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Rodolitos ocupam 20 mil km² no Brasil e escondem até 1% da vida marinha global em pedras vivas

Rodolitos ocupam 20 mil km² no Brasil e escondem até 1% da vida marinha global em pedras vivas
Foto: Zaira Matheus/Arquivo LABECMar

Estudo encontrou mais de 450 espécies e sinais genéticos que podem revelar organismos ainda desconhecidos pela ciência.

Uma pedra rosada retirada do fundo do mar pode carregar uma comunidade inteira de organismos. É o caso dos rodolitos, estruturas formadas por algas calcárias vivas que se acumulam ao longo do tempo e criam frestas, superfícies e cavidades usadas por animais marinhos. Um estudo com amostras coletadas na Bahia e em São Paulo identificou mais de 450 espécies associadas a apenas dois bancos brasileiros e estimou que eles concentram entre 0,2% e 1% da diversidade marinha conhecida no planeta.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo e publicada em 18 de setembro de 2026 na revista Biological Conservation. O trabalho analisou o Banco dos Abrolhos, na Bahia, e a formação existente ao redor da Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista. Embora estejam separados por centenas de quilômetros e tenham dimensões muito diferentes, os dois ambientes revelaram uma variedade biológica que não aparece quando os nódulos são observados apenas por fora.

O que existe dentro de uma pedra viva

O Banco dos Abrolhos é considerado a maior área contínua coberta por rodolitos conhecida no mundo, com cerca de 20 mil quilômetros quadrados. Já o banco estudado na Ilha da Queimada Grande tem aproximadamente 1 quilômetro quadrado. A comparação entre os dois locais ajudou os pesquisadores a avaliar como formações de escalas distintas podem sustentar comunidades complexas.

Entre os organismos encontrados estão algas, esponjas, ascídias, briozoários, nematoides, nemertíneos, pequenos crustáceos, ácaros marinhos, estrelas do mar, pepinos do mar e ouriços. Camarões, siris, caranguejos e outros animais também foram detectados por seu vínculo com o ambiente dos bancos, ainda que não estivessem necessariamente presos aos nódulos analisados.

Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o estudo identificou mais de 450 espécies em amostras dos bancos de rodolitos do Banco dos Abrolhos e da Ilha da Queimada Grande, analisadas no Brasil em 2026.

O DNA ampliou o inventário da vida marinha

A equipe combinou a identificação visual com o metabarcoding, método que extrai e sequencia simultaneamente o material genético de organismos presentes em uma amostra. A técnica funciona como uma leitura coletiva de códigos de barras biológicos e permite detectar larvas, animais microscópicos e formas escondidas nas cavidades dos nódulos.

O procedimento encontrou 1.837 assinaturas genéticas únicas, chamadas de ESVs. Elas representam sequências diferentes de DNA, mas não podem ser convertidas automaticamente em espécies conhecidas. Para isso, cada sequência precisa ser comparada com bancos de referência que tenham material genético já identificado.

Essa limitação muda a interpretação dos resultados. No cálculo mais conservador, baseado nas espécies reconhecidas diretamente, os dois bancos correspondem a 0,2% das cerca de 200 mil espécies marinhas conhecidas no mundo. No cenário mais amplo, em que cada assinatura genética pudesse representar uma espécie distinta, a estimativa chegaria a 1%. O número é uma possibilidade calculada a partir dos dados, não uma confirmação de que todas as sequências correspondem a organismos novos.

Novos registros e possíveis espécies inéditas

O levantamento apontou quatro potenciais novas espécies de algas. Uma delas pertence ao gênero Dissimularia, que até agora reúne quatro espécies conhecidas, todas registradas no oceano Pacífico. A presença de um exemplar brasileiro pode indicar uma espécie ainda não descrita, mas a confirmação depende de análises complementares.

Rodolitos ocupam 20 mil km² no Brasil e escondem até 1% da vida marinha global em pedras vivas
Foto: Zaira Matheus/Arquivo LABECMar

Também foram encontrados organismos já conhecidos em outras áreas, como o Atlântico Norte e o Caribe, mas que não haviam sido registrados no Atlântico Sul. Entre as esponjas, Pione vastifica e Protosuberites denhartogi foram identificadas pela primeira vez na região sudoeste do Atlântico. Hooperia anfractuosa teve um registro ainda mais amplo, sendo a primeira ocorrência documentada para todo o Atlântico.

Ao todo, 21 gêneros observados no material não tinham registro anterior na costa brasileira ou no oceano Atlântico. A descoberta não significa que esses organismos tenham surgido agora, mas revela o quanto a fauna associada aos rodolitos permaneceu fora dos inventários tradicionais.

Um ecossistema grande, mas pouco conhecido

Os rodolitos ocorrem em diferentes regiões do planeta, de áreas rasas até aproximadamente 200 metros de profundidade. A área global estimada desses bancos chega a 4 milhões de quilômetros quadrados, cerca de 20% a mais que a extensão atribuída aos recifes de coral. Esses recifes são reconhecidos por sustentar aproximadamente 25% das espécies marinhas.

Estudos anteriores citados pelos pesquisadores indicam que, em escala regional, bancos de rodolitos podem reunir até 30% da biodiversidade local. Por isso, o grupo coordenado pelo professor Guilherme Pereira Filho defende que essas formações sejam avaliadas como possíveis ecossistemas megadiversos, categoria que também inclui florestas tropicais e recifes de coral.

A comparação com a Amazônia ajuda a dimensionar o debate. A floresta é estimada como abrigo de cerca de 10% da biodiversidade global e se tornou referência internacional depois de décadas de pesquisa. No ambiente marinho, os rodolitos ainda enfrentam uma lacuna básica: das quase 17 mil espécies marinhas registradas no Brasil, somente 3.700 possuem sequências de DNA depositadas em bancos públicos.

Mineração e petróleo pressionam os bancos

No Brasil, rodolitos ainda podem ser explorados como fonte de carbonato de cálcio, utilizado na agricultura para corrigir a acidez do solo. A atividade retira do ambiente estruturas que levaram tempo para se formar e pode eliminar os abrigos usados por outros organismos. A exploração de petróleo no mar também representa risco por causa das perfurações no leito oceânico e de possíveis vazamentos.

Para Guilherme Pereira Filho, ampliar o conhecimento é uma etapa necessária antes de definir áreas prioritárias de conservação. A pesquisa também aponta interesse potencial para a bioprospecção, já que organismos associados aos rodolitos podem produzir moléculas úteis em medicamentos e processos biotecnológicos. Esse potencial, porém, ainda depende de novas investigações e não equivale à existência de produtos prontos.

O próximo estágio do trabalho busca verificar se o interior dos nódulos abriga estruturas reprodutivas difíceis de observar, como se os rodolitos funcionassem como bancos de sementes marinhos. Os pesquisadores pretendem combinar as evidências genéticas com análises morfológicas para determinar quantas formas de vida ainda permanecem sem identificação.

O artigo completo está disponível para leitura na publicação da revista Biological Conservation. A continuidade das coletas, a ampliação dos bancos genéticos e a definição de medidas de proteção serão os próximos passos para testar a estimativa de biodiversidade e reduzir o risco de perda antes que essas espécies sejam conhecidas.

Com informações de FAPESP.

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