Canto do bicudo vale caro no mercado ilegal e empurrou a ave para a ameaça de extinção

Bicudo aprende o canto com o pai durante a juventude e desenvolve dialetos regionais que ajudam a identificar sua origem
Ilustração: Revista Amazônia

Macho de plumagem preta e bico branco canta para defender território e atrair fêmeas, e é alvo de capturas ilegais

O bicudo (Sporophila maximiliani) é uma das aves mais ameaçadas da América do Sul e a mais apreendida do Brasil entre as espécies em risco de extinção. O motivo é o canto do macho, um gorjeio suave que serve para defender território e atrair fêmeas e que o tornou um dos passarinhos mais cobiçados do país. Segundo Luis Silveira, curador de estudos ornitológicos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), a raridade da ave aumenta o prestígio de quem a mantém.

A ave tem plumagem preta no macho, com forro das asas branco e bico branco-giz, e marrom-avermelhada na fêmea. O bico grosso dá nome à espécie. A pressão da captura, somada à perda de hábitat, reduziu as populações a números pequenos, e a espécie hoje é objeto de um dos principais programas de reintrodução de aves do Brasil.

O que a ave come e onde vive

O bicudo se alimenta principalmente de sementes de capins e de ciperáceas, como o Paspalum virgatum, e por isso ajuda a dispersar sementes. Em geral é visto em casais. Existem duas populações: a do sul, no Cerrado e em áreas de transição com a Mata Atlântica, e a do norte, na floresta amazônica. A espécie prefere áreas úmidas e alagadas, como as veredas do Cerrado.

Na região central e sul do Brasil, a reprodução ocorre de novembro ou dezembro até fevereiro ou março, com as primeiras chuvas da primavera como gatilho. Nesse período as aves ficam territoriais e agressivas. Os ninhos têm forma de taça, ficam de 1 a 3 metros de altura, e a fêmea choca 2 ou 3 ovos de cor branco-acinzentada, com manchas pretas e marrom-claras (Medolago e colaboradores, 2016, Wilson Journal of Ornithology).

Um canto valorizado e uma espécie ameaçada

Criadores mantêm o bicudo em gaiolas desde pelo menos o século 19 por causa do canto e de torneios de passarinhos, segundo Silveira. Existe criação legal da espécie, e a maioria dos criadores atua dentro da lei, mas a demanda alimenta um mercado ilegal de aves capturadas na natureza. Gustavo Malacco, biólogo do Projeto Bicudo, afirma que a maior parte dos criadores mantém e vende as aves legalmente e não é inimiga da conservação, e que parte dos que desrespeitam a lei sustenta o tráfico.

Nadia Moraes, coordenadora científica da organização Freeland, informa que o bicudo é a ave ameaçada mais apreendida no Brasil e a segunda em número de indivíduos confiscados. Os machos desapareceram de muitas áreas, e há populações compostas apenas por fêmeas. Segundo estudo de 2020 que usou dados do Ibama, havia mais de 181 mil aves da espécie em cativeiro, mantidas por mais de 49 mil criadores registrados, a maioria no Sudeste, principalmente em São Paulo.

Quantas aves restam

Ubaid e colaboradores (2018), em artigo na revista Zootaxa (4442: 551 a 571), revisaram a taxonomia, a história natural e a conservação da espécie e redefiniram sua distribuição geográfica. Encontraram a forma nominal em apenas dois locais, ambos veredas, o que confirma sua situação crítica ao menos no Brasil. A análise de Ubaid sugere uma redução de cerca de 90% da população.

A avaliação da BirdLife International para a IUCN, de 2019, classifica o bicudo como Em Perigo e estima a população entre 1.000 e 2.499 indivíduos. No Brasil, a espécie é considerada Criticamente em Perigo. Silveira disse que, há alguns anos, provavelmente restavam no país não mais que cerca de 100 aves selvagens.

Soltura de aves criadas em cativeiro

O Projeto Bicudo, criado no fim da década de 2000 pelo ornitólogo Flavio Ubaid, por Luis Silveira e por Gustavo Malacco, criou aves em cativeiro com parceria de criadores e as soltou na RPPN Porto Cajueiro, na região do Grande Sertão Veredas, na divisa entre Minas Gerais e Bahia. O local foi escolhido por estar dentro da área histórica da espécie, ter hábitat adequado e não ter pressão de caça.

As solturas começaram em 2018, e mais de 300 aves foram liberadas, segundo balanço divulgado em 2024. Antes da soltura, os animais passam um tempo em recinto para se habituar a sons e imagens do local. A maioria se adaptou, reproduziu-se e fez ninhos. Segundo os responsáveis, nenhum filhote nascido de ave solta chegou à maturidade até o momento, principalmente porque roedores e gambás predam os ninhos. Malacco espera que a população da reserva se mantenha sozinha até 2030.

Em 2021, um workshop organizado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), do ICMBio, com parceiros, produziu diretrizes de translocação para a conservação da espécie. Como o cruzamento com outras espécies é comum entre criadores, os projetos precisam descartar híbridos antes das solturas.

O canto do bicudo, portanto, tem dois lados: é uma ferramenta de comunicação da ave em liberdade e, ao mesmo tempo, o atrativo que a colocou na mira do tráfico. A recuperação da espécie depende de proteger as veredas, fiscalizar a captura e manter programas de criação com controle genético.

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