
Registro na região abissal da Austrália revela luz nas pernas de espécies gigantes e levanta novas hipóteses sobre sua alimentação.
Em uma sala improvisada e mantida a 6 graus Celsius, a escuridão foi interrompida por pequenos clarões azuis. O brilho apareceu nas pernas de aranhas-do-mar retiradas de uma região abissal próxima ao sudeste da Austrália, durante uma expedição realizada em 2017. Os animais, que podem ter pernas de até 25 centímetros, foram identificados como Colossendeis tasmanica e Colossendeis minor.
O registro, divulgado em 14 de setembro de 2026, confirma de forma direta que essas espécies produzem luz. A descoberta é importante porque descrições antigas já mencionavam um brilho nas aranhas-do-mar, mas faltavam imagens e testes controlados capazes de comprovar o fenômeno.
O clarão apareceu nas pernas
As aranhas-do-mar foram capturadas em redes lançadas a profundidades que chegaram a quase 5 mil metros. Ao serem examinadas a bordo do navio de pesquisa RV Investigator, algumas apresentaram apenas uma luminosidade discreta depois de receberem um estímulo físico.
Os pesquisadores também aplicaram cloreto de potássio, uma substância usada para ativar células bioluminescentes. Nesse teste, o brilho ficou visível por até dez minutos. A maior parte da luz se concentrou na parte inferior das pernas, exatamente onde passa o sistema digestivo desses animais.
Segundo a Society for Science, aranhas-do-mar das espécies Colossendeis tasmanica e Colossendeis minor apresentaram bioluminescência após estímulos em laboratório durante a expedição realizada no fundo do mar australiano em 2017.
Uma descoberta feita entre 25 mil exemplares
O biólogo marinho Jérôme Mallefet, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, participou da análise. Durante a viagem, ele examinou cerca de 25 mil exemplares suspeitos de possuir algum tipo de luminosidade. O trabalho foi feito em um espaço escuro montado dentro do navio, enquanto as amostras chegavam das redes de coleta.

A espécie C. tasmanica está entre as maiores aranhas-do-mar conhecidas. Seu corpo tem aproximadamente o tamanho de um dedo, mas as pernas alongadas ampliam bastante sua dimensão. Apesar do nome, esses animais não são aranhas verdadeiras. Eles pertencem ao grupo dos picnogonídeos, artrópodes marinhos encontrados em diferentes profundidades.
A identificação amplia uma lista de registros que começou há mais de um século. Um relato antigo descrevia uma aranha-do-mar deitada de costas e iluminada por uma radiância azul nas partes inferiores das pernas. A observação permaneceu como uma descrição isolada até os testes recentes oferecerem uma confirmação experimental.
Por que um animal das profundezas emitiria luz?
A função do brilho ainda não está definida. Uma hipótese levantada pela equipe é que a luz tenha relação com a alimentação. Como a luminosidade aparece principalmente na região associada ao trato digestivo, os animais podem obter parte das propriedades bioluminescentes das presas que consomem, entre elas anêmonas-do-mar.
Outra possibilidade envolve a caça. As aranhas-do-mar poderiam usar a luz concentrada nos apêndices para localizar organismos no leito oceânico. Depois de alcançar a presa, elas utilizam uma estrutura semelhante a uma agulha, localizada na probóscide, para liquefazer os tecidos e sugá-los.
A reprodução também está entre as explicações consideradas. O brilho poderia ajudar indivíduos da mesma espécie a se encontrar em um ambiente onde a luz solar não chega. Por enquanto, porém, nenhuma dessas hipóteses foi demonstrada. Os pesquisadores afirmam que será necessário observar os animais em vídeo, no próprio ambiente profundo, para entender como a luminosidade é usada.
Bioluminescência é comum no oceano profundo
A luz produzida pelos animais não é uma característica exclusiva das aranhas-do-mar. Estimativas indicam que cerca de 76% dos organismos das profundezas produzem sua própria luz. A capacidade teria origem há aproximadamente 540 milhões de anos, muito antes do surgimento dos grandes grupos de animais terrestres.

Além da bioluminescência, três espécies analisadas no estudo, incluindo C. tasmanica e C. minor, também emitiram fluorescência verde quando expostas a luz ultravioleta e azul. A fluorescência ocorre quando um organismo absorve uma faixa de luz e devolve outra, enquanto a bioluminescência envolve a produção própria de luz por reações químicas ou células especializadas.
O estudo sobre a predominância da bioluminescência no oceano pode ser consultado no artigo científico publicado em Scientific Reports. Já o trabalho específico sobre as aranhas-do-mar foi publicado em Deep Sea Research Part I: Oceanographic Research Papers, com o título Abyssal glowing sea spider, first insight into pycnogonid luminescence.
O que a descoberta representa para a Amazônia
As espécies observadas vivem longe da costa brasileira e o estudo não registra aranhas-do-mar bioluminescentes na Amazônia. Ainda assim, o resultado ajuda a dimensionar quanto permanece desconhecido nos ambientes marinhos profundos, inclusive em áreas de interesse para a pesquisa oceanográfica brasileira.
As águas próximas ao Amapá, ao Pará e ao Maranhão fazem parte de uma região influenciada pela descarga do rio Amazonas e por ecossistemas costeiros que conectam continente, estuário e oceano. Esses ambientes não são equivalentes ao abismo australiano, mas também dependem de levantamentos capazes de revelar organismos pouco observados. Para pesquisadores e comunidades dos estados amazônicos, a principal lição é que a ausência de registros não significa necessariamente ausência de espécies, mas pode refletir a dificuldade de chegar, coletar e observar esses ambientes.
A pesquisa também mostra a importância de preservar séries de amostras e registros de expedições. O material que permitiu confirmar o fenômeno foi coletado em 2017, mas a interpretação científica só foi apresentada anos depois, após testes, imagens e comparação com descrições anteriores.
Próximo passo será observar o comportamento
O trabalho atual confirma a emissão de luz, mas não resolve como ela é produzida nem qual vantagem oferece às aranhas-do-mar. A próxima etapa indicada pelos pesquisadores é registrar os animais vivos em vídeo no ambiente abissal, acompanhando a reação diante de presas, parceiros e possíveis predadores.
Esse tipo de observação poderá mostrar se o brilho serve para caçar, atrair indivíduos da mesma espécie, afastar ameaças ou se é apenas um efeito associado ao metabolismo e à alimentação. A investigação sobre o comportamento das aranhas-do-mar deve avançar com novas imagens e expedições ao fundo do oceano.
Com informações da Society for Science.
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