Pesquisadores da Universidade de Sydney sugerem que animais necrófagos tratam uma carcaça como um bufê, e não como prato único

Pesquisadores da Universidade de Sydney sugerem que animais necrófagos tratam uma carcaça como um bufê, e não como prato único
Foto: acervo

Nova pesquisa australiana questiona a imagem do bicho que come tudo o que encontra e vai embora.

Pense em um ovo: a clara é rica em proteína, a gema concentra mais gordura. Agora imagine que uma carcaça funciona de modo parecido, com partes diferentes oferecendo nutrientes diferentes. É a partir dessa comparação que dois pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, propõem uma revisão da imagem clássica dos animais necrófagos, aqueles que se alimentam de bichos mortos.

Niraj Meisuria, doutorando dos laboratórios de Ecologia de Doenças e de Ecologia Global, e Thomas Newsome, professor associado de Ecologia Global, apresentaram o trabalho em artigo publicado no The Conversation em 14 de outubro de 2026. Segundo os autores, a nova pesquisa questiona a ideia de que esses animais seriam apenas catadores sem exigências.

A imagem do bicho que come tudo e some

Quando se fala em necrófagos, muita gente imagina um animal que fareja ou tropeça numa carcaça, come o máximo que consegue e se afasta. Os pesquisadores lembram que, segundo essa visão, esses bichos costumam ser tratados como aproveitadores pouco exigentes, que comem o que estiver disponível.

A proposta de Meisuria e Newsome é olhar para dentro da refeição. Uma carcaça não é um bloco uniforme de comida. Ela reúne, no mesmo corpo, carboidratos, lipídios (as gorduras) e proteínas, os três grandes grupos de macronutrientes que sustentam qualquer dieta.

Por que a comparação com o ovo ajuda

Os autores usam o ovo como exemplo caseiro. A clara é muito proteica, enquanto a gema tem mais gordura. Cada parte entrega algo diferente ao organismo de quem come.

Se a carcaça se parece com isso, a pergunta muda. Em vez de apenas saber quanto um animal come, passa a importar o que ele escolhe comer e em que ordem. É daí que vem a imagem do bufê: diante de várias opções, o convidado não precisa provar tudo da mesma forma.

O que isso muda para a ciência

A discussão pode parecer detalhe de laboratório, mas tem alcance prático. Necrófagos fazem parte da limpeza natural dos ecossistemas, ao remover animais mortos da paisagem. Entender como eles usam o alimento ajuda a compreender melhor seu papel no ambiente.

O estudo completo foi publicado em periódico científico e está disponível para consulta no artigo da pesquisa. O texto de divulgação assinado pelos autores pode ser lido na versão completa do The Conversation.

E o que isso tem a ver com a Amazônia

O trabalho trata de animais australianos, e não há dados dele sobre espécies da floresta amazônica. Ainda assim, a pergunta que ele levanta vale para qualquer lugar onde exista um animal morto e alguém disposto a aproveitá-lo.

Na Amazônia, quem faz esse papel de forma mais visível são aves como os urubus, que costumam ser vistos sobrevoando margens de rios, estradas e áreas de pasto. Em geral, são lembrados apenas como sinal de que há algo morto por perto. A abordagem dos pesquisadores de Sydney convida a enxergar nessas aves, e em outros necrófagos da região, consumidores com possíveis preferências, e não máquinas de comer qualquer coisa.

Isso não significa que o mesmo padrão exista aqui. Essa é uma pergunta em aberto, e responder a ela exigiria observação própria em campo, com espécies e ambientes da floresta.

Uma ideia que ainda precisa ser testada

O que o texto dos autores deixa claro é o ponto de partida: carcaças contêm nutrientes distintos no mesmo corpo, e tratar quem as consome como simples comedor indiscriminado pode ser uma simplificação.

Para o leitor, o recado é direto. O animal que parece apenas aproveitar sobras pode estar fazendo escolhas dentro daquilo que encontra. Se isso se confirma em outras espécies e regiões, é algo que novos estudos ainda terão de mostrar, e o artigo científico publicado é o primeiro passo para que outros grupos de pesquisa testem a ideia em diferentes ecossistemas.

Com informações de The Conversation e Universidade de Sydney.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA