Estatueta de 5,4 cm esculpida em madeira por ancestrais dos Inuit por volta de 1350 mostra um europeu com cruz no peito, um século antes de Colombo

Estatueta de 5,4 cm esculpida em madeira por ancestrais dos Inuit por volta de 1350 mostra um europeu com cruz no peito, um século antes de Colombo
Foto: Canadian Museum of History, IMG2009-0063-0154-Dm)

Achada em 1977 na Ilha de Baffin, a peça é a mais antiga representação indígena de um europeu nas Américas e revela como os nórdicos foram vistos por quem os encontrou.

Cabe na palma da mão, tem pouco mais de 5 centímetros e guarda um dos retratos mais antigos de um encontro entre mundos. A estatueta de madeira de deriva, datada de cerca de 1350, foi entalhada pelos ancestrais dos Inuit na Ilha de Baffin, no território canadense de Nunavut. Segundo o Museu Canadense de História, ela é a mais antiga representação indígena de um europeu em todo o Hemisfério Ocidental e provavelmente retrata um nórdico.

Uma figura pequena numa casa antiga

A peça foi encontrada em 1977, no interior de uma casa construída pelos antepassados dos Inuit, no norte do Canadá. Mede 2,1 polegadas, ou 5,4 centímetros de altura, e hoje integra a exposição do Museu Canadense de História.

O rosto não tem traços e os braços são curtos e atarracados, características comuns nos entalhes inuit do século XIV. O que a torna única é o tema: uma pessoa que não é inuit.

A figura veste uma longa túnica ou manto, com uma cruz no peito. Segundo o museu, a roupa lembra a usada entre os séculos XI e XIII por cristãos nórdicos da Groenlândia.

O que os nórdicos faziam por ali

As sagas nórdicas citam um lugar chamado Helluland, visitado por Leif Eriksson no início do século XI e identificado, com maior probabilidade, como a Ilha de Baffin.

Por volta do ano 1000, exploradores nórdicos desembarcaram no que hoje é a Terra Nova e montaram acampamento em L’Anse aux Meadows. Construções de madeira e restos da produção de ferro são o que sobrou do mais antigo assentamento europeu nas Américas.

Segundo as informações disponíveis, os nórdicos provavelmente fizeram várias viagens da Groenlândia ao Canadá ao longo dos séculos. Trocavam metal e tecido com os ancestrais dos Inuit, conhecidos como Thule, e recebiam marfim de morsa. Artefatos de origem europeia já apareceram em casas inuit antigas da Ilha de Baffin, o que sustenta essa rede de trocas.

O fim das rotas para o oeste

Os nórdicos acabaram abandonando essas rotas ocidentais. Entre as possíveis razões estão a resistência dos povos indígenas e a grande distância, o que é tratado como hipótese, não como fato comprovado.

A estatueta, portanto, foi feita já num período em que o contato regular tendia a diminuir, mas muito antes da aproximação duradoura que só ocorreria no fim do século XV.

O olhar de quem foi visitado

A história das Américas costuma ser contada a partir de diários, mapas e crônicas europeias. A figura de Baffin inverte a perspectiva. Segundo o museu, ela pode comemorar um encontro entre Inuit e nórdicos e é a mais antiga evidência do ponto de vista indígena sobre visitantes vindos do leste.

Ao escolher a cruz e a túnica longa, o artesão mostrou quais características do estrangeiro julgou importantes. Entre milhares de detalhes possíveis, foi a roupa e o símbolo religioso que ele quis guardar na madeira.

Ecos para a Amazônia

A Amazônia também tem sua história de primeiros contatos registrada, em grande parte, por cronistas europeus, a partir do século XVI. Objetos, cerâmicas e grafismos de povos originários da região são, como a peça de Baffin, indícios do que esses povos observaram e decidiram representar. Não há relação entre os dois casos, mas a lição metodológica é parecida: a cultura material pode revelar vozes que os textos deixaram de fora.

A estatueta segue em exibição no Museu Canadense de História, e a leitura de que ela retrata um nórdico permanece uma interpretação provável, aberta a novas pesquisas sobre os contatos entre a Groenlândia e o Ártico canadense.

Com informações de Canadian Museum of History.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA