Marreco-de-crista forma casais territoriais nos Andes e na Patagônia e faz o ninho no chão

Marreco de crista utiliza exibições aquáticas sincronizadas e ergue estrutura ornamental amarela para atrair fêmeas na vegetação
Ilustração: Revista Amazônia

O marreco-de-crista vive nos Andes e na Patagônia, forma casais territoriais e faz o ninho no chão, forrado com penugem.

O marreco-de-crista (Lophonetta specularioides) é um pato de porte médio, endêmico da América do Sul. A espécie é dividida em duas subespécies: L. s. alticola, o marreco-de-crista andino, que vive a cerca de 2.500 a 4.800 metros de altitude, do Peru ao centro do Chile, e L. s. specularioides, o marreco-de-crista patagônico, que ocupa os Andes meridionais, a Patagônia e as ilhas Malvinas abaixo dos 1.500 metros. Nas descrições da espécie compiladas no Manual of Neotropical Birds, de Emmet Reid Blake (1977), o animal mede de 50 a 60 centímetros de comprimento e pesa cerca de 1 quilo, com os machos um pouco maiores.

O que as descrições ornitológicas mostram é um pato cinza e marrom, de olhos vermelhos, comportamento marcadamente territorial e ninho no chão.

Como é a ave

O corpo é manchado de marrom e cinza, com garganta, pescoço e face cinzentos, cauda escura e comprida, topo da cabeça e entorno dos olhos marrom-escuros ou quase pretos. Os olhos são vermelhos, o bico é preto e as patas são cinza-escuras. Os adultos têm uma crista curta na nuca. Os jovens têm a crista menor ou nenhuma. Nas asas, as penas secundárias têm um brilho acobreado ou esverdeado, o chamado espelho, que dá nome científico à espécie.

Onde vive e do que se alimenta

A espécie habita lagos, banhados e áreas de capim, desde baías costeiras rasas até lagos de grande altitude. No Altiplano, reúne-se em lagos turvos e alcalinos ricos em zooplâncton, e no litoral usa baías e praias abrigadas. A ave se alimenta de invertebrados, como insetos e suas larvas, crustáceos e moluscos, além de pequenas quantidades de algas filamentosas, e a dieta muda conforme o ambiente seja de água doce ou salgada e com a estação do ano.

Casais territoriais e agressivos

Segundo o verbete do marreco-de-crista na enciclopédia Neotropical Birds, do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, a espécie não é voltada à vida em bando: forma grupos só onde o alimento é muito abundante. Fora disso, os casais afastam das áreas de alimentação outros indivíduos da própria espécie e de outras. Na época de reprodução, a agressividade é alta, e o casal persegue o intruso mais próximo. Em lagos do planalto patagônico, casais com ninho foram vistos expulsando grandes aves aquáticas, como o pato-vapor-voador (Tachyeres patachonicus) e um ganso do gênero Chloephaga.

O vínculo do casal é aparentemente duradouro, e não restrito à estação, segundo a mesma fonte. O macho tem papel importante depois que os filhotes nascem, e a cooperação entre os adultos, somada à vigilância e à agressividade, permite que a espécie nidifique perto de gaivotas e de skuas, especialmente em ambientes abertos, sem cobertura densa.

Exibição do macho e vozes

Na enciclopédia Neotropical Birds, a exibição do macho aparece em interações com a fêmea. Os machos costumam nadar de costas durante a exibição, mantendo o lado do corpo voltado para a fêmea. Depois da cópula, o macho conduz a fêmea nadando com o pescoço ereto e a cauda levantada, por cerca de 14 a 17 segundos.

A voz faz parte da comunicação. Os machos têm vários chamados, entre eles um chamado de bico levantado, um chamado de tagarelice e chamados de alarme. As fêmeas são notadas por chamados altos, como os de incitação, de decrescendo e de ameaça. Os gestos de bico levantado, em que o bico fica a cerca de 90 graus acima da horizontal durante a vocalização, são exclusivos do gênero Lophonetta.

Ninho no chão, forrado de penugem

O marreco-de-crista nidifica no chão, e não sobre a água. O ninho fica perto da água ou bem afastado dela, escondido entre capim, samambaias ou touceiras, e é forrado com penugem, segundo a enciclopédia Neotropical Birds. A temporada de reprodução varia com a região: de outubro a abril nos Andes, de setembro a janeiro na Patagônia e de setembro a novembro nas ilhas Malvinas. A espécie pode se reproduzir bem acima de 4.000 metros de altitude.

A postura é de cinco a oito ovos de cor creme. Só a fêmea choca, por cerca de 30 dias. O macho participa dos cuidados com os patinhos desde a eclosão até a independência, e os filhotes emplumam em cerca de 10 a 11 semanas. É comum que o casal crie duas ninhadas por temporada, e há registros de uma possível terceira.

Predadores e situação de conservação

Entre os prováveis predadores estão gansos do gênero Chloephaga, patos-vapor do gênero Tachyeres, o falcão-peregrino, o falcão-de-coleira (Falco femoralis) e o gaivotão (Larus dominicanus). A ave é classificada como pouco preocupante pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em avaliação de 2016, e é uma das espécies de pato mais comuns na Terra do Fogo.

Em resumo, o marreco-de-crista é um pato territorial, que forma casais duradouros, nidifica no chão e defende sua área com firmeza. A conservação da espécie depende dos lagos, banhados e campos úmidos andinos e patagônicos, onde a ave se alimenta e se reproduz.

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