
No chão quente entre fileiras baixas de painéis, um par de olhos amarelos aparece na boca de um buraco e some de novo, como se o deserto tivesse engolido a ave por um instante.
Foi assim que uma usina solar a oeste de Phoenix, no Arizona, estado americano seco que faz fronteira com o México e a Califórnia, deixou de ser só máquina de eletricidade e passou a funcionar também como berçário de corujas-buraqueiras, a mesma lógica de ave que no Brasil cava toca em campo aberto e beira de estrada. A história começa longe dos módulos fotovoltaicos.
Em março de 2025, nove casais e um macho solitário, no total 19 aves, precisavam de novo endereço porque um empreendimento imobiliário avançava sobre a colônia original, a cerca de 80 quilômetros dali.
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Após quase 100 anos bloqueado por barragens, rio volta a correr livre e salmões recuperam caminho entre o Pacífico e as montanhasA organização Wild at Heart, dedicada a resgate e reabilitação de raptores no Arizona, e a Longroad Energy, responsável pelo complexo Sun Streams, combinaram um experimento simples e ousado: testar se o solo entre as instalações Sun Streams 2 e Sun Streams 3, numa faixa de aproximadamente 100 hectares, poderia receber a espécie que perde terreno para cidade e lavoura.
Tocas artificiais, redes e comida no chão do parque
Antes da chegada das aves, equipes prepararam o terreno com 40 madrigueiras artificiais, porque a coruja-buraqueira, diferentemente de muitas raptores, não sobe em árvore para nidificar; ela vive e cria filhotes sob a terra, reaproveitando túneis de roedores ou escavando solo macio. As primeiras semanas foram de adaptação controlada.
As aves ficaram em espaços cercados por redes para não tentarem voltar ao sítio antigo, receberam ratos descongelados todos os dias e contaram com luzes noturnas pensadas para atrair insetos, outra parte importante da dieta. Câmeras acionadas por movimento passaram a registrar o vaivém nas bocas das tocas.
A pergunta central dos monitores era objetiva: num mosaico de aço, vidro e corredores de terra batida, essas corujas conseguiriam se reproduzir? A resposta veio cedo. Um mês depois do traslado, todas as fêmeas tinham posto ovos. O deserto entre os painéis, com sombra parcial das placas, menos trânsito humano contínuo em certos trechos e solo ainda aberto, ofereceu o que a espécie pedia na temporada de cria.
Trinta e seis filhotes entre as placas e o sol do Sonora
Até o fim de junho de 2025, 36 filhotes tinham nascido no complexo. Nos três meses seguintes, 29 alcançaram a fase em que deixam o ninho e começam a voar, segundo o acompanhamento divulgado com apoio da Audubon.
O coordenador do programa de habitat da Wild at Heart, Greg Clark, foi reduzindo aos poucos a comida suplementar. Restos de insetos nas fezes mostraram que as aves já caçavam por conta própria. No fim de agosto de 2025, a alimentação extra acabou de vez. Em julho de 2026, as câmeras ainda vigiavam cerca de 30 madrigueiras abertas e algo em torno de 40 corujas viviam na área da usina.
O número de 36 crias num único sítio não transforma o parque em santuário nacional nem garante população estável em todo o estado, mas marca uma temporada forte de ninhadas no mesmo lote de terra, o tipo de resultado que monitores de fauna celebram quando a espécie já perdeu mais de um terço dos efetivos nos Estados Unidos desde a década de 1960 e figura como preocupação de conservação.
Por que a coruja-buraqueira cabe entre painéis
A coruja-buraqueira, Athene cunicularia, é diurna em boa parte do dia e depende de campos abertos, pastagens e desertos com buracos no solo. No oeste americano, urbanização, expansão agrícola e fragmentação de habitat empurram colônias para margens cada vez mais estreitas. Quando uma obra ameaça um sítio ativo, grupos especializados capturam e realocam.
No caso do Sun Streams, a escolha do terreno não foi totalmente ao acaso: estudos ambientais anteriores à construção do Sun Streams 2 já tinham detectado oito indivíduos da espécie, retirados antes das obras; depois da instalação pronta, a empresa voltou a estudar se as aves poderiam retornar de forma assistida.
Parques solares no deserto de Sonora e entorno, faixa quente e seca em torno de Phoenix e Tucson, deixam corredores de terra entre fileiras de módulos fixos ou inclinados rente ao solo.
Essa geometria, somada a cercas e ao controle de vegetação, pode coincidir pontualmente com o que a ave de toca precisa: solo exposto, algum abrigo, insetos e pequenos vertebrados. Não se trata de projetar usina como creche nem de afirmar que painéis salvam a espécie.
Trata-se de adaptação oportunista a um mosaico novo, onde a infraestrutura de energia limpa e a vida de solo se cruzaram sem que ninguém tivesse escrito o roteiro completo de antemão.
Para o leitor que já viu buraco de coruja em pasto, terreno baldio ou beira de estrada no Cerrado e no Sul do Brasil, a imagem é familiar: a mesma Athene cunicularia, corpo baixo, pernas longas, olhar frontal, sumindo e reaparecendo na boca da toca.
No Arizona o cenário muda de escala e de clima, um sertão extremamente ensolarado coberto por milhares de placas, mas o gesto da ave continua o de sempre, nidificar no chão e defender a ninhada no nível da poeira.
Do experimento ao cotidiano do parque
O arranjo entre empresa e organização de fauna mostrou que realocação com tocas artificiais, alimentação temporária e monitoramento por câmera pode funcionar quando há terra disponível entre as instalações e vontade de acompanhar a temporada inteira. O sucesso reprodutivo, com dezenas de filhotes e a maior parte alcançando o voo, reforça que o local ofereceu toca, alimento e relativo abrigo durante os meses críticos.
Ao mesmo tempo, o desmame da comida humana e a permanência de dezenas de indivíduos no ano seguinte indicam que o sítio deixou de ser só um depósito de emergência e passou a ser território usado de fato. Há limites claros no que se pode extrair do episódio.
Painéis não substituem habitat natural contínuo; um complexo não resolve a pressão estadual sobre a espécie; e o contraste entre energia renovável e creche de corujas não deve virar milagre ecológico nem polêmica genérica.
O que o caso entrega, e o que o clarin.com registrou a partir do acompanhamento local, é uma cena concreta: aves que perdiam o chão sob o avanço imobiliário acharam, entre corredores de usina, espaço para botar, chocar e criar.
No deserto a oeste de Phoenix, a eletricidade sobe pelos cabos e, no mesmo terreno, filhotes de coruja-buraqueira sobem pela primeira vez ao ar livre, entre a sombra das placas e o sol que as alimenta.
A imagem que fica é a do buraco no solo batido, a cabeça pequena que emerge, o filhote ainda desajeitado aprendendo o contorno do mundo entre metal e areia. Uma usina solar continua sendo usina solar. Uma coruja-buraqueira continua sendo ave de toca.
No Arizona, por uma combinação de realocação, manejo e acaso geográfico, os dois projetos ocuparam o mesmo mapa e, por uma temporada inteira, o parque energético virou também creche.
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