
Nem toda picada de cobra injeta veneno. Quando injeta, porém, o envenenamento pode matar, e a maior parte das vítimas está em comunidades rurais pobres de regiões tropicais, longe de hospitais. Um novo estudo sobre o tamanho desse problema chegou a números muito maiores do que as estatísticas oficiais mostravam: entre 274 mil e 513 mil mortes por ano no mundo.
O levantamento foi feito por especialistas em epidemiologia de doenças tropicais, entre eles o cientista de dados em saúde Dileepa Ediriweera, da Liverpool School of Tropical Medicine, no Reino Unido. O trabalho atualiza um estudo de referência publicado pelo mesmo campo de pesquisa em 2008.
Uma crise sem dados
O ponto de partida foi a falta de informação. Mais da metade dos países onde cobras venenosas são um risco não contam quantas pessoas são picadas ou envenenadas. Na África subsaariana e no sul da Ásia, muitas vítimas vivem a horas da clínica mais próxima, não têm transporte ou procuram curandeiros tradicionais. Esses casos nunca entram nas estatísticas.
Os pesquisadores revisaram estudos de 79 países publicados até março de 2025. Para preencher os vazios, construíram um modelo estatístico que combina os dados reais com fatores locais, como clima, número de espécies de cobras e indicadores socioeconômicos. O modelo calcula a probabilidade de picadas em cada lugar, mesmo onde os registros oficiais estão em branco.
Os números
- Pelo menos 2,1 milhões de pessoas sofrem envenenamento por cobra por ano, e o número real pode chegar a 7 milhões.
- As mortes anuais ficam entre 274 mil e 513 mil, considerando a subnotificação.
- Mais de 800 mil sobreviventes ficam com deficiências permanentes por ano, incluindo amputações.
- A África subsaariana responde por 45% de todos os envenenamentos e mortes do mundo.
Por que a África é a mais atingida
Segundo os autores, as causas são estruturais. O continente tem grande diversidade de serpentes de importância médica, como víboras do gênero Echis, a víbora Bitis arietans, najas e mambas. Milhões de trabalhadores rurais atuam em lavouras sem botas e caminham à noite em trilhas sem iluminação. Quando há uma picada, sistemas de saúde frágeis, longas distâncias e o preço alto ou a falta de soro transformam uma emergência tratável em morte. Em países como Nigéria, República Democrática do Congo e Etiópia, a carga é especialmente alta.
Meta da OMS
A Organização Mundial da Saúde tem a meta de reduzir pela metade as mortes e incapacidades por picada de cobra até 2030. Para os pesquisadores, mapear o problema país por país é o primeiro passo. Com mapas de risco, governos podem estocar soro onde ele é mais necessário, treinar profissionais de atenção básica em áreas rurais e melhorar o transporte de vítimas.
Sequelas que empobrecem famílias
O estudo chama atenção para um efeito menos lembrado das picadas: as sequelas. Amputações, lesões nos rins e perda de movimentos afetam sobretudo agricultores em idade de trabalho. Segundo os autores, essas deficiências reduzem a renda das famílias, aumentam os gastos com saúde e empurram para a pobreza quem já vivia com pouco. Por isso, a picada de cobra é tratada pela OMS como uma doença tropical negligenciada, ao lado de enfermidades como a doença de Chagas e a leishmaniose.
Como é no Brasil
O Brasil registra cerca de 30 mil acidentes com serpentes por ano, a maioria causada por jararacas e outras espécies do gênero Bothrops. O número de mortes é proporcionalmente baixo graças a um diferencial importante: o país produz o próprio soro antiofídico, em instituições como o Instituto Butantan, e o distribui de graça pelo SUS. Mesmo assim, a Região Norte tem as maiores taxas de acidentes e enfrenta o mesmo desafio descrito no estudo, a distância entre a vítima e o hospital.
O que fazer em caso de picada
- Procure atendimento médico imediatamente, de preferência num hospital de referência.
- Mantenha a vítima calma e deitada, com o membro picado elevado.
- Não faça torniquete, não corte nem chupe o local e não passe nenhuma substância.
- Se for possível fazer isso com segurança, fotografe a cobra para ajudar na identificação, sem tentar capturá-la.
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