
A lenda da vitória-régia, uma das histórias mais conhecidas do folclore amazônico, conta que a jovem indígena Naiá queria ser levada pela Lua para virar estrela, mergulhou num lago atrás do reflexo dela e foi transformada na flor gigante que hoje cobre lagos e rios da Amazônia. De origem tupi-guarani, a narrativa explica por que a flor da vitória-régia só se abre à noite, branca como a Lua.
A Revista Amazônia abre com ela a série Lendas da Amazônia, que reconta em vídeos de massinha as histórias que atravessam gerações na floresta. O primeiro episódio tem pouco mais de um minuto e está nesta página.
A lenda de Naiá e Jaci
Para os povos tupi-guarani, a Lua se chamava Jaci. Diziam que, nas noites claras, ela descia ao encontro das moças mais bonitas da aldeia e as levava para o céu, onde viravam estrelas.
Naiá cresceu ouvindo essa história e passou a desejar o mesmo destino. Subia ao alto da aldeia, escalava as árvores mais altas e estendia os braços para o céu, noite após noite. A Lua, porém, seguia longe.

Numa dessas noites, à beira de um lago, Naiá viu Jaci refletida na água, tão perto que parecia possível tocá-la. Mergulhou para alcançá-la e nunca mais voltou.
Comovida, Jaci decidiu que a jovem não seria esquecida. Em vez de levá-la ao céu, transformou Naiá numa estrela diferente, a estrela das águas. Nascia ali a vitória-régia, cuja flor branca e perfumada só se abre sob a luz da Lua.
Como toda narrativa oral, a lenda tem variações de contador para contador. Em algumas versões, a flor nasce branca em homenagem a Jaci e depois fica rosada, lembrando o rosto da jovem que se apaixonou pela Lua.
Quem é Jaci
Jaci é o nome da Lua na mitologia tupi-guarani. Em muitas narrativas, ela forma par com Guaraci, o Sol, e aparece como a dona das noites, a quem as histórias atribuem o poder de transformar quem a procura.
A planta real por trás da lenda
A vitória-régia existe e é tão impressionante quanto a história. Chamada pelos cientistas de Victoria amazonica, ela está entre as maiores plantas aquáticas do mundo, e suas folhas redondas, com a borda virada para cima, chegam a cerca de 2,5 metros de diâmetro.

A flor, que pode ter cerca de 40 centímetros, segue o roteiro que a lenda descreve. Abre ao entardecer, branca e perfumada, e na segunda noite já está rosada. A mudança de cor não é enfeite: faz parte do jeito como a planta se reproduz.
Na primeira noite, o perfume e o branco atraem besouros, que entram na flor e ficam presos ali por cerca de 24 horas, cobrindo-se de pólen. Um estudo clássico de Prance e Arias, publicado em 1975 na revista científica Acta Amazonica, encontrou a espécie Cyclocephala hardyi em 90% das flores examinadas. A Revista Amazônia já mostrou como a flor aquece por dentro e prende o besouro por uma noite.

As folhas também guardam engenharia. Por baixo, nervuras grossas e cobertas de espinhos formam uma armação que distribui o peso e afasta os animais que tentariam comê-las. Esse desenho inspirou o jardineiro inglês Joseph Paxton a projetar o Palácio de Cristal, em Londres, para a Grande Exposição de 1851, e ainda é estudado pela engenharia e pela arquitetura.
O nome é uma homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, que governava quando a planta foi descrita pela ciência europeia, no século 19. Para os povos da floresta, ela já era conhecida muito antes disso.
Onde ver uma vitória-régia em Belém
Em Belém, quem quer ver a estrela das águas de perto pode ir ao Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, no bairro de São Brás. Segundo o Museu Goeldi, a primeira tentativa de cultivar a planta no parque, em 1896, não deu certo, e a primeira flor abriu em 1900. O museu tem registros de folhas de 2,2 metros de diâmetro.
Na natureza, a planta vive em lagos e áreas de várzea de águas calmas da bacia amazônica, onde as folhas se espalham pela superfície e as flores se abrem com a chegada da noite, como na história de Naiá.
Entenda a lenda
- Origem: povos tupi-guarani.
- Personagens: Naiá, jovem indígena, e Jaci, a Lua.
- O que explica: a origem da vitória-régia e por que a flor se abre à noite.
- A planta: Victoria amazonica, nativa da bacia amazônica.
O que a lenda ensina
Naiá passou a vida esticando os braços para um céu que não era o dela e acabou brilhando onde ninguém olhava, na água, no próprio lugar. É a lição que o vídeo da Revista Amazônia leva para o dia a dia, em tempos de noites gastas olhando a vida dos outros na tela do celular.
A vitória-régia é a primeira história da série Lendas da Amazônia. Nas próximas semanas, outras narrativas da floresta ganham versão em massinha na Revista Amazônia, no YouTube e no Instagram.
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