A lenda do açaí conta que o fruto ganhou o nome de Iaçá, a filha do cacique, escrito ao contrário

A lenda do açaí conta que o fruto ganhou o nome de Iaçá, a filha do cacique, escrito ao contrário
Ilustração em massinha gerada por inteligência artificial / Revista Amazônia

A lenda do açaí conta que o fruto mais famoso do Pará ganhou o nome de Iaçá, a filha de um cacique, escrito ao contrário. Num tempo de fome, ela perdeu a filha recém-nascida e foi encontrada abraçada a uma palmeira, com os olhos voltados para os cachos de frutinhas escuras que salvariam o seu povo. A história se passa onde hoje fica Belém.

É a terceira história da série Lendas da Amazônia, da Revista Amazônia, que reconta em vídeos de massinha as narrativas da floresta e mostra o que existe de real por trás de cada uma. O episódio do açaí está nesta página, e todas as histórias estão reunidas no guia Lendas da Amazônia.

A lenda de Iaçá e do cacique Itaki

Segundo a lenda, um povo indígena muito numeroso vivia no lugar onde está Belém. A população cresceu tanto que a comida começou a faltar, e o cacique Itaki tomou uma decisão terrível: as crianças que nascessem dali em diante não poderiam viver.

A ordem alcançou a própria família do cacique. Iaçá, a filha de Itaki, deu à luz uma menina e também a perdeu. Desde então, passava as noites chorando dentro da oca.

Assista em vídeo
Os cachos de açaí ficam no alto da palmeira, como na lenda de Iaçá
Os cachos de açaí ficam no alto da palmeira, como na lenda de Iaçá. Ilustração em massinha gerada por inteligência artificial.

Numa dessas noites, Iaçá ouviu um choro de criança vindo da mata. Ao sair, viu a filha sorrindo ao pé de uma palmeira alta. Correu para abraçá-la, mas abraçou apenas o tronco. Na manhã seguinte, foi encontrada ali, abraçada à palmeira, com os olhos voltados para o alto, onde pendiam cachos de frutinhas escuras.

Itaki mandou colher os frutos. Deles saiu um vinho espesso e roxo que alimentou o povo inteiro, e o cacique suspendeu a ordem. Em homenagem à filha, deu ao fruto o nome dela invertido: Iaçá virou açaí.

Como toda narrativa oral, a lenda tem variações de grafia e de detalhe. Em algumas versões a filha do cacique se chama Iaçã. Em todas, o açaí nasce da dor de uma mãe e acaba com a fome de um povo.

O fruto real por trás da lenda

O açaí vem da palmeira Euterpe oleracea, comum nas várzeas e nas margens de rios da Amazônia, onde cresce em touceiras com vários troncos finos e altos. Os frutos são pequenos, redondos e de cor roxa quase preta, agrupados em cachos no alto da palmeira, exatamente como a lenda descreve.

Para colher, os apanhadores sobem no tronco com a peconha, um laço de fibra preso aos pés que dá apoio na subida, uma técnica que atravessou gerações nas comunidades ribeirinhas do Pará.

O Pará é a terra do açaí

A lenda que nasce em Belém se confirma nos números. Segundo o IBGE, o Brasil produziu cerca de 1,7 milhão de toneladas de açaí em 2023, e o Pará respondeu por 93% desse total. O fruto aparece no Plano Nacional de Logística 2050 ao lado da castanha e do pirarucu, como a Revista Amazônia mostrou em reportagem sobre a logística da sociobiodiversidade da Amazônia.

Barcos chegam de madrugada com rasas de açaí em Belém
Barcos chegam de madrugada com rasas de açaí em Belém. Ilustração em massinha gerada por inteligência artificial.

Em Belém, o açaí não é sobremesa. É comida de todo dia, tomada como um vinho grosso, sem açúcar, acompanhado de farinha d’água e de peixe frito ou camarão. De madrugada, os barcos chegam carregados de rasas de açaí à Feira do Açaí, ao lado do Ver-o-Peso, de onde o fruto segue para as batedeiras espalhadas pela cidade.

Entenda a lenda

  • Onde se passa: no lugar onde hoje fica Belém, no Pará.
  • Personagens: o cacique Itaki e a filha dele, Iaçá.
  • O que explica: a origem do açaí e do nome do fruto, que é Iaçá ao contrário.
  • A planta: Euterpe oleracea, palmeira das várzeas amazônicas.

O que a lenda ensina

Na história, a solução para a fome esteve o tempo todo ali, no alto da palmeira, enquanto o cacique tomava a decisão mais dura que podia tomar. É a lição que o vídeo da série leva para o dia a dia: antes de decidir com dureza, olhar ao redor e para cima.

A série segue com outras lendas da Amazônia, e as anteriores estão no guia: a lenda da vitória-régia, de Naiá e Jaci, e a lenda do guaraná, dos Sateré-Mawé.

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