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Metas globais de biodiversidade chegam à reta decisiva com avanços em Nairóbi e lacunas até 2030

Metas globais de biodiversidade chegam à reta decisiva com avanços em Nairóbi e lacunas até 2030
Foto: acervo

Reuniões da ONU reconheceram progresso desigual e prepararam a revisão mundial que ocorrerá em outubro, na Armênia.

O calendário internacional da biodiversidade entrou em uma fase decisiva depois de quase três semanas de negociações em Nairóbi, no Quênia. Entre 27 de julho e 12 de agosto de 2026, representantes dos países discutiram como transformar compromissos assumidos em medidas capazes de conter a perda de espécies, proteger territórios e financiar ações de conservação. O resultado foi uma combinação de avanços técnicos e um alerta: o ritmo atual ainda não basta para cumprir as metas previstas até 2030.

As conclusões serão levadas à Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade de 2026, marcada para ocorrer de 19 a 30 de outubro, em Ierevan, na Armênia. O encontro incluirá a COP 17 da Convenção sobre Diversidade Biológica e as reuniões dos países signatários dos Protocolos de Cartagena e de Nagoia.

O que Nairóbi conseguiu encaminhar

A primeira rodada, realizada de 27 de julho a 1º de agosto, reuniu o órgão científico, técnico e tecnológico da Convenção. As discussões chegaram a consensos amplos sobre manejo sustentável da fauna, gestão de áreas protegidas, biologia sintética e conservação marinha e costeira.

Entre os resultados está uma recomendação para atualizar o programa de trabalho sobre áreas protegidas. A revisão será a primeira desde que o programa foi adotado, em 2004. Também avançaram orientações voluntárias para o uso sustentável da fauna silvestre e um plano de ação voltado à biologia sintética.

Esse plano trata de pontos que costumam ficar fora do debate mais visível sobre conservação, como formação de capacidades, acesso a tecnologias e compartilhamento de conhecimentos. A proposta é ajudar os países a lidar com uma área científica que pode oferecer ferramentas úteis, mas também exige regras, informação e avaliação de riscos.

O diagnóstico que chega à COP 17

Na segunda reunião, de 4 a 12 de agosto, o foco foi a implementação. Os países analisaram como ampliar o financiamento, integrar a biodiversidade às políticas públicas, melhorar o acesso à informação e fortalecer instituições, cooperação e educação.

Segundo a Convenção sobre Diversidade Biológica, o primeiro relatório sobre o progresso do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, elaborado com base nos relatórios nacionais apresentados até fevereiro de 2026, será usado na primeira revisão coletiva da implementação do acordo durante a COP 17, em Ierevan.

O levantamento tem uma base ampla de participação. Até o prazo de fevereiro, 130 países, mais de 70% das Partes, haviam enviado relatórios nacionais. Outros 172, quase 90%, apresentaram metas próprias alinhadas ao marco global e adaptadas às suas circunstâncias.

Mesmo com esse envolvimento, menos da metade das metas nacionais avaliadas pelos países está atualmente no caminho considerado adequado. O relatório aponta avanços em algumas frentes de conservação, mas identifica lentidão justamente nos instrumentos que sustentam a execução: mobilização de recursos, reforma de subsídios prejudiciais à natureza, governança inclusiva e integração da biodiversidade nas decisões econômicas.

A conta que ainda não fecha

O problema apresentado em Nairóbi não é apenas estabelecer objetivos. É criar condições para que governos, empresas e instituições consigam agir em escala. A reunião de implementação destacou ainda os impactos e as dependências das empresas em relação à natureza, além da necessidade de mudar padrões de consumo.

O Fundo Cali apareceu como um dos pontos de maior atenção. O mecanismo é tratado como uma ferramenta para que o setor privado devolva recursos à natureza, especialmente em temas ligados ao uso de informações de sequência digital. As negociações mostraram, porém, que os países querem garantir que sua governança e seu funcionamento estejam alinhados às prioridades da Convenção.

Essa discussão interessa diretamente à Amazônia. Nos estados da região, decisões sobre áreas protegidas, manejo de fauna, acesso a conhecimento tradicional, cadeias produtivas e financiamento ambiental dependem de regras que conectem conservação e desenvolvimento. Um marco internacional só produz efeito local quando chega a planos públicos, fiscalização, pesquisa, educação e apoio às comunidades que vivem nos territórios.

O mesmo vale para a dimensão costeira e marinha. A Amazônia não se limita à floresta em terra firme: a foz do Amazonas, os manguezais, as zonas estuarinas e os ambientes costeiros também fazem parte dos desafios de conservação discutidos globalmente. Medidas sobre biodiversidade marinha e costeira podem alcançar áreas ligadas aos estados amazônicos que têm litoral, especialmente Amapá e Pará, além de influenciar políticas nacionais para a região.

Entre o consenso técnico e a disputa política

As reuniões terminaram com avanços nas recomendações, mas não eliminaram as diferenças sobre a velocidade necessária para cumprir as metas de 2030. O reconhecimento de que o progresso é desigual foi um dos pontos centrais do encontro.

A secretária executiva da Convenção sobre Diversidade Biológica, Astrid Schomaker, afirmou que a implementação ainda não ocorre no ritmo e na escala exigidos pelo Marco Global de Kunming-Montreal. Segundo ela, as maiores lacunas estão na mobilização de financiamento para a biodiversidade, na reforma de subsídios prejudiciais, na resposta aos impactos e dependências empresariais e na transição para um consumo sustentável.

O desafio agora será transformar recomendações em decisões políticas. A COP 17 deverá avaliar o progresso coletivo, examinar as falhas apontadas pelo relatório e discutir caminhos para acelerar a execução das metas. O resultado poderá influenciar a forma como recursos, tecnologia, informação e responsabilidades serão distribuídos entre países e setores econômicos.

Para o público amazônico, a conferência será relevante porque os compromissos internacionais ajudam a definir prioridades para proteção de florestas, rios, áreas costeiras e espécies, mas sua eficácia dependerá da aplicação concreta nos territórios. As negociações preparatórias de Nairóbi encerraram uma etapa; a próxima decisão será tomada em Ierevan, entre 19 e 30 de outubro de 2026, quando os países farão a primeira revisão global da implementação do marco.

Com informações da Convenção sobre Diversidade Biológica.

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