O calendário perfeito dos Manuscritos do Mar Morto tinha 364 dias e escorregava das estações; pesquisadora sugere por que a seita o abandonou

O calendário perfeito dos Manuscritos do Mar Morto tinha 364 dias e escorregava das estações; pesquisadora sugere por que a seita o abandonou
Pergaminho de cobre dos Manuscritos do Mar Morto, achado na caverna 3 de Qumran, no Museu da Jordânia. Foto: Osama Shukir Muhammed Amin, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Os Manuscritos do Mar Morto, encontrados a partir de 1947 em cavernas perto de Qumran, estão entre as descobertas arqueológicas mais importantes do século 20. Um dos mistérios que eles guardam é um calendário de exatos 364 dias. Por décadas, estudiosos discutiram se a seita de Qumran realmente seguia esse calendário ou se ele era só um ideal religioso. Um estudo da Universidade de Tel Aviv sugere que as duas coisas podem ser verdade, em momentos diferentes.

A pesquisa, da professora Eshbal Ratzon, foi publicada na revista acadêmica Tarbiz, dedicada aos estudos judaicos.

Um ano de 52 semanas exatas

O calendário de Qumran era bem diferente do calendário lunissolar que regia a vida religiosa judaica na época do Segundo Templo. Com 364 dias, o ano podia ser dividido exatamente por sete, formando 52 semanas completas. Assim, as festas religiosas caíam sempre no mesmo dia da semana.

Para a seita, essa ordem refletia um sistema divino perfeito. E tinha peso político: as autoridades do Templo de Jerusalém definiam as datas sagradas, mas os membros de Qumran acreditavam que as datas tinham sido fixadas por Deus na Criação e não podiam ser mudadas por pessoas.

O defeito do calendário perfeito

A elegância escondia um problema. Um ano de 364 dias é cerca de um dia e um quarto mais curto que o ano astronômico, de aproximadamente 365 dias e um quarto. Parece pouco, mas a diferença se acumula. Em 20 anos sem correção, as festas se deslocariam quase quatro semanas em relação às estações. Depois de algumas décadas, uma festa de primavera poderia cair no inverno ou até no outono.

Para uma comunidade com festas ligadas à agricultura, às colheitas e aos primeiros frutos, isso era um problema sério. É como um relógio que atrasa um minuto por dia: no começo ninguém nota, mas um dia ele deixa de mostrar a hora certa.

A explicação proposta

Alguns estudiosos acham que a seita acrescentava dias ou semanas de tempos em tempos para corrigir o calendário. Outros dizem que ele nunca foi usado no dia a dia. Para Ratzon, os manuscritos não apoiam claramente nenhuma das duas ideias.

Ela lembra que quase 20 manuscritos de Qumran tratam de calendários e astronomia, um número alto, sinal da importância do tema. O Livro dos Jubileus, preservado na biblioteca de Qumran, critica o calendário lunar e apresenta o de 364 dias como o original, dado a Moisés no monte Sinai.

A proposta é que a seita seguiu de fato o calendário de 364 dias em seus primeiros tempos, no século 2 a.C., e que a disputa sobre o tempo sagrado ajudou a afastá-la de Jerusalém. Com as décadas, o descompasso com as estações ficou impossível de ignorar. Ao mesmo tempo, as relações com a dinastia hasmoneia melhoraram no reinado de Alexandre Janeu, que apoiava regras religiosas parecidas com as da seita. Isso pode ter facilitado o abandono da posição rígida e a adoção do calendário usado no Templo.

Do uso ao ideal

O calendário não teria desaparecido do pensamento da seita. Teria sobrevivido como um ideal, válido na Criação e destinado a voltar no fim dos tempos. Segundo Ratzon, isso explica por que ele ocupa um lugar tão central nos textos de Qumran, mesmo sem ter permanecido em uso prático.

O nosso calendário também foi corrigido

O problema não é exclusivo de Qumran. O calendário juliano, usado na Europa por séculos, também acumulou atraso, e em 1582 o papa Gregório XIII precisou eliminar dez dias para realinhar as datas com as estações. É desse ajuste que vem o calendário gregoriano, usado hoje no Brasil e na maior parte do mundo, com os anos bissextos para compensar a fração de dia.

Perguntas frequentes

O que são os Manuscritos do Mar Morto?

Centenas de textos antigos, muitos religiosos, encontrados a partir de 1947 em cavernas perto de Qumran, junto ao mar Morto.

Por que o calendário de 364 dias não funcionava?

Porque era cerca de um dia e um quarto mais curto que o ano solar, e as festas se afastavam das estações com o tempo.

Com informações da Universidade de Tel Aviv.

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