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Indígena Pataxó se torna o primeiro etnobotânico publicado do mundo e cataloga 175 plantas medicinais com anciãos de sua comunidade

Em 2026, Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi defendeu seu doutorado e publicou um estudo que o tornou o primeiro etnobotânico indígena com publicação científica formal no mundo. Trabalhando lado a lado com anciãos de sua comunidade Pataxó HãHãHãi, ele catalogou 175 plantas medicinais, muitas das quais tiveram seu uso tradicional confirmado pela literatura científica.

O estudo, publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, é resultado de uma abordagem participativa inédita. Em vez de um pesquisador externo extrair informações, o próprio indígena registrou e sistematizou o conhecimento de seu povo.

O método participativo

Hemerson e os anciãos decidiram priorizar as plantas usadas para os problemas de saúde mais comuns no território: diabetes, verminoses e hipertensão. Das 175 espécies, 43 foram indicadas especificamente para esses casos, e 79% delas já tinham suporte em publicações científicas anteriores. O trabalho não apenas documentou, mas também reforçou a confiança da comunidade em suas próprias receitas.

A orientadora, professora Rodrigues, destacou: “Hemerson é o primeiro [publicado] etnobotânico indígena do mundo. Não há outro.” O estudo cita anciãs como Dona Marta, que faleceu em dezembro de 2025, mas cujo conhecimento permanece vivo no artigo.

Números e resultados

  • 175 plantas medicinais catalogadas
  • 43 espécies para diabetes, vermes e hipertensão
  • 79% com suporte na literatura científica
  • Primeiro etnobotânico indígena publicado
  • Doutorado concluído em janeiro de 2026 na Unifesp

 

Desafios e significado

O trabalho de Hemerson enfrenta o desafio de traduzir um conhecimento oral, relacional e contextual para o formato acadêmico escrito. Ao mesmo tempo, ele demonstra que é possível ocupar os dois mundos: o da aldeia e o da universidade. O resultado fortalece a luta pela valorização dos saberes indígenas e serve de modelo para outros jovens indígenas que desejam fazer ciência a partir de sua própria tradição.

Relevância para o Brasil

Em um país com centenas de povos indígenas e milhares de plantas medicinais ainda pouco estudadas, o exemplo de Hemerson Pataxó mostra um caminho de autoria e protagonismo. Em vez de serem apenas informantes, os indígenas podem ser os autores da ciência que documenta seus próprios conhecimentos.

A importância do registro vai além da lista de espécies. Ao documentar o conhecimento com os próprios anciãos, o estudo preserva não apenas nomes e usos, mas também as relações de ensino e as narrativas que acompanham cada planta. Em um contexto de perda acelerada de saberes tradicionais, especialmente entre as gerações mais jovens, o trabalho de Hemerson funciona como um arquivo vivo e, ao mesmo tempo, como prova de que a ciência acadêmica pode e deve ser indigenizada.

Para o público brasileiro, a história reforça que a biodiversidade da Amazônia e da Mata Atlântica não é apenas um estoque de moléculas a serem descobertas por laboratórios externos. Ela é também o resultado de milênios de experimentação, observação e transmissão oral por povos indígenas. Reconhecer isso muda a forma como políticas de saúde, de educação e de conservação devem ser desenhadas.

A descoberta e a publicação desses conhecimentos reforçam a necessidade de políticas públicas que reconheçam os povos indígenas não apenas como guardiões da floresta, mas como produtores ativos de ciência e de soluções para os desafios ambientais contemporâneos. No Brasil de 2026, com a crescente valorização da bioeconomia e das soluções baseadas na natureza, essas histórias ganham relevância estratégica. Elas mostram que a inovação não precisa vir apenas de laboratórios urbanos; ela pode nascer da observação paciente, da experimentação geracional e do diálogo entre diferentes formas de conhecimento.

Para o leitor brasileiro, essas narrativas aproximam a Amazônia de uma história humana concreta, com nomes, números, datas e consequências mensuráveis. Elas substituem a imagem genérica de “floresta intocada” por uma paisagem de engenharia, ritual, manejo e resiliência construída ao longo de milênios. E, ao fazer isso, abrem espaço para um debate público mais informado sobre demarcação de terras, proteção de isolados, valorização de saberes tradicionais e combate ao desmatamento.

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