
Tecnologia baseada em redes metal-orgânicas libera minerais de forma controlada e ainda depende de novos testes de campo.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e das startups Quanticom e MOF Tech desenvolveram um fertilizante inteligente que pode contribuir para a recuperação de solos degradados no Brasil. O projeto, realizado em São Paulo com financiamento durante 45 meses, utiliza redes metal-orgânicas para transportar e liberar componentes minerais de maneira controlada, mantendo a adubação convencional e buscando melhorar o desenvolvimento das plantas e a saúde do solo.
Material funciona como uma esponja
O novo produto é baseado nas chamadas Redes Metal-Orgânicas, conhecidas pela sigla MOF, do inglês Metal-Organic Frameworks. Esses materiais têm estrutura porosa, com muitos espaços vazios, característica que permite carregar substâncias selecionadas de acordo com a necessidade do solo ou da cultura agrícola.
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“Ele pode funcionar como um regenerador de solo e, portanto, poderia ser aplicado em solos degradados para melhorar a possibilidade de agricultura”, afirma Liane Rossi, professora do Instituto de Química da USP e uma das responsáveis pelo desenvolvimento.
A pesquisadora explica, porém, que a tecnologia não foi criada para substituir os fertilizantes tradicionais. Nos estudos realizados até agora, o material foi utilizado em menor quantidade, como condicionador, junto com a prática usual de fertilização.
“Nos nossos estudos, foi mantida a prática usual de fertilização do solo e ele foi adicionado, numa quantidade menor, como um condicionador, para que esses fertilizantes operem ou sejam melhor aproveitados, quando combinados com esse novo material.”
Pesquisa busca recuperar áreas degradadas
A degradação dos solos é um dos desafios ambientais e produtivos do país. Segundo o MapBiomas, no Brasil, entre 1986 e 2021, cerca de 25% da vegetação, equivalente a aproximadamente 135 milhões de hectares, pode estar em processo de degradação. A atividade agropecuária aparece entre os principais fatores associados a esse quadro.
Segundo o MapBiomas, no Brasil, entre 1986 e 2021, aproximadamente 135 milhões de hectares de vegetação podem ter entrado em processo de degradação. O dado ajuda a dimensionar a importância de soluções capazes de recuperar a fertilidade, reduzir perdas e ampliar a eficiência do uso de insumos.
A questão também tem impacto direto sobre a Amazônia. Nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a recuperação de áreas alteradas é estratégica para reduzir a pressão por novas conversões, restaurar funções ecológicas e viabilizar sistemas produtivos mais sustentáveis. A pesquisa da USP ainda não representa uma validação específica para todos esses ambientes, que apresentam solos, clima e condições de manejo diferentes.
Entenda o caso
O fertilizante inteligente ainda está em desenvolvimento e não deve ser tratado como produto agrícola disponível em larga escala. A tecnologia foi testada em conjunto com fertilizantes convencionais e apresentou resultados relacionados ao desenvolvimento das plantas e à saúde do solo.
Antes de uma eventual aplicação comercial, são necessários novos estudos de campo, em áreas maiores e com diferentes condições de cultivo. Também será preciso ampliar a produção do material e avaliar sua segurança, eficiência, custo e desempenho em diferentes tipos de solo.
Parceria reuniu universidades e startups
O projeto começou a partir de reuniões entre especialistas da USP e da Unesp, que passaram a estudar o potencial agrícola das redes metal-orgânicas. O financiamento de 45 meses permitiu montar uma equipe em São Paulo dedicada à seleção dos materiais e ao aumento da escala de síntese.
A MOF Tech, startup desenvolvida no ambiente da USP, atuou na ampliação da produção do material. A Quanticom participou dos estudos de campo. A colaboração entre universidades e empresas foi considerada importante para aproximar a pesquisa básica das etapas de desenvolvimento tecnológico e possível aplicação.
As redes metal-orgânicas ganharam projeção internacional por suas propriedades de organização molecular e por aplicações potenciais em áreas como armazenamento, separação de substâncias e catálise. No projeto agrícola, a estrutura porosa é aproveitada para transportar elementos que podem ser liberados gradualmente no solo.
Novos investimentos são necessários
De acordo com Liane Rossi, a etapa atual exige mais experimentos e em maior escala. Isso inclui ampliar os testes no campo, produzir mais material e avaliar o desempenho em diferentes condições agrícolas. A continuidade também pode demandar novos investimentos na MOF Tech.
“A fase atual demandaria mais estudos e em maior escala em campo. Isto implica maior escala de síntese do material e, então, um possível investimento na MOF Tech”, explica a professora.
Os resultados obtidos até o momento indicam potencial para melhorar o desenvolvimento das plantas e as condições do solo, mas não definem, por si só, a disponibilidade agronômica da tecnologia. As próximas etapas deverão estabelecer as doses, os cultivos e os ambientes em que o material poderá ser utilizado com segurança e eficiência.
Perguntas frequentes
O que é o fertilizante inteligente?
É um material desenvolvido com redes metal-orgânicas, estruturas porosas capazes de carregar e liberar componentes minerais de forma controlada no solo.
Ele substitui os fertilizantes tradicionais?
Não. Nos estudos da equipe, o material foi usado em menor quantidade como condicionador, em combinação com a fertilização convencional.
O produto já está disponível para agricultores?
Não. A pesquisa ainda precisa de novos testes de campo, aumento da produção e investimentos antes de uma possível aplicação agronômica em maior escala.
Os pesquisadores agora buscam financiamento e parceiros para ampliar os experimentos, validar o desempenho em diferentes solos e definir os próximos passos para a eventual transferência da tecnologia ao setor agrícola.
Com informações da Universidade de São Paulo.
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