A lenda do guaraná conta que a fruta nasceu dos olhos de um menino sateré-mawé, e o fruto aberto parece mesmo um olho

A lenda do guaraná conta que a fruta nasceu dos olhos de um menino sateré-mawé, e o fruto aberto parece mesmo um olho
Ilustração em massinha gerada por inteligência artificial / Revista Amazônia

A lenda do guaraná, contada pelo povo Sateré-Mawé, diz que a planta nasceu dos olhos de um menino. A mãe, Onhiamuaçabê, plantou os olhos do filho na terra, e deles brotou o guaraná. Quem já viu o fruto maduro aberto entende a história: a casca vermelha se abre e mostra uma semente preta cercada de polpa branca, igual a um olho.

É a segunda história da série Lendas da Amazônia, da Revista Amazônia, que reconta em vídeos de massinha as narrativas da floresta e mostra o que existe de real por trás de cada uma. O episódio do guaraná está nesta página, e todas as histórias da série estão reunidas no guia Lendas da Amazônia.

A lenda de Onhiamuaçabê e do menino

Os Sateré-Mawé contam que, no começo do mundo, três irmãos cuidavam de uma floresta encantada chamada Noçoquem, cheia de frutos. Eram Ocumáató, Icuamã e Onhiamuaçabê, a única mulher, conhecida pelos poderes e pelo conhecimento das plantas.

Os irmãos não queriam que ela se casasse. Mesmo assim, Onhiamuaçabê teve um filho, e o menino cresceu fascinado pelos frutos de Noçoquem, a mata que os tios guardavam com ciúme.

Assista em vídeo
Aldeia sateré-mawé e pés de guaraná, na versão em massinha da série Lendas da Amazônia
Aldeia sateré-mawé e pés de guaraná, na versão em massinha da série Lendas da Amazônia. Ilustração gerada por inteligência artificial.

Um dia, ele entrou sozinho na floresta para colher e não voltou mais. Em muitas versões, foram os próprios tios que o mataram por ter tocado no que era deles.

Onhiamuaçabê chorou o filho e fez a única coisa que podia: plantou os olhos do menino na terra. Deles nasceu uma planta que ninguém conhecia, o guaraná. Do corpo do menino, segundo a narrativa, surgiu o primeiro Sateré-Mawé. É por isso que esse povo se apresenta, até hoje, como filho do guaraná.

Como toda história contada de boca em boca, a lenda tem variações. Fora das aldeias, uma das versões mais repetidas fala de um casal que pede um filho a Tupã e perde o menino ainda pequeno. Em todas, o guaraná nasce dos olhos de uma criança.

Quem são os Sateré-Mawé

Os Sateré-Mawé vivem na Terra Indígena Andirá-Marau, na divisa entre o Amazonas e o Pará, em uma área que alcança municípios como Maués, Barreirinha e Parintins, no Amazonas, e Itaituba, no oeste paraense. Na língua do povo, a planta se chama waraná. Foram eles que transformaram o guaraná silvestre em cultivo, muito antes da chegada dos europeus, uma história que a Revista Amazônia já contou ao mostrar como os Sateré-Mawé domesticaram a planta.

O fruto que parece um olho

O guaraná, Paullinia cupana, é uma planta trepadeira nativa da Amazônia. O fruto é uma cápsula vermelha que, quando madura, se abre e expõe uma semente preta envolvida por uma camada branca. A semelhança com um olho é tão forte que aparece nas narrativas indígenas sobre a origem da planta, como registra a Embrapa.

Aberto, o fruto do guaraná mostra a semente preta cercada de polpa branca, como um olho
Aberto, o fruto do guaraná mostra a semente preta cercada de polpa branca, como um olho. Ilustração em massinha gerada por inteligência artificial.

A força do guaraná está na semente. Segundo a Embrapa, ela tem de 3,5% a 4% de cafeína, mais que o dobro do café, que fica entre 1% e 2%. É essa carga que explica a fama do guaraná como estimulante, do refrigerante ao pó e ao bastão ralado na hora.

Até a casca, que costuma ir para o lixo, está sendo estudada. A Revista Amazônia mostrou como pesquisadores usam um solvente feito de açúcar para tirar cafeína da casca do guaraná, e a botânica por trás do fruto que parece um olho.

O primeiro selo de origem de um povo indígena

A lenda também ganhou proteção legal. Em 2020, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) reconheceu a Terra Indígena Andirá-Marau como Denominação de Origem para o waraná, o guaraná nativo, e para o pão de waraná, o bastão de guaraná. Foi a primeira indicação geográfica desse tipo concedida a um povo indígena no Brasil.

O selo protege o jeito sateré-mawé de produzir, com cultivo artesanal e grãos secos e defumados. Como parte do território alcança o oeste do Pará, o guaraná dos filhos de Onhiamuaçabê também é uma história paraense.

Entenda a lenda

  • Povo: Sateré-Mawé, na divisa do Amazonas com o Pará.
  • Personagens: Onhiamuaçabê, os irmãos dela e o filho.
  • O que explica: a origem do guaraná e do próprio povo Sateré-Mawé.
  • A planta: Paullinia cupana, com mais que o dobro da cafeína do café.

O que a lenda ensina

A história de Onhiamuaçabê fala de uma perda que parecia o fim e virou começo. O que a mãe plantou com amor continuou ali, olhando pela floresta, e virou o fruto que desperta quem o prova. É a lição que o vídeo da série leva para o dia a dia: cuidar do que a gente planta.

A próxima história da série Lendas da Amazônia é a do açaí, na quinta-feira, 5 de novembro, aqui na Revista Amazônia, no YouTube e no Instagram.

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