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Ossos de mamute-lanoso surgem às margens do Danúbio na seca

Essa onça percorreu mais de 2 mil quilômetros e mostrou por que proteger apenas parques pode não ser suficiente

Durante meses, uma onça-pintada chamada Gaspar avançou em uma direção quase constante pelo território brasileiro.

Ela atravessou rios, estradas, pastagens, lavouras e fragmentos de vegetação. Ao final do período acompanhado por GPS, a distância em linha reta entre o início e o ponto mais distante de sua jornada chegava a 2.122 quilômetros.

O número surpreendeu porque ultrapassa amplamente os deslocamentos normalmente registrados para a espécie. Mas a descoberta mais importante não está apenas na distância.

Grande parte da rota aconteceu fora de unidades de conservação e atravessou paisagens modificadas por seres humanos. Isso indica que a sobrevivência de animais em deslocamentos extremos não depende somente de grandes florestas protegidas.

Ela também depende do que existe entre essas áreas.

Gaspar não era uma onça jovem procurando seu primeiro território

A dispersão costuma ser associada a animais jovens.

Ao alcançar determinada idade, um macho pode deixar a região onde nasceu para encontrar um espaço próprio, evitar a competição com parentes e procurar oportunidades de reprodução.

Gaspar, porém, tinha aproximadamente oito anos quando começou a viagem. Era um macho adulto, pesava cerca de 92 quilos e já utilizava uma área de vida estimada em 697 quilômetros quadrados nas proximidades do rio Araguaia.

Essas características tornam improvável a explicação mais simples de que ele estivesse apenas deixando o local de nascimento.

Os pesquisadores consideram outras possibilidades, como a perda de território para um concorrente, mudanças na disponibilidade de recursos, perturbações provocadas por atividades humanas ou a busca por novas oportunidades reprodutivas. Nenhuma causa isolada foi confirmada.

O mistério sobre o motivo da partida é parte do que torna o caso incomum.

Gaspar não saiu em uma exploração curta. Ele manteve um movimento persistente e direcionado, como se houvesse abandonado completamente a rotina territorial anterior.

Os 2.122 quilômetros não representam cada passo

A distância divulgada pelo estudo corresponde ao deslocamento linear entre o início e o fim da fase de dispersão.

Isso significa que ela não representa a soma de todas as curvas, desvios, retornos e movimentos diários registrados pela coleira.

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Na prática, Gaspar percorreu uma distância acumulada ainda maior.

O valor linear permite medir o quanto ele efetivamente se afastou do território original. Também revela a consistência da direção tomada: em vez de circular pela mesma região, a onça continuou avançando para sudoeste.

Segundo os pesquisadores, trata-se de um dos maiores eventos de dispersão já documentados para um felino neotropical.

Registros anteriores de onças acompanhadas por especialistas geralmente mostravam deslocamentos muito menores. A jornada de Gaspar também superou distâncias registradas para outros grandes felinos monitorados em diferentes partes do mundo.

A rota não passou apenas pela floresta

Antes da dispersão, Gaspar utilizava principalmente áreas de vegetação natural, incluindo formações florestais e savânicas.

Durante a viagem, o comportamento mudou.

A onça continuou passando a maior parte do tempo em vegetação natural, mas aumentou proporcionalmente o uso de pastagens e plantações, incluindo áreas de arroz e cana-de-açúcar.

Essa mudança não significa que lavouras sejam ambientes ideais para a espécie.

Ela mostra que, diante de uma paisagem fragmentada, o animal precisou usar aquilo que estava disponível para continuar avançando.

A rota de Gaspar não formava um túnel contínuo de mata preservada. Era um mosaico composto por remanescentes naturais, propriedades rurais, estradas e áreas produtivas.

Esse detalhe modifica a discussão sobre corredores ecológicos.

Um corredor não precisa parecer uma floresta contínua

A imagem mais comum de um corredor ecológico é a de uma faixa ininterrupta de vegetação conectando duas reservas.

Estruturas desse tipo são valiosas, mas a escala da viagem de Gaspar mostra que elas podem não ser suficientes.

O estudo utiliza o conceito de permeabilidade da paisagem. Ele descreve a capacidade de um animal atravessar áreas modificadas sem encontrar barreiras intransponíveis ou ser morto durante o trajeto.

Uma fazenda, por exemplo, pode ser mais ou menos permeável.

Ela pode conservar matas ciliares, reservas legais, cursos d’água e fragmentos de vegetação que ofereçam abrigo. Também pode adotar medidas para reduzir conflitos quando uma onça se aproxima do gado.

Na situação oposta, a mesma propriedade pode funcionar como uma armadilha, com perseguição, venenos, ausência completa de cobertura vegetal e cercamentos que dificultam a passagem.

Para uma viagem superior a dois mil quilômetros, a diferença entre essas duas paisagens pode decidir se o animal alcançará outro território.

Unidades de conservação continuam essenciais, mas não bastam

As áreas protegidas exercem um papel central na manutenção das populações de onças.

Unidades de conservação e terras indígenas da Amazônia abrigam milhares desses animais. Esses territórios funcionam como grandes refúgios, oferecendo cobertura vegetal, presas e menor interferência humana.

Entretanto, eles não permanecem isolados do restante da paisagem.

Uma onça que abandona uma área protegida pode precisar atravessar centenas de quilômetros até encontrar outro ambiente adequado.

Gaspar passou uma parcela considerável de sua jornada fora dessas zonas. Seu trajeto reforça a necessidade de pensar a conservação em escalas estaduais, interestaduais e até internacionais, e não apenas dentro dos limites de parques.

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Fonte: 18horas

Uma única onça pode conectar populações distantes

Deslocamentos longos possuem outra função importante: transportar genes entre populações.

Quando diferentes grupos ficam isolados por estradas, desmatamento ou expansão agropecuária, diminui a possibilidade de cruzamento entre indivíduos de regiões diferentes.

Com o tempo, esse isolamento pode reduzir a diversidade genética e aumentar a vulnerabilidade a doenças e mudanças ambientais.

Um macho adulto capaz de percorrer grandes distâncias pode se reproduzir em uma região muito distante daquela onde nasceu ou viveu anteriormente. Ao fazer isso, introduz material genético em outra população.

Os pesquisadores levantam a hipótese de que adultos em dispersão, como Gaspar, possam funcionar como conectores genéticos de longa distância.

O caso de apenas um animal não permite saber com que frequência isso acontece, mas amplia a escala em que a conectividade precisa ser considerada.

O maior perigo pode surgir nas áreas produtivas

Ao entrar em pastagens, uma onça pode encontrar gado e outros animais domésticos.

Mesmo que não ataque uma criação, sua presença pode provocar medo e perseguição. Em regiões onde há conflitos, felinos são mortos por tiros, envenenamento ou armadilhas.

A conectividade funcional depende da redução desses riscos. Isso inclui proteger os rebanhos, evitar a permanência de animais domésticos em áreas vulneráveis e trabalhar com produtores para diminuir a matança por retaliação.

A caça de presas naturais também agrava o problema.

Quando veados, porcos-do-mato e outros animais diminuem, a onça pode encontrar menos alimento durante a viagem e se aproximar com maior frequência das criações.

Permitir a passagem não significa somente deixar um fragmento de floresta em pé. Exige reduzir os riscos ao longo de todo o percurso.

“Quase em linha reta” não significa que ele conhecia o destino

A constância da direção pode criar a impressão de que Gaspar seguia para um lugar específico.

Os pesquisadores, porém, consideram que o comportamento é mais compatível com uma escolha oportunista de rota do que com uma navegação direcionada para um destino previamente conhecido.

A onça provavelmente tomava decisões sucessivas conforme encontrava vegetação, água, presas e obstáculos.

O movimento quase retilíneo pode indicar persistência em uma direção geral, sem significar que o animal possuía um mapa mental de uma área localizada a mais de dois mil quilômetros.

Essa distinção torna a jornada ainda mais impressionante.

Gaspar precisou interpretar continuamente uma paisagem que mudava diante dele, incluindo lugares onde provavelmente nunca havia estado.