Cobras minúsculas da Ásia fogem do perigo rolando como uma roda, quatro vezes mais rápido do que rastejam, e mantêm a cabeça parada

Cobras minúsculas da Ásia fogem do perigo rolando como uma roda, quatro vezes mais rápido do que rastejam, e mantêm a cabeça parada
Cobra-anã do gênero Pseudorabdion no sudeste da Ásia. Foto: Rushen, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0.

Quase todas as cobras fogem da mesma maneira: ondulando o corpo de um lado para o outro. As cobras-anãs do gênero Pseudorabdion, do sudeste da Ásia, têm uma saída diferente. Quando ameaçadas, elas rolam pelo chão como se fossem uma roda e alcançam velocidades cerca de quatro vezes maiores do que conseguem rastejando. Um estudo filmou a manobra em vários ângulos e explicou como esses répteis pequenos fazem algo que parecia impossível para um animal sem rodas.

Por que rolar é tão difícil

Rolar parece um jeito eficiente de andar, mas é um desafio enorme para um ser vivo. Uma roda gira em volta de um eixo fixo, e o que está em cima dela não gira junto. Animais não têm essa separação. Se o corpo inteiro gira, a cabeça e os órgãos dos sentidos giram também, o que dificulta manter o equilíbrio, enxergar e escolher a direção. Quanto maior a velocidade, pior.

Por isso, poucos animais rolam de propósito para fugir de predadores. As cobras-anãs são uma das exceções. O comportamento já aparecia em guias de campo e tinha sido registrado em observações na natureza, mas ninguém sabia exatamente como ele funcionava.

Até 3,7 metros por segundo

Os pesquisadores filmaram as cobras de diferentes ângulos e analisaram como cada parte do corpo se movia. Rolando, os animais atingiram velocidades máximas entre 1,72 e 3,69 metros por segundo, cerca de quatro vezes mais do que a velocidade máxima quando se deslocavam ondulando, o jeito comum das serpentes.

E não era um rolamento descontrolado. As cobras conseguiram seguir uma pista estreita, com apenas 20 centímetros de largura, sem sair do caminho. Ou seja, mesmo girando, elas tinham controle da direção.

O movimento passo a passo

As filmagens mostraram uma sequência mais complexa do que um simples giro. Em vez de rodar o corpo inteiro de uma vez, a cobra alterna entre rolar sobre um lado e jogar para baixo, ao lado da cabeça, uma parte curvada do corpo. Os pesquisadores chamaram esse movimento de batida. A cada ciclo, o lado que toca o chão muda, e a batida inverte o sentido, da esquerda para a direita e depois ao contrário. Repetido em ritmo, o padrão gera um rolamento contínuo para a frente.

A cabeça fica no lugar

A descoberta mais surpreendente envolve a cabeça. Enquanto a parte de trás do corpo gira com força, a cabeça continua apontada para a frente, na direção do deslocamento, e mantém uma altura quase constante em relação ao chão. Em velocidades maiores, as cobras erguem um pouco a cabeça e reduzem ainda mais os movimentos para cima e para baixo.

Na prática, o animal divide o corpo em funções. A maior parte faz o giro que impulsiona a fuga, e a cabeça funciona como uma plataforma estável que permite controlar a direção. Tudo isso sem nenhuma separação mecânica, só com coordenação muscular.

O que isso ensina sobre evolução

Para os autores, o caso mostra que a anatomia de um animal não determina sozinha tudo o que ele consegue fazer. Comportamentos inovadores e uma coordenação precisa podem abrir possibilidades que o formato do corpo, à primeira vista, não sugere.

E as cobras brasileiras?

No Brasil, nenhuma serpente é conhecida por fugir rolando desse jeito. Algumas espécies usam outras estratégias curiosas de defesa. A cobra-cipó foge em alta velocidade pela vegetação, a boipeva achata o corpo para parecer maior, e algumas espécies escondem a cabeça sob o corpo e erguem a cauda, que passa a parecer outra cabeça, para confundir o predador. Mesmo assim, a manobra das cobras-anãs asiáticas mostra que, na natureza, sempre pode haver uma forma de locomoção que ninguém tinha imaginado.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA