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Queda de árvore de grande porte em várzea do Amazonas levanta sete urnas funerárias de até 350 kg e revela rituais indígenas de cerca de 2 mil anos

Em outubro de 2024, uma árvore de grande porte tombou nas várzeas do Lago da Cochila, no município de Fonte Boa, no interior do Amazonas. As raízes, ao se erguerem, trouxeram à tona algo que os pescadores locais nunca tinham visto: grandes vasos de cerâmica parcialmente enterrados. Em junho de 2025, o governo brasileiro e o Instituto Mamirauá anunciaram oficialmente a descoberta de sete urnas funerárias indígenas, algumas fragmentadas, contendo ossos humanos e restos de peixes e tartarugas.

A maior das urnas media quase 1 metro de diâmetro e pesava cerca de 350 quilogramas. Foi necessário um dia inteiro de trabalho e a força de seis homens para liberá-la das raízes. As escavações, lideradas pela arqueóloga Geórgea Holanda e pelo arqueólogo Márcio Amaral, ambos do Instituto Mamirauá, em Tefé, revelaram um sítio funerário que não se encaixa nas tradições cerâmicas já conhecidas na região.

Um cemitério sob as raízes

As urnas foram encontradas emaranhadas nas raízes da árvore que cresceu depois que os grupos humanos deixaram o local. Segundo os pesquisadores, a árvore provavelmente se desenvolveu sobre o antigo cemitério, atraída pelos nutrientes dos restos orgânicos. As urnas não tinham tampas e apresentavam formato mais arredondado, diferente das tradições Pocó-Açutuba (1500 a.C. a 200 d.C.), Borda Incisa ou da cerâmica policromada dos séculos 5 a 16.

A área faz parte de um conjunto de mais de 70 planícies artificiais construídas por grupos indígenas há cerca de 2 mil anos. Essas elevações de terra foram feitas para evitar as inundações sazonais do rio Solimões. O sítio fica a mais de 240 quilômetros de Tefé, e o trabalho só foi possível graças à mobilização da comunidade de Amandarubinha (ou Arumandubinha), que avisou os pesquisadores e acompanhou as escavações.

A morte como processo, não como momento

A arqueóloga Anne Rapp Py-Daniel, da Universidade Federal do Oeste do Pará, explica que, em muitas tradições indígenas da Amazônia, a morte é um processo longo. Os ossos são limpos – por enterro primário, cremação ou submersão em rio – e só depois colocados em urnas em uma segunda etapa ritual. As urnas eram frequentemente enterradas sob as casas, o que explica a proximidade com estruturas de habitação antigas.

Os restos de peixes e tartarugas encontrados junto aos ossos humanos levantam hipóteses sobre oferendas ou sobre a dieta e o simbolismo desses animais. A equipe decidiu não remover todas as urnas do local para preservar o contexto funerário. Algumas permaneceram in situ, protegidas.

Números e dificuldades logísticas

  • Sete urnas identificadas
  • Maior urna: quase 1 metro de diâmetro e cerca de 350 kg
  • Distância do Instituto Mamirauá: mais de 240 km
  • Mais de 70 planícies artificiais na região
  • Árvore tombada em outubro de 2024; escavações no início de 2025; anúncio em junho de 2025

Márcio Amaral relatou a dificuldade de extrair a maior urna: “Precisamos de um dia inteiro para soltar essa urna grande das raízes e de seis homens para retirá-la de lá.” Walfredo Cerqueira, membro da comunidade local, comentou que esperava um trabalho mais simples, mas logo percebeu que se tratava de um processo lento e cuidadoso.

Significado para a arqueologia da Amazônia central

A descoberta é considerada inédita porque a região do Médio Solimões ainda é pouco conhecida arqueologicamente. A dificuldade de acesso e a cobertura florestal densa limitam as pesquisas. Karen Marinho, arqueóloga da Universidade Federal do Oeste do Pará, afirmou que, “considerando o pouco que sabemos sobre o passado dessa região e a dificuldade de chegar lá, essa é realmente uma descoberta sem precedentes”.

As urnas não correspondem a nenhuma tradição cerâmica previamente descrita na área, o que sugere a existência de grupos culturais ainda não identificados ou de variações locais pouco documentadas. Isso reforça a ideia de que a Amazônia central abrigava uma diversidade cultural muito maior do que se imaginava.

Limitações e cuidados éticos

A idade exata das urnas ainda precisa ser confirmada por datação absoluta (radiocarbono). As hipóteses de 2 mil anos se baseiam principalmente no contexto das planícies artificiais e na ausência de materiais pós-contato. Os pesquisadores enfatizam a importância da colaboração com as comunidades locais. Geórgea Holanda destacou que “tudo isso teria sido impossível sem eles”.

Há também o cuidado de não transformar o sítio em atração turística descontrolada. O Instituto Mamirauá e as autoridades locais trabalham para garantir a proteção do local e o respeito aos rituais funerários.

Aproximação com o público brasileiro

Para os brasileiros, a história de Fonte Boa ilustra como a Amazônia continua revelando camadas de história a cada evento natural. Uma árvore que cai pode abrir uma janela para dois milênios de ocupação humana. Mostra também que o conhecimento local – dos pescadores e ribeirinhos – continua sendo a porta de entrada para muitas descobertas científicas.

A descoberta se soma a outras recentes no Amazonas e no Acre e ajuda a construir uma narrativa mais complexa e rica sobre o passado indígena da região. Em vez de uma floresta vazia, o que emerge é um território de práticas funerárias elaboradas, engenharia de terra e ocupação contínua por milhares de anos.

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