Quatro múmias sentadas, com as mãos no rosto, ficaram mais de mil anos intactas ao lado de um templo no Peru e podem reescrever a conquista dos Nasca

Quatro múmias sentadas, com as mãos no rosto, ficaram mais de mil anos intactas ao lado de um templo no Peru e podem reescrever a conquista dos Nasca
O Beija-flor, um dos geoglifos das Linhas de Nasca, no Peru. Foto: Diego Delso, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Em Huaca del Loro, um grande sítio arqueológico do litoral sul do Peru, pesquisadores encontraram quatro múmias embrulhadas, sentadas, com os joelhos junto ao peito e as mãos em volta do rosto. A posição é típica de enterros peruanos. O que intrigou a equipe foi o lugar: elas estavam ao lado de um templo do império Wari, e não no cemitério onde estavam os outros mortos. E permaneciam intactas havia mais de mil anos, algo raro no Peru, onde muitos túmulos foram saqueados.

O achado levanta uma pergunta sobre um capítulo importante da história andina: os Wari conquistaram os Nasca pela força, ou houve colaboração entre os dois povos?

Os Nasca e os Wari

A civilização Nasca viveu no litoral sul do Peru entre os anos 1 e 750 da era cristã. É famosa pelas Linhas de Nasca, enormes figuras desenhadas no deserto, e por cerâmicas e tecidos de cores vivas. O império Wari, com centro em Ayacucho, nas terras altas, expandiu sua influência por boa parte dos Andes no período chamado Horizonte Médio. A versão mais aceita é que os Wari conquistaram os Nasca.

Tomografia e DNA

A antropóloga biológica Corina Kellner integrou a equipe que escavou Huaca del Loro em 2018 e voltou em 2022, quando as múmias foram encontradas. Neste ano, passou cinco semanas no Peru trabalhando com Melissa Lund, professora da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), e Alexandra Oshiro, pós-graduanda da mesma universidade.

Com autorização do Ministério da Cultura peruano e apoio do Museu Nacional de Lima, onde as múmias estão guardadas, a equipe fez tomografias e coletou amostras de DNA. Também coletou material de outras pessoas e animais do sítio para análises de isótopos, que ajudam a revelar dieta, parentesco e migrações.

Colonização sem violência?

Para Kellner, costuma-se imaginar a colonização como algo sempre violento, mas nem sempre é assim. Os achados sugerem que Wari e Nasca podiam ter uma relação anterior e que os Nasca talvez tenham apoiado o império.

A relação pode ter girado em torno de tecnologia e recursos. Os Nasca dominavam técnicas de cerâmica e cores. E viviam em terras baixas, ideais para cultivar algodão e coca. Já os Wari, em Ayacucho, a grande altitude, teriam dificuldade de plantar algodão, matéria-prima essencial para os tecidos.

A equipe procura sinais de resistência e técnicas de colonização para entender quão complexa era a relação entre os dois povos.

Por que as múmias peruanas se conservam

O deserto costeiro do Peru é um dos lugares mais secos do mundo. Sem umidade, bactérias e fungos quase não agem, e corpos enterrados na areia secam naturalmente, preservando pele, cabelo, tecidos e até alimentos deixados como oferenda. É por isso que a região guarda alguns dos achados arqueológicos mais bem conservados das Américas.

Perguntas frequentes

Quem eram os Nasca?

Uma civilização do litoral sul do Peru que viveu entre os anos 1 e 750 e ficou famosa pelas Linhas de Nasca.

O que foi o império Wari?

Um Estado andino com centro em Ayacucho que expandiu sua influência por grande parte do Peru antes dos incas.

Com informações da Pontifícia Universidade Católica do Peru e do Museu Nacional de Lima.

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