Retiraram pedra do morro durante décadas e casas ficaram na linha de risco; agora moradores temem o que pode acontecer quando chegam as chuvas

Vista central das encostas da serra de Santa Catarina marcadas por crateras e taludes de exploração mineral, com a mancha urbana da periferia leste da Cidade do México ao fundo.

A cratera aberta na face leste da serra de Santa Catarina ainda exala pó fino de tezontle quando o vento sobe da avenida Ermita Iztapalapa e varre o talude irregular em direção às lajes que avançaram até a base do morro.

Quem mora ali há trinta ou quarenta anos descreve o mesmo movimento lento e insistente: a pedra some carga após carga, a encosta recua metro a metro, e o que era sombra contínua de vulcão vira parede instável sobre o quintal, as rachaduras e o medo de cada temporada de chuva.

A serra de Santa Catarina forma um arco de cones vulcânicos na periferia leste da Cidade do México, dividida entre as demarcaciones de Iztapalapa e Tláhuac, e seu material rico em rocha porosa, basalto e tezontle alimentou por gerações a indústria da construção da capital, de obras oficiais a aterros irregulares.

A extração começou pequena, com picareta e carroça, e ganhou escala com pás mecânicas e caminhões quando a mancha urbana engoliu os vales ao redor e transformou o relevo em estoque barato de brita à céu aberto.

Como a pedra da serra virou combustível da expansão urbana

Durante décadas o ritmo foi de saque aberto e quase sem freio, de modo que encostas inteiras perderam a cobertura vegetal xerófita e a estrutura geológica que as sustentava, e onde havia ladeira contínua apareceram buracos profundos, taludes verticais e platôs artificiais que ainda hoje marcam a silhueta vista de bairros como Santa Catarina e Santiago Acahualtepec.

A água da chuva, antes absorvida pelo solo vulcânico poroso, passou a descer em enxurrada carregando sedimento para ruas e casas mais baixas, e o relevo que servia de marco visual e de barreira natural contra o vento seco da bacia do Anáhuac virou cicatriz industrial visível a olho nu.

Tezontle e pedra britada saíram dali para virar bloco, aterro e piso em canteiros que iam do centro expandido às periferias em crescimento, e a lógica econômica era direta: material próximo, barato e abundante reduzia frete e prazo em uma metrópole faminta por construção.

O custo dessa conta, porém, ficou enterrado na geometria da própria serra, porque cada fatia de rocha retirada era também uma fatia de suporte lateral removida do morro que ainda restava de pé sobre as casas.

Moradores mais antigos falam de caminhos de terra que antes levavam a mirantes e a pastos secos e que depois viraram corredores de caminhão, com farol baixo e motor em horários em que a fiscalização ambiental raramente aparece.

O pó da britagem cobre folhas, telhados e varais, e o barulho noturno de carga virou sinal de que a encosta perderia mais um pedaço antes do amanhecer, em um ciclo que misturava renda informal, demanda contínua e ausência de contenção física eficaz.

O decreto de 1994 e o saqueo que seguiu por caminhos laterais

Em 1994 o governo do então Distrito Federal declarou a serra área natural protegida, em um decreto que buscava frear a mineração formal, preservar o que restava de vegetação e de fauna associada e impedir que o desmonte chegasse ao núcleo dos cones vulcânicos ainda recognoscíveis na paisagem.

Na prática, o papel mudou o status jurídico e reduziu concessões oficiais, mas não apagou a demanda por material barato nem a rede de quem já lucrava com a pedra, de modo que mesmo com as minas teoricamente fechadas o saqueo continuou à noite ou em trechos de difícil acesso.

Segundo cobertura de jornada.com.mx sobre a devastação dos cerros de Iztapalapa e Tláhuac, o desmonte das encostas permanece legível no terreno e no cotidiano de quem vive colado à base, o que confirma no chão o descompasso entre norma e território.

A área protegida exige monitoramento de acessos, controle de veículos pesados e sanção a quem extrai sem autorização, porém o perímetro é extenso, os caminhos alternativos são muitos e a pressão econômica sobre quem vende pedra irregular continua alta enquanto houver obra pequena e aterro clandestino à espera de carga.

Cada viagem a menos de rocha na encosta é uma fatia a mais de risco para quem construiu na beira do talude, e Iztapalapa concentra uma das maiores densidades populacionais do país, com bairros que cresceram colados à base da serra porque o solo plano já estava ocupado e o preço do lote na ladeira era acessível para famílias sem alternativa no mercado formal.

Muitas casas subiram sem estudo de solo, com fundação rasa sobre material de aterro misturado a rejeito de pedreira, e quando a extração remove o suporte lateral da encosta o terreno cede em fatias, abrindo rachaduras em muros, emperrando portas e forçando contenções improvisadas com pneu, pedra solta e concreto magro.

Densidade na base, chuva de verão e o mecanismo do deslizamento

O mecanismo é simples na descrição e cruel na consequência: a rocha vulcânica da serra, embora resistente em bloco maciço, fratura com facilidade quando se retira o confinamento natural que a mantinha estável, e sem a vegetação de raiz profunda que amarrava o solo a chuva de verão abre sulcos que, no período de precipitações intensas da bacia do México, viram caminhos de deslizamento.

Casas na linha de queda recebem lama, pedra e, em casos extremos, o colapso parcial do talude, com custo humano medido em despejos emergenciais, noites sem luz porque o poste tombou e famílias que dormem com um olho no morro e outro no muro do quintal.

Especialistas em risco urbano da capital mexicana repetem em relatórios e audiências públicas o mesmo diagnóstico de evolução lenta: a combinação de encosta desmontada, ocupação irregular na base e chuva concentrada não produz necessariamente um desastre súbito como um terremoto de grande magnitude, e sim o acúmulo de centímetros de recuo por ano até que um talude ceda de uma vez e arraste consigo o que estiver abaixo.

Obras de contenção existem em trechos pontuais, com muro de concreto e drenagem superficial, mas cobrem fração do perímetro afetado, e recuperar a geometria original da serra é impossível no horizonte realista de gestão urbana.

O máximo factível é estabilizar o que resta, impedir novas frentes de corte e reduzir a velocidade da água que desce pelos sulcos abertos, o que exige investimento contínuo e não apenas anúncio de projeto.

Há tentativas de restauração ecológica em porções menos degradadas, com plantio de espécies nativas, fechamento de acessos com barreiras e ações de educação ambiental em escolas da região, conduzidas por governo local e por coletivos, porém o resultado é desigual e depende de vigilância comunitária tanto quanto de verba pública.

Onde a pedra ainda é vista como renda rápida, a muda plantada de manhã pode ser pisoteada à noite pelo pneu do caminhão; onde a comunidade se organiza para vigiar entradas e denunciar movimento suspeito, a vegetação volta em manchas e o pó fino diminui nas folhas das bordas.

Essa diferença de desfecho no mesmo maciço mostra que o problema não é só geológico, e sim de governança cotidiana sobre um território em que a lei de proteção chegou depois de décadas de desmonte já consolidado e, ao mesmo tempo, cedo demais para quem ainda dependia da extração informal como ofício de sobrevivência.

Habitat encolhido, memória do morro e o padrão da bacia do México

Do ponto de vista ecológico, a serra guardava remanescentes de ecossistema de altitude média em plena zona urbana, com arbustos nativos, cactáceas e gramíneas secas que sustentavam insetos, répteis e aves que usavam o relevo como corredor entre áreas verdes fragmentadas da capital.

Com a abertura das crateras o habitat encolheu de forma visível, espécies de lagartos e serpentes de solo pedregoso perderam abrigo, e aves que nidificavam em fendas e arbustos altos passaram a competir por espaços menores e mais expostos a cães, gatos e lixo doméstico lançado nas bordas dos taludes.

A dimensão cultural pesa tanto quanto a física, porque para gerações de iztapalapenses e moradores de Tláhuac a serra não era só pedreira: era o fundo de toda fotografia de infância, o lugar onde se subia em feriado para ver a cidade de cima, o referente de orientação quando se dizia “para o lado do morro”.

Procissões, festas patronais e memórias de namoro adolescente se amarravam a trilhas que hoje cortam taludes perigosos, e quando o morro vira cratera some também um pedaço da narrativa coletiva de bairros que já carregam estigma de periferia e violência urbana.

O caso da serra de Santa Catarina se encaixa num padrão maior da expansão da Cidade do México, em que relevo que um dia serviu de limite natural virou estoque de material e depois zona de risco geotécnico, processo que se repetiu em escala diferente em outras elevações da bacia.

A diferença aqui é a densidade humana colada à ferida e o fato de a proteção legal de 1994 ter chegado sobre um volume de pedra já retirado que não volta ao lugar, deixando um passivo permanente de estabilização e de vigilância.

Para o morador que acorda com a vista da cratera, o debate jurídico sobre categorias de área protegida soa distante diante da pergunta prática de se o muro do quintal vai rachar na próxima temporada de chuva, se o caminhão vai voltar a subir o caminho de terra e se alguém, enfim, vai tratar o buraco que engole a continuidade da encosta.

A serra continua no mapa oficial; o que sumiu foi a confiança de que o chão sob os pés permanecerá quieto quando a água de verão encontrar os sulcos abertos pelo corte.

A reportagem do Diário do Litoral reuniu o histórico de uso mineral, o marco de 1994 e os relatos de continuidade do saque para mostrar que a devastação não é acidente de percurso, e sim o resultado de décadas em que a pedra valeu mais que a estabilidade do solo e a segurança de quem mora na sombra do vulcão.

Enquanto a demanda por material barato e a fiscalização frouxa andarem juntas, as crateras de Santa Catarina seguirão abertas, e as casas na base seguirão contando as rachaduras parede a parede.

Recuperar dignidade paisagística e segurança geotécnica exige mais que decreto impresso: exige contenção física em escala compatível com o perímetro ferido, alternativa de renda para quem ainda extrai na informalidade, monitoramento real dos acessos rodoviários e de terra, e o reconhecimento de que um morro urbano não é depósito inesgotável de brita, e sim estrutura viva que, uma vez esvaziada, devolve o prejuízo em forma de lama, medo e deslocamento forçado.

Iztapalapa e Tláhuac já pagaram parte dessa conta com paisagem perdida, risco acumulado e noites de vigília; o que resta da serra funciona como aviso de que o próximo talude a ceder pode ser o da casa ao lado, no mesmo arco vulcânico que ainda domina o horizonte leste.

A poeira que sobe da cratera ao entardecer carrega o resumo material de tudo isso: rocha que deveria ter ficado no lugar, agora em suspensão no ar que crianças respiram no caminho da escola, em um ciclo que só se fecha quando a última pá deixar de morder o que ainda sustenta o morro e quando a encosta, mesmo ferida, deixar de ser tratada como mercadoria a céu aberto.

Estabilizar o que sobrou não devolve a silhueta antiga nem as trilhas de outrora, mas pode reduzir a velocidade do recuo, proteger fundações já expostas e devolver à serra alguma função de corredor ecológico e de referência coletiva.

Sem isso, o arco entre Iztapalapa e Tláhuac seguirá sendo lido menos como relevo vivo e mais como arquivo a céu aberto de decisões que preferiram a carga imediata de pedra à permanência do chão sob as casas.

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