
Quando os primeiros humanos chegaram às Américas? A pergunta é uma das mais debatidas da arqueologia. Uma revisão liderada pela pesquisadora Bethany Potter, da Universidade do Kansas, combinou dados de DNA antigo, sítios arqueológicos e condições climáticas e concluiu que o cenário mais coerente é uma chegada entre 14 mil e 20 mil anos atrás.
O trabalho foi publicado na revista científica Current Opinion in Genetics & Development.
Três hipóteses em teste
Os modelos de migração se dividem em três grupos. No primeiro, os ancestrais dos povos indígenas americanos chegaram antes do Último Máximo Glacial, há mais de 25 mil anos. No segundo, durante ele, entre 20 mil e 14 mil anos atrás. No terceiro, depois que ele terminou, há menos de 14 mil anos.
Os pesquisadores avaliaram como cada cronologia se encaixa nas três linhas de evidência. Durante o Último Máximo Glacial, mantos de gelo bloqueavam boa parte da América do Norte, e por isso muitos cientistas acreditam que os primeiros viajantes seguiram pela costa do Pacífico.
Por que nem antes, nem depois
Uma chegada depois de 14 mil anos atrás não combina com a maior parte da evidência genética, que mostra que linhagens importantes se separaram bem antes da abertura de um corredor terrestre entre as geleiras. Ou seja, as pessoas provavelmente já estavam no continente nessa época.
Uma chegada antes de 25 mil anos também tem problemas. Alguns sítios arqueológicos sugerem atividade humana mais antiga, mas os dados genômicos atuais não mostram separações de populações tão remotas. Grupos que viveram aqui nessa época podem não ter deixado descendentes, ou o DNA deles ainda não foi encontrado, ou deixaram só traços em populações posteriores.
A grande divisão
Os dados indicam que um grande evento de ramificação aconteceu há cerca de 15 mil anos, dividindo os viajantes em duas linhagens: a dos nativos americanos do norte e a do sul. A partir daí, os descendentes se espalharam pelas Américas do Norte e do Sul em uma série de migrações, e não num único movimento.
E o Brasil nessa história
O Brasil tem papel importante nesse debate. Na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, foram encontrados alguns dos esqueletos humanos mais antigos das Américas, entre eles o de Luzia, com cerca de 11 mil anos, e os sepultamentos da Lapa do Santo. Estudos de DNA desses indivíduos ajudaram a mostrar que pertenciam às mesmas grandes linhagens que deram origem aos povos indígenas atuais.
Há também sítios brasileiros que sugerem presença humana muito mais antiga, como alguns da Serra da Capivara, no Piauí, cujas datas são objeto de debate intenso entre arqueólogos.
Ciência com os povos indígenas
Os autores ressaltam que essas pesquisas envolvem os ancestrais de pessoas vivas. Por isso, defendem que a paleogenômica parta de perguntas formuladas também por arqueólogos e historiadores indígenas e respeite as necessidades e prioridades das comunidades descendentes.
Perguntas frequentes
Quando os humanos chegaram às Américas?
A revisão indica que o mais provável é entre 14 mil e 20 mil anos atrás, embora haja sítios que sugerem datas mais antigas.
Quem foi Luzia?
Uma mulher que viveu há cerca de 11 mil anos em Lagoa Santa (MG), cujo crânio está entre os mais antigos das Américas.
Com informações da Universidade do Kansas e do estudo publicado na Current Opinion in Genetics & Development.
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