros quadrados de floresta. Isso representa o maior impacto de desmatamento evitado entre todas as reservas analisadas, em comparação com um cenário sem proteção semelhante.

Amaia Gonzaga-Roa, pesquisadora da Universidade de Helsinki e também autora do estudo, enfatiza que “os estudos geoespaciais em uma escala tão grande nos permitem tomar medidas de referência, mas é importantíssimo contextualizar esta informação com estudos situados no terreno. É preciso conhecer e levar em conta o ponto de vista das populações locais para entender o tipo e o grau de ameaças, e os desafios de gestão aos quais se enfrentam”.

GEO: A Importância dos Direitos Indígenas na Conservação

Os resultados do estudo na Amazônia Ocidental reforçam a premissa de que as pessoas devem estar no centro das políticas de conservação. Em 2021, a Avaliação Ambiental Estratégica para o Corredor Econômico Transcontinental Andino-Amazônico destacou os riscos e oportunidades para a biodiversidade da região e alertou para a necessidade de envolvimento das comunidades locais. Os autores do estudo do ICTA-UAB sublinham que apoiar os direitos territoriais dos povos indígenas e promover modelos de governança participativos pode contribuir significativamente para proteger os bosques amazônicos, ao mesmo tempo que se avança em direção a estratégias de conservação mais justas, inclusivas e eficazes. O Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado anualmente em 9 de agosto, é um lembrete da importância de reconhecer e valorizar esses povos como guardiões da floresta.

O estudo oferece novas evidências sobre o papel crucial que as reservas da biosfera podem desempenhar nas políticas internacionais de conservação. Ele reivindica um maior reconhecimento dessas figuras como modelos eficazes para proteger a biodiversidade sem dissociá-la das necessidades e aspirações das comunidades que habitam esses territórios. A experiência dessas reservas demonstra que é possível conciliar a conservação com o uso sustentável do território, oferecendo lições valiosas para atingir os objetivos do Marco Mundial de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que busca deter e reverter a perda de biodiversidade em escala global. As próximas etapas de implementação e monitoramento desses objetivos serão cruciais para a Amazônia.

Perguntas Frequentes

O que são Reservas da Biosfera?

Reservas da Biosfera são áreas reconhecidas pela UNESCO que buscam promover a conservação da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável, integrando áreas protegidas com comunidades locais e atividades produtivas.

Qual a principal descoberta do estudo?

A pesquisa constatou que as Reservas da Biosfera na Amazônia Ocidental evitaram o desmatamento de mais de 7.400 km² de floresta nas últimas duas décadas, sendo as zonas de transição particularmente eficazes.

Por que as zonas de transição são tão importantes?

As zonas de transição permitem a convivência entre a conservação e as atividades humanas, demonstrando que a governança participativa e a integração das comunidades locais são mais eficazes do que a restrição total de uso do território para a conservação.

Com informações de ICTA-UAB.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA