
Na floresta estadual de Maricao, no oeste de Porto Rico, biólogos que monitoravam papagaios perceberam algo fora do normal: vários pássaros gritavam ao mesmo tempo e olhavam para o mesmo ponto. O biólogo Raúl Correa, do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS), seguiu o alarme do bando e encontrou, no alto de uma touceira de bambu, uma jiboia enrolada em um filhote.
A ave era um papagaio-de-porto-rico (Amazona vittata), uma das aves mais ameaçadas das Américas. Para salvá-la, Correa cortou a haste de bambu onde estavam a cobra e o filhote. Com a queda, a serpente afrouxou o abraço e soltou a presa.
Um dia no hospital e de volta à floresta
O filhote tinha deixado um ninho silvestre cerca de um mês antes do ataque. Depois do resgate, passou um dia no hospital das instalações do programa de conservação da espécie, onde a equipe avaliou o estado de saúde. No dia seguinte, foi devolvido à floresta. Mais tarde, os biólogos o viram voando pela região ao lado dos pais, segundo o USFWS, que divulgou o caso.
O episódio mostra como os papagaios vigiam uns aos outros. Gritos de alarme coletivos são uma defesa comum entre aves sociais: chamam a atenção do grupo para o predador e, às vezes, o fazem desistir. Desta vez, chamaram também um humano.
A cobra que atravessou o continente
A serpente foi identificada como jiboia-de-cauda-vermelha (Boa constrictor constrictor). Para quem vive no Brasil, é um animal conhecido: a jiboia é nativa da América do Sul, aparece em matas, roças e até quintais, não tem veneno e mata as presas por constrição.
Em Porto Rico, porém, ela não pertence ao ambiente. Foi introduzida pelo ser humano e se estabeleceu na ilha, onde a fauna nativa não evoluiu ao lado de um predador desse porte. Por isso é tratada como espécie invasora. Depois do resgate, a equipe capturou a jiboia e a sacrificou. O corpo foi enviado a um laboratório, onde a análise do conteúdo do estômago vai ajudar a entender quais animais nativos ela vinha consumindo e qual o impacto sobre a fauna local.
Um papagaio que quase sumiu
O papagaio-de-porto-rico só existe naturalmente na ilha. Mede cerca de 30 centímetros, tem plumagem predominantemente verde, testa vermelha e penas azuis nas asas. Come principalmente frutos silvestres, além de flores e brotos.
A espécie chegou perto da extinção no século 20. Em meados dos anos 1970, restavam apenas 13 aves na natureza. Desde então, programas de reprodução em cativeiro e solturas em áreas protegidas, como Maricao, reconstruíram populações selvagens, mas a ave continua criticamente dependente de manejo.
Destruição do habitat, doenças e espécies invasoras, como a própria jiboia, estão entre as principais ameaças. Para uma população pequena, cada filhote que chega à idade adulta conta.
Parentes dos papagaios brasileiros
O papagaio-de-porto-rico pertence ao gênero Amazona, o mesmo de aves bem conhecidas no Brasil, como o papagaio-verdadeiro, o papagaio-do-mangue e o papagaio-de-cara-roxa. São aves de vida longa, que formam casais estáveis e dependem de ocos de árvores para fazer ninho, o que torna os filhotes vulneráveis a cobras, gaviões e mamíferos que sobem em árvores.
Invasoras: o problema de bicho no lugar errado
O caso inverte a perspectiva comum no Brasil, onde se fala de espécies estrangeiras invadindo ambientes nativos, como o javali, o peixe-leão e o coral-sol. Em Porto Rico, a invasora é uma cobra sul-americana. A lição é a mesma: um animal inofensivo para o equilíbrio de seu próprio ambiente pode virar um problema sério quando é levado para outro, onde as presas não sabem se defender dele.
Perguntas frequentes
A jiboia é venenosa?
Não. A jiboia não tem veneno. Ela mata as presas por constrição, apertando o corpo até que parem de respirar.
Por que a jiboia é invasora em Porto Rico?
Porque é nativa da América do Sul e foi levada para a ilha pelo ser humano. Lá, ameaça animais nativos que não evoluíram com esse predador.
O filhote de papagaio sobreviveu?
Sim. Passou um dia em observação, voltou à floresta no dia seguinte e foi visto voando com os pais.
Com informações do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS).
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