
Quatro dentes e um fragmento de osso do tarso, datados de cerca de 11 milhões de anos, encontrados na Formação Solimões Superior, no Acre, reescrevem a história evolutiva dos muriquis – os maiores primatas das Américas. O estudo, publicado no Journal of Mammalian Evolution em 2026 e liderado por Laurent Marivaux (Universidade de Montpellier) com participação da USP (Annie Hsiou) e outras instituições brasileiras e estrangeiras, descreve duas espécies novas: Parabrachyteles vesperus e Migmacebus juruaensis.
A descoberta de um parente próximo dos muriquis atuais no Acre indica que os ancestrais desse grupo viveram na Amazônia ocidental brasileira antes de se restringirem à Mata Atlântica, onde hoje estão ameaçados de extinção.
O que os fósseis revelam
Parabrachyteles vesperus pesava cerca de 6 kg e tinha dieta rica em folhas fibrosas, semelhante à dos muriquis atuais. Migmacebus juruaensis não ultrapassava 1 kg e se alimentava principalmente de frutos e objetos duros, como os atuais macacos-prego e parauacus. Os fósseis mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira.
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Ele viu as cerejas vermelhas pendendo sobre o próprio jardim e pensou que já eram suas; na França colher o fruto ainda preso ao galho do vizinho é proibido e só o que cai sozinho no chão passa a ser seu“A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo”, afirmou Laurent Marivaux. Antes, não havia registro fóssil claro de ancestrais dos muriquis na Amazônia.
Contexto geológico e biogeográfico
Os fósseis vêm de depósitos de 11 milhões de anos (Mioceno superior). Naquela época, a Amazônia ocidental tinha paisagens diferentes das atuais, com sistemas fluviais e florestas que permitiam a dispersão de primatas. A restrição posterior dos muriquis à Mata Atlântica provavelmente resultou de mudanças climáticas, geológicas e de competição.
A presença de um atelídeo (parente dos muriquis, bugios e macacos-aranha) tão antigo na Amazônia ocidental sugere que a região foi um importante centro de diversificação de primatas neotropicais.
Importância para o Brasil e a conservação
O muriqui (Brachyteles) é o maior primata das Américas e está criticamente ameaçado. Conhecer sua história evolutiva ajuda a entender a fragilidade atual da espécie e a importância de corredores ecológicos entre a Amazônia e a Mata Atlântica no passado. No Brasil, a descoberta reforça o valor científico dos sítios paleontológicos do Acre e a necessidade de proteção dessas áreas.
O trabalho também destaca a colaboração internacional e a importância de coleções brasileiras (Universidade Federal do Acre, Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul e USP).
Conclusão
Quatro dentes e um osso de 11 milhões de anos mostram que a Amazônia brasileira já foi lar de ancestrais do maior primata das Américas. A história dos muriquis começa no Acre. Proteger a biodiversidade atual e o patrimônio fossilífero é proteger a memória evolutiva do continente.
Fonte: Marivaux, L. et al. New records of platyrrhine primates (Atelidae and Cebidae) from the Miocene of Western Amazonia, State of Acre, Brazil. Journal of Mammalian Evolution, 2026. Participação USP e instituições brasileiras.
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