Adultos e crianças enterrados juntos em túmulos medievais pareciam famílias, mas o DNA mostrou que quase nunca eram parentes

Adultos e crianças enterrados juntos em túmulos medievais pareciam famílias, mas o DNA mostrou que quase nunca eram parentes
Ruínas da igreja de São Olavo, do século 12, em Sigtuna, na Suécia. Foto: Arild Vågen, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Quando arqueólogos encontram adultos e crianças enterrados juntos num túmulo medieval, a conclusão natural é que eram da mesma família. Um estudo da Universidade de Estocolmo, na Suécia, mostrou que, na maioria das vezes, não eram. O trabalho foi publicado na revista científica Science Advances.

142 pessoas

Os pesquisadores analisaram o DNA de 142 pessoas que viveram no fim da Era Viking e na Idade Média, incluindo mais de 60 crianças e adolescentes. Os restos vieram de túmulos coletivos em três lugares da Suécia: Sigtuna, perto de Estocolmo, Västerhus, na região de Jämtland, e Fjälkinge, na Escânia.

A genética revelou que parentes próximos eram surpreendentemente raros entre pessoas colocadas no mesmo túmulo, mesmo em cemitérios onde havia muitas ligações familiares no restante da população.

Segundo Maja Krzewińska, do Centro de Paleogenética da universidade, autora principal, a suposição era de que adultos e crianças no mesmo túmulo fossem pais e filhos ou parentes próximos, mas na maioria dos casos não foi isso que a equipe encontrou. A escolha de quem era enterrado junto parece ter dependido de fatores sociais, religiosos ou comunitários.

Para a pesquisadora Anna Kjellström, o DNA antigo finalmente deu aos arqueólogos a ferramenta para testar diretamente essas interpretações, debatidas há muito tempo.

Meninos e meninas

O DNA também permitiu saber o sexo biológico de crianças pequenas demais para que isso fosse identificado pelos ossos. Os resultados mostraram que meninos e meninas seguiam as mesmas regras de sepultamento dos adultos. Em Västerhus, homens e mulheres eram enterrados em lados diferentes do cemitério da igreja, e os meninos e meninas seguiam o mesmo padrão.

Para o professor Anders Götherström, as crianças não eram tratadas como uma categoria à parte. Na morte, seguiam os mesmos princípios sociais e religiosos dos homens e das mulheres adultos, sinal de que a identidade de gênero era reconhecida desde cedo.

A mulher da concha

Em Västerhus, a equipe reconstruiu a história de uma família. Uma mulher, chamada no estudo de Senhora 56, tinha ligação genética com os pais, um irmão e duas filhas, enterrados em partes diferentes do mesmo cemitério. Ela morreu antes dos 30 anos.

No túmulo dela havia uma concha de vieira, objeto incomum em sepulturas medievais escandinavas. A vieira era o símbolo da peregrinação a Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. Isso sugere que ela pode ter feito uma das peregrinações mais famosas da Europa medieval, viajando milhares de quilômetros até o extremo oeste do continente e voltando para casa.

A concha que virou símbolo

A vieira continua sendo o símbolo do Caminho de Santiago, percorrido hoje por centenas de milhares de pessoas por ano, inclusive muitos brasileiros. Peregrinos levam a concha presa à mochila, uma tradição que, como mostra o túmulo de Västerhus, já existia há muitos séculos.

O que o DNA conta

Para os pesquisadores, o estudo mostra que a arqueogenética revela muito mais do que parentesco. Junto com a arqueologia, ela ajuda a reconstruir como as comunidades medievais se organizavam, como as crianças eram tratadas e como a religião moldava os rituais da morte.

Perguntas frequentes

Pessoas enterradas juntas eram da mesma família?

Não necessariamente. Nos túmulos medievais suecos estudados, parentes próximos eram raros.

O que a concha de vieira significa?

É o símbolo da peregrinação a Santiago de Compostela, na Espanha.

Com informações da Universidade de Estocolmo e do estudo publicado na Science Advances.

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