Angelina Jolie guarda há 23 anos 39 hectares e cerca de 200 espécies na floresta natal do filho, no Camboja

Cobertura vegetal contínua da floresta de Samlaut, entre as províncias de Battambang e Pailin, no Camboja, área onde 39 hectares permanecem sob proteção há 23 anos.

Angelina Jolie mantém sob seu controle direto os títulos de 39 hectares no interior da floresta de Samlaut, uma área de mata densa no noroeste do Camboja, país do Sudeste Asiático onde nasceu seu filho mais velho, Maddox, adotado em 2002.

O que começou como gesto afetivo ligado à origem da criança se converteu em compromisso ininterrupto de 23 anos com um território que abriga cerca de 200 espécies de fauna e flora e que permanece sob pressão constante de exploração madeireira, conversão agrícola e expansão de vilarejos.

A floresta de Samlaut se estende por mais de 60,9 hectares entre a província de Battambang, divisão administrativa do noroeste cambojano conhecida por planícies férteis e rotas comerciais, e a província de Pailin, divisão administrativa do oeste do país situada junto à fronteira com a Tailândia.

O trecho adquirido pela atriz funciona como núcleo de conservação dentro dessa paisagem fragmentada: ao retirar os 39 hectares do mercado especulativo de terras, ela elevou o custo político e econômico de qualquer invasão ou desmatamento irregular e criou um ponto de ancoragem para o restante da cobertura vegetal.

Como a compra de terra virou barreira permanente contra o desmatamento

O mecanismo de proteção combina propriedade privada, articulação com autoridades provinciais e presença física repetida. Guardas comunitários percorrem trilhas, monitoram clareiras e reportam movimentações suspeitas; acordos informais e formais com gestores de Battambang e de Pailin reforçam a fiscalização em um país cujas instituições ambientais ainda enfrentam limitações crônicas de recursos.

A notoriedade internacional de Jolie atua como dissuasão adicional: qualquer avanço irregular sobre o perímetro protegido ganha visibilidade externa e eleva o risco reputacional para quem autoriza ou tolera a derrubada.

Florestas tropicais sazonais como a de Samlaut abrigam mamíferos de médio porte, aves dependentes de dossel contínuo, répteis de solo úmido e uma flora que inclui árvores de madeira nobre e plantas medicinais utilizadas por comunidades do entorno. Cada hectare preservado mantém conexões ecológicas que permitem o deslocamento de animais entre fragmentos maiores.

Quando a mata é cortada, essas conexões se rompem e populações isoladas declinam por falta de alimento, abrigo e parceiros reprodutivos. Manter os 39 hectares intactos, portanto, não é apenas gesto simbólico: é a âncora que dá sobrevida aos mais de 60,9 hectares totais da floresta e às cerca de 200 espécies inventariadas na área.

O contexto histórico do Camboja explica por que a iniciativa ganhou peso desproporcional ao tamanho do terreno.

Décadas de conflito, o regime do Khmer Vermelho e a posterior abertura econômica deixaram o país com demanda intensa por terra cultivável e madeira e com capacidade estatal limitada para impor zonas de proteção. Províncias de fronteira concentraram tanto rotas de escoamento quanto pressão sobre recursos naturais. Em Pailin, a proximidade com a Tailândia facilitou o tráfego de toras. Em Battambang, a planície atraiu expansão agrícola.

A floresta de Samlaut ficou no meio desse movimento e, sem proteção ativa, teria seguido o destino mais comum na região: conversão gradual em roças, pastos e lotes.

Números, espécies e a lógica de um núcleo pequeno que segura o resto

Os números que cercam o projeto são modestos em escala continental e, justamente por isso, reveladores. Trinta e nove hectares sob controle direto desde a aquisição; mais de 60,9 hectares de extensão total da floresta de Samlaut; cerca de 200 espécies de animais e plantas registradas; 23 anos ininterruptos de vigilância e apoio à conservação; duas províncias envolvidas de forma permanente.

Em regiões tropicais sob forte pressão demográfica e econômica, a simples manutenção de um núcleo florestal por mais de duas décadas já constitui exceção.

O valor da área não está em ser a maior floresta do Camboja nem a mais famosa internacionalmente, e sim na localização estratégica entre Battambang e Pailin e na demonstração de que um bloco relativamente pequeno, quando retirado do mercado e vigiado com constância, consegue segurar biodiversidade. Jolie não limitou a atuação à escritura de compra.

O interesse pelo país de origem do filho se desdobrou em projetos de educação, saúde e geração de renda para famílias que vivem no entorno da mata. A lógica é direta: quando a comunidade local enxerga valor econômico na floresta em pé, seja por turismo de baixo impacto, seja por produtos não madeireiros ou por empregos ligados à vigilância, a pressão por derrubada diminui.

Escolas, postos de atendimento e iniciativas de renda complementar entram no pacote de medidas que sustentam a conservação no longo prazo e reduzem a tentação de vender ou invadir o perímetro protegido. Conhecida primeiro pelas telas de Hollywood e depois pela direção de longas-metragens, a atriz construiu em paralelo uma trajetória de engajamento humanitário.

Como enviada de boa vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, percorreu campos e zonas de conflito, documentou deslocamentos forçados e pressionou governos por políticas de acolhimento. Esse trabalho a colocou em contato repetido com o Camboja e com as cicatrizes deixadas por décadas de instabilidade.

A adoção de Maddox em 2002 acelerou a imersão: em vez de visitas protocolares, ela passou a mapear problemas concretos de terra, água e floresta e escolheu Samlaut como prioridade porque ainda concentrava biodiversidade relativamente intacta em meio a um país que já havia perdido grandes extensões de cobertura nativa.

Vinte e três anos de retorno ao mesmo perímetro

O site francês linternaute.com registrou o arco completo dessa trajetória, da descoberta do país natal do filho até a vigilância de mais de duas décadas sobre o mesmo território. A atriz também usou a própria plataforma de cinema para manter o Camboja no radar internacional.

A direção de um longa que reconstitui a experiência de uma menina sob o Khmer Vermelho trouxe de volta ao debate público as feridas do país e, por extensão, a fragilidade de seus ecossistemas. Cada entrevista, cada visita e cada declaração sobre a floresta de Samlaut reforça o escudo simbólico que cerca os 39 hectares.

Em um país onde a fiscalização estatal ainda enfrenta limitações de orçamento e pessoal, a atenção externa funciona como camada extra de dissuasão. O modelo adotado ilustra uma forma de conservação que une capital privado, notoriedade e presença física repetida. Não se trata de doação pontual nem de campanha de um único ciclo de mídia.

São 23 anos de retorno ao mesmo lugar, de checagem das mesmas trilhas e de renovação dos mesmos acordos com moradores e autoridades de Battambang e Pailin. O resultado mensurável aparece na permanência da cobertura vegetal e na continuidade das cerca de 200 espécies que ainda encontram abrigo, alimento e corredores de deslocamento ali.

Qualquer ruptura no perímetro protegido abriria caminho para o efeito dominó de clareiras, estradas e lotes, fragmentando ainda mais o habitat e isolando populações já reduzidas. Battambang e Pailin continuam a registrar avanços e recuos na gestão ambiental, como ocorre em grande parte do noroeste cambojano.

Dentro dos limites dos 39 hectares, porém, a regra permanece a mesma desde 2002: a mata não se converte em commodity. Esse é o fato central que a trajetória de Angelina Jolie ilustra com clareza. Uma atriz comprou terra, manteve a terra e, ao fazê-lo de forma contínua, manteve também o habitat de cerca de 200 espécies por quase um quarto de século.

Em um planeta que perde cobertura florestal tropical a cada ano, 23 anos de guarda ininterrupta de um mesmo pedaço de terra no noroeste do Camboja merecem registro detalhado porque mostram o que acontece quando o laço afetivo com o país de origem de um filho se transforma em instrumento concreto de conservação.

A combinação de propriedade, vigilância comunitária e capital de reputação criou um arranjo difícil de replicar em escala nacional, mas eficaz no território escolhido. Os 39 hectares operam como pedra angular. Ao redor deles, os mais de 60,9 hectares totais da floresta de Samlaut ganham sobrevida.

As espécies que se deslocam, se alimentam e se reproduzem na área dependem dessa continuidade de dossel e de solo. Maddox cresceu. A atriz continuou voltando. A floresta permaneceu. As cerca de 200 espécies seguem listadas no inventário local. O anúncio foi a compra; o que se seguiu foi rotina de proteção, ano após ano, na mesma faixa de mata entre duas províncias sob pressão econômica permanente.

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