Gralhas selvagens na Cornualha esperam na fila para comer ao lado de parceiros e parentes, e o custo de ficar juntas pode render ganhos a longo prazo

Gralhas selvagens na Cornualha esperam na fila para comer ao lado de parceiros e parentes, e o custo de ficar juntas pode render ganhos a longo prazo
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo com aves marcadas por RFID no Reino Unido mostra como laços sociais mudam quem come, quem espera e quem aprende onde há comida.

Em dois pontos de uma região rural da Cornualha, no sul da Inglaterra, comedouros com dois poleiros e um leitor eletrônico de chips mostraram algo que parece mais humano do que se espera de um pássaro: gralhas aceitaram ficar na fila, sem comer, para permanecer junto de parceiros e parentes. O estudo, publicado em 2026 na revista Proceedings of the Royal Society B por pesquisadores das universidades de Exeter e Swansea, sugere que as relações sociais da espécie Corvus monedula influenciam quem tem acesso à comida e à informação sobre onde encontrá-la.

A pesquisa foi liderada por Luca G. Hahn, com coautoria de Guillam E. McIvor, Ines Fürtbauer, Andrew J. King e Alex Thornton.

Um comedouro em que só uma ave come por vez

Os cientistas trabalharam com aves selvagens de duas colônias que nidificam em caixas-ninho: uma em um cemitério de igreja e campos ao redor, na vila de Stithians, e outra em uma fazenda a cerca de 1 km de distância. Os dados foram coletados em 2023 e 2024.

Cada ave usa anilhas coloridas para identificação individual, e uma delas traz um chip RFID exclusivo. Com isso, o sistema registra automaticamente quem pousa em cada poleiro.

Os comedouros foram montados com dois poleiros próximos. Só o primeiro dá acesso ao alimento. A segunda ave pode esperar atrás. Os autores chamam essas situações de eventos diádicos, ou seja, encontros entre duas aves no equipamento.

As relações entre as aves, como casais e parentesco, foram definidas por monitoramento de longo prazo, com observações, ocupação de caixas-ninho, tentativas de reprodução e registros dos próprios comedouros.

Quem aparece junto, chega junto

Segundo o artigo, os parceiros com vínculo forte, formados por casais e parentes, participaram dos eventos diádicos com mais frequência do que outros pares. Eles também coordenaram as visitas: o intervalo entre a chegada de um e a do outro foi menor.

Os pesquisadores compararam esses laços com relações mais passageiras, como vizinhos de ninho, aves que se alimentam juntas ocasionalmente, moradores do mesmo local e moradores de locais diferentes.

Tolerância e possível apoio

Os autores também observaram maior tolerância social entre parceiros vinculados, isto é, proximidade sem comportamento agressivo. Havia ainda indício de possível apoio social: a ave que comia tinha menor probabilidade de ser expulsa do poleiro quando um parceiro estava presente.

O texto usa o termo “possivelmente” para esse efeito, e ele deve ser lido como indício, não como prova definitiva de que o parceiro age para defender o outro.

O custo de esperar

Outro achado é que as aves na fila aceitaram perder tempo para permanecer com seus parceiros. Em vez de buscar outro lugar para comer, ficaram atrás de quem já alimentava.

Os autores lembram que comportamento semelhante já foi descrito em chapins-reais (Parus major), que reduzem o próprio ganho alimentar para ficar perto do parceiro. Nas gralhas, que têm casais que podem durar a vida toda e são reportadas como geneticamente monogâmicas, o destino reprodutivo dos dois depende muito um do outro. A hipótese é que valha a pena abrir mão de uma refeição imediata para garantir que o parceiro tenha recursos para criar os filhotes. Segundo os pesquisadores, isso ainda não havia sido examinado de forma direta nessas espécies.

Filhotes que seguem os pais

Para os jovens, o estudo indica que seguir os pais provavelmente facilitou o acesso à informação social sobre o uso dos comedouros. A previsão testada era que filhotes que fizessem a primeira visita acompanhados dos pais voltariam mais cedo e mais vezes. Os autores descrevem o efeito como provável, não como certeza.

As gralhas são generalistas e frequentemente se alimentam em grupo, em fontes de comida que podem ser monopolizadas. O uso de informação social, segundo o artigo, facilita esse comportamento.

O que isso diz sobre a vida em grupo

O estudo parte de uma pergunta antiga da biologia: como relações sociais fortes se convertem em vantagens reais? Pesquisas anteriores com ungulados, primatas e cetáceos associam vínculos mais fortes a mais saúde, maior sucesso reprodutivo e vida mais longa, mas por correlação, sem esclarecer o mecanismo.

A hipótese dos autores é que efeitos de curto prazo na busca por alimento possam contribuir para vantagens de longo prazo. É uma proposta que o trabalho apoia com observações, mas que não mede diretamente a sobrevivência ou a reprodução.

O que isso significa para a Amazônia

O trabalho foi feito no Reino Unido e não envolve espécies amazônicas. Mesmo assim, o método dialoga com a região. A Amazônia abriga aves e mamíferos sociais, como bandos mistos, primatas e outros animais cuja alimentação depende de convivência e tolerância. Os dispositivos de identificação automática usados na Cornualha ilustram uma abordagem que pode ser aplicada para estudar comportamento em campo, sem interferir a cada observação.

Os próprios autores apontam que o tema ainda tem lacunas, como testar a ideia em outras espécies de vida social. Novos estudos poderão mostrar se o padrão observado nas gralhas se repete em outros grupos animais.

Com informações de Universidade de Exeter e Universidade de Swansea, em estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B.

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